Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Boletim das Mulheres Negras no Mercado de Trabalho – 3º trimestre de 2021

 

Sumário executivo

O Boletim das Mulheres Negras no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen com o objetivo de analisar os dados relativos à inserção das mulheres negras no mercado de trabalho, a partir dos microdados da PNAD contínua do IBGE.

Neste número são apresentados os dados referentes ao 3º trimestre de 2021. Ressalta-se que o ano de 2020 foi marcado por uma crise sanitária que se somou à crise econômica que vigorava desde 2015[1]. Essa conjunção de crise econômica e sanitária ainda é observada para o 3º trimestre de 2021, com fortes reflexos sobre a população negra, em especial, sobre as mulheres negras. Os destaques deste número foram:

  • Mulheres negras foram 35,0% das pessoas desocupadas, 34,3% das pessoas subocupadas, 41,5% das pessoas na força de trabalho potencial, portanto, 36,9% das pessoas com trabalho subutilizado pela economia brasileira. Essas participações são muito maiores do que a participação dessas mulheres na população em idade ativa brasileira (28,5%).
  • A maior taxa de crescimento de pessoas na força de trabalho com relação ao mesmo trimestre do ano anterior foi a das mulheres negras (+11,9%). No entanto, esse foi o único grupo social cujo número de pessoas desocupadas aumentou (+3,7%) no período de um ano. Com isso, e com a elevação substantiva da subocupação dessas mulheres (+27,4%), a redução do número delas na força de trabalho potencial (pessoas indisponíveis ou em desalento) resultou na menor redução da subutilização da força de trabalho dentre todos os grupos sociais, aumentando a disparidade de condições entre essas mulheres e outros grupos (sobretudo com os homens brancos).
  • O maior aumento da taxa de participação esteve entre as mulheres negras, mostrando a urgência e necessidade pela busca de um trabalho por essas mulheres em um contexto de redução do valor e da cobertura do auxílio emergencial.
  • A taxa de desocupação das mulheres negras diminuiu não porque o número delas na desocupação se reduziu, mas porque a força de trabalho delas aumentou mais do que a desocupação. A redução da taxa de subutilização da força de trabalho ampliada das mulheres negras também seguiu a mesma lógica, a saber, o forte aumento da força de trabalho, que recebeu contingente novo, da força de trabalho potencial e também das mulheres negras que estavam fora da força de trabalho ampliada. A redução de mulheres nesse último grupo (fora da força de trabalho ampliada) pode significar a saída das mulheres negras jovens da condição de estudante em tempo integral e também o retorno de mulheres negras já aposentadas ao mercado de trabalho.
  • Com relação as opções de trabalho que foram abertas no 3º trimestre de 2021, vale mencionar o substantivo aumento dos trabalhos informais, sem carteira de trabalho, empregadores e conta-própria sem registro formal e trabalhadores auxiliares da família. Essas posições na ocupação foram as que mais cresceram para as mulheres negras.
  • Quanto às desigualdades salariais, verificou-se que o rendimento médio das mulheres negras chefes de família foi de apenas 68,6% da média do Brasil ou 39,1% dos rendimentos médios dos homens brancos responsáveis pelo domicílio.

Em especial para as mulheres negras, o cenário atual é de extrema desigualdade e vulnerabilidade, sendo imperioso que políticas públicas sejam ativadas para minimizar e superar a situação precária em que a maior parte das mulheres negras vive no mercado de trabalho.

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Introdução

O Boletim Mulheres Negras tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao mercado de trabalho e sob um recorte de raça e gênero, com a preocupação de jogar luz e realizar o acompanhamento da realidade vivenciada pelas mulheres negras no acesso às vagas de emprego e a outras formas de ocupação, salientando as suas formas de participação em comparação com a de outros grupos sociais (mulheres brancas, homens negros e homens brancos). Por ser um boletim de caráter conjuntural, a análise é focalizada nos dados do último trimestre disponível, comparando-o com o do mesmo trimestre do ano anterior e com o do trimestre imediatamente anterior.

Neste Boletim, o foco está no 3º trimestre de 2021 e no seu cotejamento com o 3º trimestre de 2020 e com o 2º trimestre de 2021. Vale ressaltar que o ano de 2020 foi marcado por uma crise sanitária, ocasionada pela disseminação do novo coronavírus, somada à crise econômica que vigorava desde 2015. Somou-se a isso a insuficiência das políticas sociais, econômicas e sanitárias para o controle da pandemia e da crise econômica, com fortes consequências para as possibilidades de as pessoas obterem trabalho e rendimentos, sobretudo a população negra e, em especial, as mulheres negras. Essa conjunção de crise econômica e sanitária e políticas públicas insuficientes ainda é observada para o 3º trimestre de 2021.

Com essa finalidade, este boletim está organizado da seguinte forma: além desta introdução e das considerações finais, a análise se divide em cinco seções. A primeira apresenta a classificação da população em idade ativa[2] comparando inicialmente as populações negra[3] e branca[4] sem o enfoque de gênero. A partir da segunda seção, então, a análise recai sobre as mulheres negras, objeto de estudo do Boletim. Esse grupo passa a ser analisado e comparado com os demais, mostrando as divergências mais relevantes em cada categoria. A terceira seção destaca as taxas do mercado de trabalho que são formadas a partir das categorias da PIA, quais sejam, as taxas de participação, de desocupação, de subocupação, de subutilização e percentual de desalentados. Na quarta seção, são apresentadas as posições na ocupação, considerando sua cor e gênero. A última seção exibe uma comparação dos rendimentos das mulheres negras, com alguns recortes específicos, tais como nível de instrução e idade.

1.             CATEGORIAS DA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA (PIA)

No 3º trimestre de 2021, a população brasileira estimada foi de 212,8 milhões de habitantes, de acordo com os dados da PNAD Contínua do IBGE, com a seguinte subdivisão de cor ou etnia: população negra representou 54,9% do total, sendo 45,6% de cor parda e 9,3% de cor preta, a população branca declarada foi de 44,7%, sendo 43,9% de cor branca e 0,7% de cor amarela, a população indígena representou 0,4% do total da população e pessoas sem declaração de cor (0,04%).

Tabela 1 – Brasil: População total, segundo cor ou raça (em mil pessoas; participação percentual) – 3º trimestre 2021
População (em mil pessoas) Participação (%)
Brasil 212.808 100,0
  População Negra 116.930 54,9
    – Pretos 19.784 9,3
    – Pardos 97.146 45,6
  População Branca 95.030 44,7
    – Branca 93.526 43,9
    – Amarelos 1.503 0,7
  Indígenas 773 0,4
  Outros 76 0,04

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

A seguir, busca-se comparar a inserção numérica da população de cor negra com a de cor branca nas categorias da PIA. Há duas subdivisões da PIA: a população na força de trabalho (FT) – pessoas que estavam ocupadas[5] ou desocupadas[6] no período de referência da pesquisa – e a população fora da força de trabalho (FFT) – pessoas que não estavam ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. As pessoas que estão FFT estão subdivididas, por sua vez, em outras duas categorias: as pessoas na força de trabalho potencial (FTP) e as pessoas fora da força de trabalho potencial (fora da FTP).

Gráfico 1 – Brasil: Composição da População em Idade Ativa (PIA) da população negra e da população branca (em mil pessoas; participação percentual) – 3º trimestre de 2021

Em consonância com a maior participação na população total brasileira, a população negra correspondeu à maioria da PIA, 54,7%, em comparação com a branca (45,3%). Essas proporções se mantiveram para a FT e para a população FFT.

A alta participação da população negra na FT se deveu à sua enorme representatividade entre as pessoas desocupadas (63,1%). Na população ocupada, sua participação foi menor (53,6%) e menor, inclusive, do que a sua participação na PIA, mostrando uma dificuldade relativamente maior para encontrar empregos do que a população branca, cuja participação foi de 46,4% entre as pessoas ocupadas, maior que a sua participação na PIA, e de apenas 36,9% entre as desocupadas.

Nas categorias das pessoas FFT, observou-se que a população negra figurou em maior número do que a branca entre aquelas pessoas que estão na força de trabalho potencial (FTP) (67,2%) e também entre aquelas que estão fora da força de trabalho potencial (FFTP) (52,7%), ainda que essa participação seja menor do que o seu peso na PIA. Isso significa que, nesse período analisado, das pessoas em idade ativa que não estavam na força de trabalho, as pessoas negras, mais do que as brancas, estavam nessa situação contra seu desejo e sua necessidade, pois estavam na força de trabalho potencial (FTP), como indisponíveis para assumir uma vaga (pessoas negras eram 61,3% dessa categoria) ou em desalento (pessoas negras representavam 72,2% nessa condição). Portanto, a população negra, que foi, no 3º trimestre de 2021, maioria na população total e naquela em idade ativa, também o era em todas as subdivisões da PIA. Porém, a sua representatividade foi relativamente maior naquelas posições do mercado de trabalho mais frágeis, como a população desocupada (63,1%), a subocupada (64,6%), e na FTP (67,2%) e nas suas duas subdivisões. Assim, a subutilização da força de trabalho ampliada que reúne essas três categorias mostrou uma participação da população negra de 64,8%, 10,1 pontos percentuais superior à sua participação na PIA (54,7%). A população branca, por sua vez, enquanto correspondeu a 45,3% da PIA, apresentou uma participação de 35,2% no total de pessoas subutilizadas (sendo 36,9% das pessoas desocupadas, 35,4% das subocupadas e 32,8% da FTP ­– 38,7% de indisponíveis e 27,8% em desalento).

2.             CATEGORIAS DA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA POR COR E SEXO
2.1.        Participação percentual nas categorias da PIA no 3º trimestre de 2021

Após a análise mais abrangente de comparação entre os grupos sociais por raça e cor, também é possível incluir as diferenças de sexo. Este item apresenta a análise das categorias da PIA com a finalidade de salientar a posição da mulher negra frente às demais composições por sexo.

Sendo assim, pela tabela 2, observa-se que as mulheres negras foram numericamente o maior grupo na PIA (28,5%) em comparação com os outros três grupos (homens negros, 26,2%; mulheres brancas, 24,6%; e homens brancos, 20,6%) no 3º trimestre de 2021. No entanto, a representatividade das mulheres negras se reduz substancialmente entre as pessoas na FT (24,0%) e entre as pessoas ocupadas (22,4%). Enquanto isso, a dos homens negros e brancos, se eleva com relação às suas participações na PIA (para 30,8% e 31,2% para os homens negros na população na FT e ocupada, respectivamente, e 24,0% e 25,1% para os homens brancos, respectivamente). Como as mulheres negras, as mulheres brancas também tiveram uma participação menor na FT (21,2%) e nas pessoas ocupadas (21,3%) do que na PIA dessas mulheres (24,6%). No entanto, a maior diferença entre sua participação na PIA, na FT e na população ocupada, ocorre com as mulheres negras (28,5% na PIA versus 24,0% na FT e 22,4% na população ocupada). Essa distância revela sua maior representatividade relativa nas categorias de desocupação (35,0%) e na FTP (41,5%).

Tabela 2 – Brasil – População em Idade Ativa e suas categorias, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (em participação percentual) – 3º trimestre de 2021
População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens Total
População em Idade Ativa 28,5 26,2 24,6 20,6 100,0
  A. Força de Trabalho (A.1 + A.2) 24,0 30,8 21,2 24,0 100,0
     A.1. Pessoas Ocupadas 22,4 31,2 21,3 25,1 100,0
       A.1.1. Pessoas Subocupadas 34,3 30,3 20,6 14,8 100,0
     A.2 Pessoas Desocupadas 35,0 28,2 20,4 16,5 100,0
  B. Fora da Força de Trabalho (B.1 + B.2) 35,0 19,6 29,5 15,8 100,0
     B.1 Força de Trabalho Potencial (B.1.1 + B.1.2) 41,5 25,8 20,5 12,3 100,0
       B.1.1 Indisponíveis 41,6 19,7 25,8 12,9 100,0
       B.1.2 Desalentados 41,3 30,8 16,0 11,8 100,0
     B.2 Fora da Força de Trabalho Potencial 34,0 18,7 30,9 16,4 100,0
Força de Trabalho Ampliada (A + B.1) 25,5 30,4 21,1 23,0 100,0
Subutilização da Força de Trabalho Ampliada (A.1.1 + A.2 + B.1) 36,9 27,9 36,9 14,7 100,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Portanto, as mulheres negras representam a maioria nas subcategorias de inserção mais frágil, superando, também, a sua participação na PIA: pessoas subocupadas (34,3%), pessoas desocupadas (35,0%), FFT (35,0%), na FTP (41,5%), pessoas indisponíveis (41,6%), desalentadas (41,3%), na FFTP (34,0%) e na subutilização da força de trabalho ampliada (36,9%). Apenas nas pessoas FTA a maior parcela esteve com os homens negros (30,4%), sendo o segundo lugar das mulheres negras (25,5%), mas enquanto os homens negros apresentaram essa alta participação por conta do seu peso na FT, as mulheres negras foram expressivas na FTA pela sua alta participação relativa na FTP.

A análise do grupo que se coloca como extremo oposto às mulheres negras, os homens brancos, deixa ainda mais evidente a desigualdade entre os dois grupos. Afinal, os homens brancos representaram, em todas as categorias que mostram uma inserção mais precária no mercado de trabalho, uma parcela menor do que sua representatividade na PIA (20,6%): pessoas subocupadas (14,8%), pessoas desocupadas (16,5%), FFT (15,8%), na FTP (12,3%), pessoas indisponíveis (12,9%), desalentadas (11,8%), FFTP (16,4%), e na subutilização da força de trabalho ampliada (14,7%).

Assim, mesmo com uma diferença pequena entre os percentuais desses dois grupos (mulheres negras e homens brancos) na PIA (7,9 pontos percentuais), a distância foi muito maior nas categorias que indicam uma pior inserção no mercado de trabalho como, por exemplo, a subutilização da força de trabalho ampliada cuja diferença foi de 22,2 pontos percentuais (p. p.), e, de modo alarmante, 28,7 p. p. de diferença na categoria das pessoas que se encontram indisponíveis para o mercado de trabalho entre homens brancos e mulheres negras. Cabe menção aqui também a alta participação relativa dos homens negros na categoria desalento (30,8%). Enquanto a participação dos homens negros apresentou uma diferença de 5,6 p. p. percentuais com relação a dos homens brancos na PIA, essa diferença passa a ser de 19,0 p.p. na condição de desalento entre esses dois grupos. A baixa participação relativa entre as mulheres brancas também foi observada entre as pessoas desalentadas (16,0%), 25,3 pontos percentuais menor ao das mulheres negras nessa condição (41,3%), enquanto na PIA a diferença entre elas é de 3,9 pontos percentuais.

Esses dados também evidenciam uma taxa de participação (FT/PIA)[7] e o nível de ocupação (PO/PIA)[8] dos homens negros e brancos bem maiores do que a das mulheres negras e brancas. Enquanto as taxas de participação deles foram de 69,3% e 68,6%, as delas foram de 49,8% e 50,9%, respectivamente. Os níveis de ocupação deles foram de 61,3% e 62,7% e o delas de 40,6% e 44,7%. Destaque-se aqui, então, que a maior parte das mulheres negras e brancas em idade ativa não se encontravam ocupadas (sobretudo as negras), diferentemente dos homens. Assim, o nível de ocupação médio do Brasil extremamente baixo no 3º trimestre de 2021 (51,6%) foi determinado pela baixa ocupação das mulheres, em especial, as negras.

2.1.1.    Movimentos nas categorias da PIA em um ano (3º trimestre de 2021 versus 3º trimestre de 2020)

Para além da composição da PIA, apresenta-se também a análise das variações observadas pelas categorias, primeiro com a comparação com o mesmo trimestre do ano anterior e, no próximo subitem, na comparação com o trimestre imediatamente anterior.

Tabela 3 – Brasil – População em Idade Ativa, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (taxas de variação percentual) – 3º trimestre de 2021 versus 3º trimestre de 2020
População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens
População em Idade Ativa 0,9 1,4 1,0 1,0
  A. Força de Trabalho (A.1 + A.2) 11,9 7,3 9,4 5,0
     A.1. Pessoas Ocupadas 13,9 11,4 11,0 7,0
       A.1.1. Pessoas Subocupadas 27,4 20,0 28,4 20,0
     A.2 Pessoas Desocupadas 3,7 -16,5 -0,9 -11,8
  B. Fora da Força de Trabalho (B.1 + B.2) -8,0 -9,8 -6,5 -6,9
     B.1 Força de Trabalho Potencial (B.1.1 + B.1.2) -20,7 -29,2 -22,5 -32,8
       B.1.1 Indisponíveis -34,4 -45,1 -30,4 -44,9
       B.1.2 Desalentados -3,7 -16,4 -8,6 -15,9
     B.2 Fora da Força de Trabalho Potencial -5,2 -4,3 -4,4 -2,6
Força de Trabalho Ampliada (A + B.1) 5,9 3,5 5,8 2,4
Subutilização da Força de Trabalho Ampliada (A.1.1 + A.2 + B.1) -2,7 -13,9 -3,8 -13,1

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Na tabela 3 são apresentadas as taxas de variação em um ano das pessoas nas categorias da PIA no 3º trimestre de 2021. Vale ressaltar que o ano de 2020 foi marcado pelo surgimento de uma crise sanitária que assolou o mundo inteiro e que afetou o Brasil de forma mais singular, pois o país já se encontrava em uma crise econômica desde 2015. Somou-se a isso a insuficiência das políticas sociais, econômicas e sanitárias para o controle da pandemia e da crise econômica, com fortes consequências para as possibilidades de as pessoas obterem trabalho e rendimentos.

No 3º trimestre de 2021, foi possível observar a continuidade do movimento de retorno das pessoas para a FT, sendo um aumento de 11,9% para as mulheres negras, 7,3% para os homens negros, 9,4% para as mulheres brancas e 5,0% para os homens brancos. Isso significou uma elevação de 7,9 milhões de pessoas à força de trabalho. Nesse trimestre, o destaque foi para o fato de que o aumento na FT ocorreu sem elevação do número de pessoas desocupadas, com exceção das mulheres negras, para as quais o aumento foi de 3,7%, o que significou 162,6 mil mulheres negras a mais procurando por um trabalho. Vale salientar, porém, que ainda são 13,2 milhões de pessoas desocupadas no Brasil no 3º trimestre de 2021, valor que mostra uma dificuldade de redução desse contingente de pessoas que procuram um trabalho, mesmo que de forma precária.

Deve-se alertar também que grande parte desse movimento de aumento da força de trabalho deveu-se à redução de pessoas que nem estavam na força de trabalho ampliada, isto é, pessoas que antes não queriam trabalhar, seja porque eram estudantes, aposentadas ou envolvidas com trabalho doméstico. Esse movimento pode ser lido como um resultado ruim uma vez que jovens podem ter sido impelidos a buscar trabalho ao invés de estudar e o mesmo com pessoas que poderiam estar aposentadas. Destaque-se que a maior redução, em números absolutos, nessa categoria de pessoas fora da força de trabalho ampliada ocorreu com as mulheres negras (-1,2 milhão de mulheres negras versus -521 mil de homens negros, -900 mil de mulheres brancas e -277 mil de homens brancos).

Muitas dessas pessoas que entraram na força de trabalho conseguiram realizar uma atividade remunerada, uma vez que os resultados para as pessoas ocupadas foram positivos. Notou-se um aumento de 13,9% para as mulheres negras, 11,4% para os homens negros, 11,0% para as mulheres brancas e 7,0% para os homens brancos. Com isso, 8,8 milhões a mais de pessoas conseguiram uma ocupação no 3º trimestre de 2021. Porém, também se faz importante salientar que 1,5 milhão de pessoas que voltaram ao mercado de trabalho, o fizeram de forma precária, sem conseguir preencher a jornada de trabalho que gostariam. A taxa de crescimento percentual dessas pessoas, subocupadas, no mercado de trabalho foi da ordem de +27,4% para as mulheres negras, +20,0% para os homens negros, +28,4% para as mulheres brancas e +20,0% para os homens brancos.

Para as pessoas fora da força de trabalho, notou-se uma redução do número de pessoas em todos os grupos sociais analisados nessa categoria (-8,0% para as mulheres negras, -9,8% para os homens negros, -6,5% tanto para as mulheres brancas e -6,9% para os homens brancos, representando uma redução de 2,2 milhões de mulheres negras, 1,5 milhão de homens negros, 1,5 milhão de mulheres brancas e 852,4 mil homens na categoria).

Em 2020, o fechamento das escolas e das redes de apoio se mostrou como um aspecto relevante, dificultando a capacidade de trabalho de muitas mães que não tinham com quem deixar seus filhos para procurar um trabalho ou para trabalhar. Porém, ao longo do ano de 2020, a presença do auxílio emergencial possibilitou que algumas dessas pessoas que perderam o emprego, ou que estavam com dificuldades de locomoção, ou que não tinham com quem deixar seus filhos, se sustentassem durante o isolamento social. Todavia, com a redução do auxílio no início de 2021, ficou mais difícil para a continuidade do isolamento social, forçando as pessoas a retornarem ao mercado de trabalho, sobretudo da população negra. Ao mesmo tempo, algumas escolas e creches retornaram suas atividades permitindo um espaço de tempo para as mulheres buscarem trabalho. Diminuição do auxílio e volta das atividades escolares contribuem para explicar a redução das pessoas, principalmente das mulheres, fora da força de trabalho.

A redução das pessoas na força de trabalho potencial foi de -20,7% para as mulheres negras (-1,0 milhão), -29,2% para os homens negros (-1,0 milhão), -22,5% para as mulheres brancas (-571,5 mil) e -32,8% para os homens brancos (-575,9 mil), destacando que a maioria dessas pessoas saíram da condição de indisponibilidade (redução de 1,0 milhão para as mulheres negras, 0,7 milhão para os homens negros, 492,6 mil para as mulheres brancas e 458,7 mil para os homens brancos), dado que a diminuição de pessoas na situação de desalento foi menor.

Mesmo com o crescimento do número de mulheres negras desocupadas e subocupadas, pela primeira vez desde o primeiro trimestre de 2020, observou-se uma redução no número de subutilização da força de trabalho dessas mulheres (-2,7%). Para os demais grupos sociais, o resultado sobre a subutilização também teve a mesma direção e foi até mais acentuado (-3,8% para as mulheres brancas, -13,9% para os homens negros e -13,1% para os homens brancos), visto que para eles a única categoria da subutilização que cresceu foi da subocupação e não compensou a redução deles na desocupação ou na força de trabalho potencial. Ou seja, a distância entre o número de mulheres e de homens cuja força de trabalho está subutilizada aumentou nesse período, denotando uma ampliação das assimetrias na qualidade de inserção entre esses grupos sociais no mercado de trabalho brasileiro.

2.1.2.    Movimentos da PIA na margem (3º trimestre de 2021 versus 2º trimestre de 2021)

A análise apresentada neste subitem – a comparação do trimestre com relação ao trimestre imediatamente anterior – tem estrutura semelhante à do anterior, e serão salientadas no texto apenas as variações que mais se destacaram.

Assim como observado no item anterior, as principais variações foram observadas nas pessoas ocupadas (aumento de 5,6% para as mulheres negras, 4,9% para os homens negros, 4,0% para as mulheres brancas e 2,0% para os homens brancos). Além disso, o crescimento das pessoas ocupadas contribuiu para reduzir o número de pessoas desocupadas com relação ao trimestre anterior (redução de -5,5% para mulheres negras, -10,1% para homens negros, -9,8% e -10,3% para homens brancos). Com isso, o número de pessoas subutilizadas se reduziu em comparação com o trimestre anterior (mulheres negras, -3,3%, homens negros, -6,8%, mulheres brancas, -4,3%, e homens brancos, -7,0%).

O segundo ponto de destaque da tabela 4 foi a contração das pessoas indisponíveis em todos os grupos analisados. A redução foi de 245,2 mil pessoas para o Brasil como um todo, sendo que a redução foi de -5,7% para as mulheres negras, -8,7% para os homens negros, -0,6% para as mulheres brancas e -7,5% para os homens brancos.

Tabela 4 – Brasil – População em Idade Ativa, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (taxas de variação percentual) – 3º trimestre de 2021 versus 2º trimestre de 2021
População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens
População em Idade Ativa 0,3 0,9 -0,7 -0,9
  A. Força de Trabalho (A.1 + A.2) 3,3 2,9 2,1 0,8
     A.1. Pessoas Ocupadas 5,6 4,9 4,0 2,0
       A.1.1. Pessoas Subocupadas 0,9 2,7 4,3 1,3
     A.2 Pessoas Desocupadas -5,5 -10,1 -9,8 -10,3
  B. Fora da Força de Trabalho (B.1 + B.2) -2,5 -3,2 -3,5 -4,4
     B.1 Força de Trabalho Potencial (B.1.1 + B.1.2) -3,4 -9,8 -2,5 -7,8
       B.1.1 Indisponíveis -5,7 -8,7 -0,6 -7,5
       B.1.2 Desalentados -1,4 -10,4 -4,9 -8,1
     B.2 Fora da Força de Trabalho Potencial -2,4 -1,7 -3,6 -4,0
Força de Trabalho Ampliada (A + B.1) 2,4 1,9 1,7 0,3
Subutilização da Força de Trabalho Ampliada (A.1.1 + A.2 + B.1) -3,3 -6,8 -4,3 -7,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

3.             TAXAS (%) DE PARTICIPAÇÃO, DESOCUPAÇÃO, SUBOCUPAÇÃO E DE SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

O IBGE propõe, em suas análises, taxas indicadoras da qualidade de inserção no mercado de trabalho. Neste item, são apresentadas algumas taxas selecionadas pela equipe do NPEGen, quais sejam: a taxa de participação no mercado de trabalho (força de trabalho/PIA), a taxa de desocupação (número de desocupados/força de trabalho), a taxa de subocupação (número de subocupados/número de ocupados) e a taxa de subutilização da força de trabalho ampliada (número de pessoas subutilizadas/FTA). Vale ressaltar que cada categoria é comparada com ela mesma, ou seja, a taxa de participação das mulheres negras no mercado de trabalho será a divisão das mulheres negras na força de trabalho pelo total de mulheres negras na PIA.

Gráfico 3 – Brasil: Taxa (%) de participação, segundo cor ou raça e sexo – 3º trimestre de 2020, 3º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2021

No gráfico 3 estão as taxas de participação para o Brasil e para os recortes de cor e sexo apresentados anteriormente, para os três trimestres considerados na seção 2. Pôde-se observar que a taxa de participação aumentou para todas as categorias sob análise, tanto na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior quanto na comparação com o trimestre anterior (respectivamente, +3,9 pontos percentuais e +1,4 p. p. para o Brasil; +4,9 p. p. e +1,5 p. p. para as mulheres negras; +3,8 p. p. e +1,3 p. p. para os homens negros; +3,9 p. p. e +1,4 p. p. para as mulheres brancas; +2,7 p. p. e +1,1 p. p. para os homens brancos, respectivamente). Assim, observa-se que o maior esforço para buscar rendimentos esteve entre as mulheres negras, denotando a sua vulnerabilidade em face da continuidade da grave crise econômica que assola o país.

Conforme já comentado anteriormente, a baixa taxa de participação para o Brasil como um todo foi puxada pelas baixas taxas de participação das mulheres, negras e brancas. Vale salientar ainda que as taxas de participação das mulheres, negras ou brancas, não chegou a atingir 50%, enquanto as taxas dos homens, negros ou brancos, alcançou quase 70%. A contraface dessa baixa taxa de participação na atividade econômica é a alta representatividade das mulheres nas categorias da força de trabalho potencial (indisponibilidade e desalento), conforme exibido na seção 2 deste boletim.

As taxas de desocupação (gráfico 4), embora tenham apresentado redução no 3º trimestre de 2021 com relação ao trimestre imediatamente anterior, os números absolutos mostram ainda um grande contingente de pessoas desocupadas, indicando que as taxas caíram por aumento das pessoas na FT e não por uma redução mais substantiva no número de pessoas desocupadas. Para o Brasil, a taxa de desocupação, que era de 14,6% no 3º trimestre de 2020, chegou a 14,1% no 2º trimestre de 2021 e a 12,6% no 3º trimestre de 2021. Ademais, é possível notar que essas taxas podem diferir grandemente quando analisados os grupos aqui considerados. As mulheres negras foram, como sempre, as que apresentaram as maiores taxas de desocupação (19,8% no 3º trimestre de 2020, 20,1% no 2º trimestre de 2021 e 18,4% no 3º trimestre de 2021), sendo que todos os demais grupos apresentaram taxas inferiores, ou muito próximas, à do Brasil (11,6% para homens negros, 12,2% mulheres brancas e 8,7% para homens brancos, no 3º trimestre de 2021). Nesse último trimestre, a taxa de desocupação das mulheres negras teve uma variação similar à da taxa das mulheres e dos homens brancos quando comparadas com as taxas do 3º trimestre de 2020 (-1,5 ponto percentual para as mulheres negras, -1,3 p.p. para as mulheres brancas e -1,6 p.p. para os homens brancos), sendo os homens negros o grupo social que apresentou a maior redução no período considerado (-3,6 p.p.). Vale salientar que a taxa de desocupação das mulheres negras permaneceu maior do que a dos homens brancos ao redor de 10 pontos percentuais.

Gráfico 4 – Brasil: Taxa (%) de desocupação, segundo cor ou raça e sexo – 3º trimestre de 2020, 2º trimestre de 2021 e 3º trimestre de 2021

No que diz respeito às taxas de subocupação (gráfico 5), notou-se um movimento suave de redução para a população negra e a manutenção de seu patamar para a população branca em comparação com o 3º trimestre de 2021, mas todas as taxas ainda estão em um patamar mais elevado na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior. A maior diferença para o ano anterior ocorre no grupo das mulheres negras (+1,4 p.p., versus 1,1 p.p. para as mulheres brancas e +0,6 p. p. para homens negros e brancos).

Para o Brasil, a taxa de subocupação que era de 7,5% no 3º trimestre de 2020, passou para 8,6% no 2º trimestre de 2021 e depois para 8,4% no 3º trimestre de 2021. Para as mulheres negras, a taxa foi de 11,5%, para 13,5% e 12,9%; para os homens negros de 7,6%, para 8,4% e 8,2%; para as mulheres brancas de 7,0%, para 8,1% e mantendo 8,1%; e, finalmente, para os homens brancos de 4,4%, para 5,0% e 5,0%, respectivamente. Vale salientar que a taxa de subocupação das mulheres negras é a única que ultrapassa os dois dígitos nos três períodos em análise, sendo assim, os dados evidenciam mais uma vez a inserção mais precária das mulheres negras no mercado de trabalho, destacando-se a intersecção de gênero e raça como fundamental para a análise das questões estruturais de desigualdade do Brasil.

Gráfico 5 – Brasil: Taxa (%) de subocupação, segundo cor ou raça e sexo – 3º trimestre de 2020, 2º trimestre de 2021 e 3º trimestre de 2021

Para finalizar a análise das taxas do mercado de trabalho, foram consideradas as taxas de subutilização da força de trabalho ampliada (gráfico 6). A taxa de subutilização considera as formas de inserção mais precárias do mercado de trabalho (por ser o resultado da soma das categorias de subocupação, desocupação e força de trabalho potencial), ampliando, assim, o conceito de desocupação ao incluir algumas formas ocultas de desemprego. Dessa forma, a taxa de subutilização mostra de maneira mais realista o grupo de pessoas que se encontra em uma situação de maior de vulnerabilidade socioeconômica.

Gráfico 6 – Brasil: Taxa (%) de subutilização da força de trabalho ampliada, segundo cor ou raça e sexo – 3º trimestre de 2020, 2º trimestre de 2021 e 3º trimestre de 2021

Novamente, os resultados do gráfico 6 deixam evidente a inserção mais precária das mulheres negras frente aos demais grupos sociais, sendo a inserção dos homens negros mais similar à das mulheres brancas e os homens brancos representando o grupo com uma situação muito melhor. Notou-se no 3º trimestre de 2021, uma ligeira redução das taxas de subutilização, puxadas, principalmente, pela redução do número de pessoas na força de trabalho potencial. Ainda assim, uma taxa de subutilização de 26,7% para o Brasil, e principalmente a taxa de 38,7% para as mulheres negras, são números alarmantes. Aqui se destaque também a enorme diferença entre as mulheres negras e os homens brancos: a taxa de subutilização delas é mais de 2 vezes maior do que a deles (que foi 17,1%).

4.             POSIÇÕES NA OCUPAÇÃO

Neste item são apresentadas as formas de ocupação preponderantes para a mulher negra e os principais destaques das demais categorias.

Os dados do 3º trimestre de 2021, apresentados na tabela 5, mostram algumas diferenças importantes na inserção das mulheres negras. A primeira delas está no trabalho doméstico. Os dados revelaram uma presença majoritária das mulheres negras no trabalho doméstico com carteira (56,3%) e no sem carteira (61,5%), muito maiores do que a sua participação no total das pessoas ocupadas (22,4%). As mulheres brancas ocuparam a segunda posição nessa forma de ocupação (33,0% com carteira e 32,2% sem carteira, também maior do que a sua participação total, de 21,3%), indicando que o trabalho doméstico, com ou sem carteira, é feminino e, predominantemente, negro.

Tabela 5 – Brasil: Posição na ocupação, segundo cor ou raça e sexo (em participação percentual) – 3º trimestre de 2021
População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens Total
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 19,4 31,4 21,7 27,5 100,0
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 17,0 45,5 13,9 23,6 100,0
TRAB. DOMÉSTICO CC 56,3 7,3 33,0 3,4 100,0
TRAB. DOMÉSTICO SC 61,5 4,3 32,2 2,0 100,0
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 24,3 19,6 31,2 24,9 100,0
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 35,9 24,4 25,7 14,0 100,0
MILITAR E SERV. ESTATUTÁRIO 28,0 21,9
29,8
20,3 100,0
EMPREGADOR (A) 8,9 24,9 20,7 45,5 100,0
CONTA PRÓPRIA 18,3 36,1 17,5 28,1 100,0
TRAB. FAMILIAR AUXILIAR 34,5 22,7 29,5 13,3 100,0
TOTAL 22,4 31,2 21,3 25,1 100,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

A segunda diferença relevante foi nas outras duas formas preponderantes das ocupações das mulheres negras: o setor público sem carteira (35,9%) e o trabalhador familiar auxiliar (34,5%). Novamente, mais um argumento para consolidar a inserção precária da mulher negra no mercado de trabalho. Nessa modalidade de contratação, o trabalho para o setor público acontece sem os direitos trabalhistas e, no caso do trabalhador familiar auxiliar, em geral, não possui remuneração.

A outra face dessa inserção diz respeito ao fato de as mulheres negras serem minoria em algumas posições que indicam condições melhores de trabalho. Tiveram uma participação inferior à do total das pessoas ocupadas (22,4%) as seguintes posições: empregador (8,9%), empregado do setor privado sem carteira (17,0%), conta própria (18,3%) e empregado do setor privado com carteira (19,4%).

Cabe ressaltar que na representatividade do total das ocupações, as mulheres negras (22,4%) se aproximam mais às mulheres brancas (21,3%) do que aos homens negros (31,2%). Isso mostra como a participação no mercado de trabalho possui um viés de gênero.

Tabela 6 – Brasil: Posição na ocupação, segundo raça ou cor e sexo (em taxas de variação percentual) – 3º trimestre de 2021 versus 3º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2021
3º trim. 2021 X 3º trim. 2020 3º trim. 2021 X 2º trim. 2021
Pop. Negra Pop. Branca Pop. Negra Pop. Branca
M H M H M H M H
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 10,3 7,2 8,0 6,0 5,9 5,5 3,2 4,4
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 26,3 25,2 33,3 14,4 15,5 11,1 14,0 7,6
TRAB. DOMÉSTICO CC 6,0 -18,2 9,9 -20,8 4,7 0,4 5,2 -17,9
TRAB. DOMÉSTICO SC 24,6 15,0 37,2 12,0 10,0 21,7 12,1 3,8
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 32,1 6,7 -6,6 6,9 -0,4 -3,8 -2,8 -8,9
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC -5,8 0,2 3,2 2,6 6,2 11,2 12,9 -3,2
MILITAR E SERV. ESTATUTÁRIO -1,8 -4,7 -6,4 -5,1 -7,1 -6,1 -1,2 -6,1
EMPREGADOR (A) 8,3 11,6 -3,9 -5,8 4,5 9,5 1,4 -2,5
CONTA PRÓPRIA 23,9 15,1 21,4 14,0 6,8 2,5 3,0 1,6
TRAB. FAMILIAR AUXILIAR 9,8 -0,1 7,3 -13,8 3,4 6,0 3,4 -8,1
TOTAL 13,9 11,4 11,0 7,0 5,6 4,9 4,0 2,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Com relação às variações ocorridas entre o 3º trimestre de 2021 (tabela 6) na comparação com o 3º trimestre de 2020, nota-se que apenas a categoria de militar e servidor estatutário apresentou queda em todos os grupos analisados (-1,8% para as mulheres negras, -4,7% para os homens negros, -6,4% para as mulheres brancas e -5,1% para os homens brancos).

Muitas dessas pessoas que perderam suas vagas e tantas outras pessoas que se viram forçadas a procurar uma condição de se sustentar (como as mulheres que estavam na força de trabalho potencial ou fora da força de trabalho ampliada), acabaram entrando para o trabalho doméstico informal (24,6% para as mulheres negras, 15,0% para os homens negros, 37,2% para as mulheres brancas e 12,0% para os homens brancos), significando um aumento de 909,1 mil pessoas assumindo, em geral, faxinas em alguns dias da semana. Conforme apresentado anteriormente, o trabalho doméstico é feminino e negro, então, dessas pessoas, mais da metade (510,4 mil) eram mulheres negras.

Em 2020, muitas dessas mulheres em empregos domésticos se viram alijadas de seus postos de trabalho por terem dificuldades no transporte (condições insalubres) até o seu trabalho, muitas perderam seus empregos, pois os empregadores estavam também com dificuldade financeira ou com receio de que a funcionária pudesse ser uma fonte de contaminação para a família. Sendo assim, após um tempo, com o maior relaxamento do isolamento social e na medida em que a vacinação evoluiu, as mulheres negras se viram novamente com possibilidade de encontrar por uma vaga como empregada doméstica, ainda que se submetendo a condições degradantes como baixas remunerações e ausência de direitos trabalhistas.

O setor privado sem carteira também absorveu uma grande quantidade de trabalhadores: foram 2,1 milhões de pessoas a mais trabalhando sem registro em carteira (26,3% para as mulheres negras, 25,2% para os homens negros, 33,3% para as mulheres brancas e 14,4% para os homens brancos). Nota-se, portanto, que boa parte da retomada do mercado de trabalho ainda se deu pelo mercado de trabalho informal.

O trabalho de conta própria também absorveu muitas pessoas no período (23,9% para as mulheres negras, 15,1% para os homens negros, 21,4% para as mulheres brancas e 14,0% para os homens brancos). No total do Brasil, foram 3,8 milhões de pessoas a mais trabalhando como conta própria no 3º trimestre de 2021 com relação ao mesmo período do ano anterior. Reforça-se aqui a hipótese de que as pessoas começaram a procurar alternativas para o trabalho e por rendimentos, sem poder esperar que uma vaga formal surgisse.

Em comparação ao trimestre imediatamente anterior, a duas posições que registraram baixa para todos os grupos foram os militares e servidores estatutários (-7,1% para as mulheres negras, -6,1% para os homens negros, -1,2% para as mulheres brancas e -6,1% para os homens brancos) e empregado do setor público com carteira (-0,4% para as mulheres; -3,8% para os homens negros, -2,8% para as mulheres brancas e -8,9% para os homens brancos).

Por outro lado, o setor público sem carteira apresentou variação positiva para praticamente todos os grupos sociais (+6,2% para as mulheres, +11,2% para os homens negros, +12,9% para as mulheres brancas e -3,2% para os homens brancos).

5.             RENDIMENTOS

Neste item é apresentada a comparação entre o rendimento médio no Brasil e dos demais grupos aqui apresentados. No 3º trimestre de 2021, o valor do rendimento médio foi de R$ 2.468,68. Todos os gráficos apresentados aqui têm o Brasil como a base igual a 100.

No gráfico 7 reside a comparação dos rendimentos médios dos grupos sociais com os rendimentos das pessoas que são responsáveis por seus domicílios de acordo com a sua cor e gênero.

Analisando, primeiramente, o rendimento médio de cada um dos grupos sociais, no 3º trimestre de 2021, as mulheres negras ganharam, em média, 66,6% da média da população (R$ 1.645,24), enquanto os homens negros ganharam 81,5% (R$ 2.011,61), as mulheres brancas 111,2% (R$ 2.744,48) e os homens brancos 142,7% (R$ 3.523,97). A baixa remuneração no mercado de trabalho une, portanto, as mulheres negras aos homens negros, sendo preponderante a desigualdade racial, nesse caso. As pessoas negras não chegaram a atingir o rendimento médio da população, enquanto as pessoas brancas o superam. Os rendimentos das mulheres negras representaram menos do que a metade (46,7%) do dos homens brancos.

Gráfico 7 – Brasil: Rendimento médio das pessoas ocupadas, de chefes de família, segundo a cor ou raça e sexo (em número índice: Rendimento médio do Brasil = 100) – 3º trimestre de 2021

O cenário fica ainda mais desigual quando considerada a condição mais relevante do domicílio, a condição de chefe de família. A partir dos dados da PNAD, não é possível afirmar com certeza que a pessoa considerada como chefe de família é a que tem o maior rendimento, mas é possível imaginar que boa parte das pessoas declaradas como chefes de família são as que se encontram nessa situação. Sendo assim, verificou-se que o rendimento médio das mulheres negras chefes de família foi de apenas 68,6% da média do Brasil ou 39,1% dos rendimentos médios dos homens brancos responsáveis pelo domicílio. Além disso, destaca-se que as mulheres negras foram o único grupo social para o qual quase não se altera o rendimento com o fato de ser ou não chefe de família. Isso indica uma situação de vulnerabilidade desse grupo, principalmente quando considerado que parte dessas mulheres, com rendimentos tão baixos, são mães, com crianças pequenas e sem cônjuge. Lembrando que, no contexto da pandemia, sem creches, escolas e sem formas alternativas de auxílio econômico, a vulnerabilidade dessas mulheres tornou-se ainda mais acentuada.

Gráfico 8 – Brasil: Rendimento médio das pessoas ocupadas, por grau de instrução, segundo a cor ou raça e sexo (em número índice: Rendimento médio do Brasil = 100) – 3º trimestre de 2021

Quando considerado o nível de escolaridade (gráfico 8), nota-se uma elevação da desigualdade de rendimentos conforme aumenta o nível de escolaridade, o que deixa as mulheres negras em mais desvantagem. Das pessoas sem instrução, as pessoas negras foram as com menor remuneração. As mulheres negras auferiram o equivalente a 35,2% do rendimento médio da população, enquanto os homens negros ficaram com 40,2% (as mulheres brancas tiveram 50,8% e os homens brancos 55,5%). No ensino fundamental incompleto, nota-se que a situação das mulheres pouco muda (36,2% para as negras e 46,7% para as mulheres brancas), já para os homens houve uma melhora da condição (54,9% para os negros e 74,4% para os brancos).

Aumentando o nível de escolaridade para o extremo oposto, as pessoas com ensino superior completo, foi possível notar um aumento dramático da desigualdade, principalmente entre os grupos mais distantes – mulheres negras e homens brancos. Elas, com o maior nível de escolaridade possível, tiveram rendimento médio equivalente a 132,9% ao do Brasil, enquanto o deles representou 293,5% do rendimento médio. Visto de outra maneira a grandeza da desigualdade nesse nível de escolaridade, o rendimento médio das mulheres negras equivaleu a 45,3% do dos homens brancos.

Gráfico 9 – Brasil: Rendimento médio das pessoas ocupadas, por cargos, segundo a cor ou raça e sexo (em número índice: Rendimento médio do Brasil = 100) – 3º trimestre de 2021

Por fim, a comparação de rendimentos também pode ser feita de acordo com o cargo ocupado (gráfico 9) pelos diferentes grupos, sendo esse um possível fator de redução das desigualdades apresentadas anteriormente. Para os dados considerados, a desigualdade entre as mulheres negras e os homens brancos esteve sempre visível. Porém, em três categorias a desigualdade parece ser maior: diretores e gerentes, profissionais das ciências e forças armadas, policiais e bombeiros.

Para as pessoas com cargos de diretores e gerentes, notou-se que apenas as mulheres negras não ultrapassaram o dobro do rendimento médio da população (160,7%). Dois grupos superaram o dobro do rendimento médio da população (234,5% para os homens negros e 221,1% para as mulheres brancas) e os homens brancos nessa categoria mais do que triplicaram o rendimento médio da população (321,3%).

A situação é bem parecida quando considerados os profissionais das ciências. As mulheres negras atingiram 143,1% do rendimento médio, ao passo que homens negros ficaram com 211,6%, as mulheres brancas com 205,5% e os homens brancos com 324,0%.

Finalmente, quando considerados os profissionais das forças armadas, policiais e bombeiros, o padrão se altera e as mulheres negras não representaram o grupo com os menores salários, sendo a posição assumida pelos homens negros (211,0%). Essa foi a única categoria que as mulheres negras conseguiram superar o dobro do rendimento médio da população (220,4%) e também a única na qual o rendimento médio das mulheres brancas foi o maior rendimento da categoria (299,2%).

5.1.        CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este boletim teve a finalidade de apresentar a inserção das mulheres negras no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2021. Vale retomar nessas considerações finais alguns aspectos mais marcantes da análise.

O maior destaque foi o da redução da taxa de desocupação e de subutilização no 3º trimestre de 2021 das mulheres negras tanto com relação ao trimestre anterior quanto ao mesmo trimestre do ano anterior. À primeira vista, esse resultado poderia ser muito celebrado. No entanto, sob um olhar mais crítico, observa-se que mesmo com o número de mulheres negras ocupadas aumentando – e esse crescimento foi verificado sobretudo nas vagas de trabalho informais (trabalhadoras domésticas sem carteira, setor público e privado sem carteira, conta própria e trabalhadoras auxiliares da família) – a redução dessas taxas ocorreu, principalmente, pelo aumento expressivo da força de trabalho dessas mulheres.

Decifrando esse retorno das mulheres negras à força de trabalho, é possível apreender pelos movimentos observados nas subcategorias da PIA que muitas delas estavam na condição de indisponíveis – e com a volta das escolas e creches e outras instituições de apoio puderam estar mais disponíveis ao trabalho – e outras estavam fora da força de trabalho ampliada – e aí se apresentam situações bastante preocupantes para o período e para o futuro, pois é possível que mulheres negras estejam deixando os estudos para trabalhar ou saindo da sua aposentadoria para contribuir mais ainda para a renda familiar. Em um cenário de alta inflação de itens básicos conjugada à geração insuficiente de vagas de boas condições e rendimentos e à continuidade da pandemia, é alarmante encontrar esses grupos adentrando o conjunto da força de trabalho dessas mulheres.

Dessa forma, o maior detalhamento de dados que este Boletim traz permite interpretar a redução da taxa de desocupação e de subutilização das mulheres negras com menos entusiasmo, levando-nos a continuar com a proposição de que as políticas públicas mais afirmativas e mais amplas a esse grupo de alta vulnerabilidade socioeconômica sejam exercidas vigorosa e imediatamente.

6.             Anexos
Tabela A – Brasil – População em Idade Ativa, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (em mil pessoas) – 3º trimestre de 2021
População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens
População em Idade Ativa 50.318 46.281 43.413 36.432
  A. Força de Trabalho (A.1 + A.2) 25.033 32.095 22.079 25.006
     A.1. Pessoas Ocupadas 20.431 28.388 19.388 22.839
       A.1.1. Pessoas Subocupadas 2.632 2.323 1.576 1.135
     A.2 Pessoas Desocupadas 4.602 3.707 2.691 2.167
  B. Fora da Força de Trabalho (B.1 + B.2) 25.284 14.185 21.334 11.426
     B.1 Força de Trabalho Potencial (B.1.1 + B.1.2) 3.986 2.475 1.969 1.183
       B.1.1 Indisponíveis 1.819 860 1.129 564
       B.1.2 Desalentados 2.167 1.615 840 619
     B.2 Fora da Força de Trabalho Potencial 21.298 11.710 19.365 10.243
Força de Trabalho Ampliada (A + B.1) 11.221 8.506 6.236 4.484

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Tabela B – Brasil: Pessoas ocupadas e sua composição na sua posição na ocupação, por cor ou raça e sexo (em mil pessoas) no 3º trimestre de 2021

População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 6.129 9.895 6.851 8.658
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 1.886 5.057 1.542 2.619
TRAB. DOMÉSTICO CC 765 100 448 46
TRAB. DOMÉSTICO SC 2.583 179 1.351 86
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 296 239 381 304
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 805 547 575 313
MILITAR E SERV. ESTATUTÁRIO 2.244 1.753 2.385 1.627
EMPREGADOR (A) 341 957 793 1.747
CONTA PRÓPRIA 4.671 9.193 4.455 7.166
TRAB. FAMILIAR AUXILIAR 710 468 607 274

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

REFERÊNCIAS

Gorayeb, Daniela, Camila Fonseca, Juliana Filleti, and Juliana Cajueiro. 2021. Uma Análise Do Mercado de Trabalho No Contexto Da Crise Econômico-Sanitária de 2020 Efeitos Sobre as Mulheres, Sua Saídada Força de Trabalho e Sua Indisponibilidade. Anais Do XXVI Encontro Nacional de Economia Política. Sociedade de Economia Política, evento virtual. https://enep.sep.org.br/uploads/1649_1615673090_SEP_trabalho_identificado_pdf_ide.pdf.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2018. Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios Contínua. Notas Técnicas – Versão 1.5. 2ª ed. Rio de Janeiro. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101561_notas_tecnicas.pdf.

[1] Para entender melhor a crise sanitária e os efeitos da crise prolongada que a precedeu, verifique Gorayeb et al. (2021).

[2] População em idade ativa são as pessoas de 14 anos ou mais. Todas as definições das categorias da população em idade ativa podem ser encontradas em IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2018).

[3] Neste boletim são consideradas pessoas negras a soma das pessoas que se declararam pretas ou pardas.

[4] Neste boletim são consideradas pessoas brancas a soma das pessoas que se declararam brancas ou amarelas.

[5] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam por pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias, ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento, etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.

[6] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se, também, como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência.

[7] Vide item 3 mais adiante neste Boletim.

[8] A partir dos dados da tabela A do anexo é possível obter o nível de ocupação.

 

E falhar, no nosso caso, pode resultar num erro fatal. Ainda assim, Pedro, ainda assim a gente segue. O que você tem que compreender é que os homens negros sofrem suas violências. E que as mulheres negras sofrem outras. Algumas são parecidas. Mas, veja, somos diferentes. Nem sempre as causas são iguais.”

Jefferon Tenório – O avesso da Pele

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