Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Boletim Mulheres Negras no Mercado de Trabalho – 2º trimestre de 2021

Sumário executivo

O Boletim das Mulheres Negras no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen com o objetivo de analisar os dados relativos à inserção das mulheres negras no mercado de trabalho, a partir dos microdados da PNAD Contínua do IBGE.

Neste número são apresentados os dados referentes ao 2º trimestre de 2021. Ressalta-se que o ano de 2020 foi marcado por uma crise sanitária somada à crise econômica que vigorava desde 2015[1], de tal forma que o 2º trimestre de 2021 ainda reflete os efeitos gerados pelo contexto socioeconômico particular. Os destaques deste boletim foram:

  • O número de pessoas desocupadas ainda permanece elevado, sendo o segundo maior valor da série histórica, 14,4 milhões de pessoas no Brasil, das quais 4,8 milhões são mulheres negras.
  • O número de pessoas subocupadas chegou no ponto mais elevado da série histórica, sendo 7,5 milhões de pessoas nessa condição. Dessas, 4,8 milhões são pessoas negras e 2,6 milhões são mulheres negras.
  • A participação das mulheres negras permaneceu muito alta na força de trabalho potencial. Enquanto a diferença entre mulheres negras e homens brancos na PIA foi de 7,6 pontos percentuais, na FTP foi de quase 30 pontos percentuais. Vale mencionar que 72% das pessoas em desalento eram negras.
  • Observou-se leve aumento das ocupações, porém, sobretudo puxada pela elevação das subocupações, também notada pelas variações positivas do trabalho doméstico sem carteira, pelo trabalho por conta-própria e pelo trabalho auxiliar nas famílias (em geral, sem rendimentos).
  • O forte crescimento das subocupações, ao lado da persistência do desemprego e da alta participação das mulheres negras na força de trabalho potencial, definiu, mais uma vez, uma taxa de subutilização das mulheres negras acima de 40% da sua força de trabalho ampliada.

O cenário é de extrema desigualdade e vulnerabilidade, sendo imperioso que políticas públicas sejam ativadas para minimizar e superar a situação precária em que a maior parte das mulheres negras vive no mercado de trabalho.

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Introdução

O Boletim Mulheres Negras tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao mercado de trabalho e sob um recorte de raça e gênero, com a preocupação de jogar luz e realizar o acompanhamento da realidade vivenciada pelas mulheres negras no acesso às vagas de emprego e a outras formas de ocupação, salientando as suas formas de participação em comparação com a de outros grupos sociais (mulheres brancas, homens negros e homens brancos). Por ser um boletim de caráter conjuntural, a análise é focalizada nos dados do último trimestre disponível, comparando-o com o do mesmo trimestre do ano anterior e com o do trimestre imediatamente anterior.

Neste Boletim, o foco está no 2º trimestre de 2021 e no seu cotejamento com o 2º trimestre de 2020 e com o 1º trimestre de 2021. Vale ressaltar que o ano de 2020 foi marcado por uma crise sanitária, ocasionada pela disseminação do novo coronavírus, somada à crise econômica que vigorava desde 2015. Essa conjunção de crise econômica e sanitária ainda é observada para o 2º trimestre de 2021, com fortes reflexos sobre a população negra, em especial, sobre as mulheres negras.

Com essa finalidade, este boletim está organizado da seguinte forma: além desta introdução e das considerações finais, a análise se divide em 6 seções. A primeira apresenta a classificação da população em idade ativa[2] comparando inicialmente as populações negra[3] e branca[4] sem o enfoque de gênero. A partir da segunda seção, então, a análise recai sobre as mulheres negras, objeto de estudo do Boletim. Esse grupo passa a ser analisado e comparado com os demais, mostrando as divergências mais relevantes em cada etapa. A terceira seção exibe os motivos pelos quais as pessoas se declararam indisponíveis para o mercado de trabalho, categoria em que as mulheres negras figuram como grande maioria. A quarta seção destaca as taxas do mercado de trabalho que são formadas a partir das categorias da PIA, quais sejam, as taxas de participação, de desocupação, de subocupação, de subutilização e percentual de desalentados. Na quinta seção são apresentadas as posições na ocupação, considerando sua cor e gênero. A última seção exibe uma comparação dos rendimentos das mulheres negras, com alguns recortes específicos, tais como nível de instrução e idade.

1.             CATEGORIAS DA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA (PIA)

No 2º trimestre de 2021, a população brasileira estimada foi de 212,4 milhões de habitantes, de acordo com os dados da PNAD Contínua do IBGE, com a seguinte subdivisão de cor ou etnia: população negra representou 54,7% do total, sendo 45,9% de cor parda e 8,8% de cor preta, a população branca declarada foi de 44,9%, sendo 44,2% de cor branca e 0,7% de cor amarela, a população indígena representou 0,3% do total da população e pessoas sem declaração de cor, 0,03%.

Tabela 1 – Brasil: População total, segundo cor ou raça (em mil pessoas; participação percentual) – 1º trimestre 2021

População (em mil pessoas) Participação (%)
Brasil 212.426 100,0
  População Negra 116.232 54,7
     – Pretos 18.623 8,8
     – Pardos 97.609 45,9
  População Branca 95.435 44,9
      – Brancos 93.898 44,2
     – Amarelos 1.537 0,7
Indígenas 695 0,3
Outros 63 0,03

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

A seguir, busca-se comparar a inserção numérica da população de cor negra com a de cor branca nas categorias da PIA. Há duas subdivisões da PIA: a população na força de trabalho (FT) – pessoas que estavam ocupadas[5] ou desocupadas[6] no período de referência da pesquisa – e a população fora da força de trabalho (FFT) – pessoas que não estavam ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. As pessoas que estão FFT estão subdivididas, por sua vez, em outras duas categorias: as pessoas na força de trabalho potencial (FTP) e as pessoas fora da força de trabalho potencial (fora da FTP).

Gráfico 1 – Brasil: Composição da População em Idade Ativa (PIA) da população negra e da população branca (em mil pessoas; participação percentual) – 2º trimestre de 2021

Em consonância com a maior participação na população total brasileira, a população negra correspondeu à maioria da PIA, 54,4%, em comparação com a branca (45,6%). Essas proporções se mantiveram para a FT e para a população FFT.

A alta participação da população negra na FT se deveu à sua enorme representatividade entre as pessoas desocupadas (62,5%). Na população ocupada, sua participação foi menor (53,1%) e menor, inclusive, do que a sua participação na PIA, mostrando uma dificuldade relativamente maior para encontrar empregos do que a população branca, cuja participação foi de 46,9% entre as pessoas ocupadas, maior que a sua participação na PIA, e de 37,5% entre as desocupadas.

Nas categorias das pessoas FFT, observou-se que a população negra figurou relativamente em maior número do que a branca entre aquelas pessoas que estão na força de trabalho potencial (FTP) (67,5%) e também entre aquelas que estão fora da força de trabalho potencial (FFTP) (52,3%), ainda que essa participação seja menor do que o seu peso na PIA. Isso significa que, nesse período analisado, das pessoas em idade ativa que não estavam na força de trabalho, as pessoas negras, relativamente mais do que as brancas, estavam nessa situação contra seu desejo e sua necessidade, pois estavam na força de trabalho potencial (FTP), como indisponíveis para assumir uma vaga (pessoas negras eram 62,2% dessa categoria) ou em desalento (pessoas negras foram 72,0% nessa condição). Portanto, a população negra, que foi, no 2º trimestre de 2021, maioria na população total e naquela em idade ativa, também o era em todas as subdivisões da PIA. Porém, a sua representatividade foi relativamente maior naquelas posições do mercado de trabalho mais frágeis, como a população desocupada (62,5%), a subocupada (64,9%), e na FTP (67,5%) e nas suas duas subdivisões. Assim, a subutilização da força de trabalho ampliada que reúne essas três categorias mostrou uma participação da população negra de 64,7%, superior em mais de 10 pontos percentuais à sua participação na PIA (54,4%). A população branca, por sua vez, enquanto correspondeu a 45,6% da PIA, apresentou uma participação de 35,3% no total de pessoas subutilizadas (sendo 37,5% das pessoas desocupadas, 35,1% das subocupadas e 32,5% da FTP, sendo 37,8% de indisponíveis e 28,0% em desalento).

2.             CATEGORIAS DA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA POR COR E SEXO

2.1.        Participação percentual nas categorias da PIA no 2º trimestre de 2021

Após a análise mais abrangente de comparação entre os grupos sociais por raça e cor, também é possível incluir as diferenças de sexo. Este item apresenta a análise das categorias da PIA com a finalidade de salientar a posição da mulher negra frente aos demais grupos sociais.

Sendo assim, pela tabela 2, observa-se que as mulheres negras foram numericamente o maior grupo na PIA (28,4%) em comparação com os outros três grupos (homens negros, 26,0%; mulheres brancas, 24,8%; e homens brancos, 20,8%) no 2º trimestre de 2021. No entanto, a representatividade das mulheres negras se reduz substancialmente entre as pessoas na FT (23,8%) e entre as pessoas ocupadas (22,1%). A dos homens negros e brancos, no entanto, se eleva com relação às suas participações na PIA (para 30,6% e 31,0% para os homens negros na população na FT e ocupada, respectivamente, e 24,4% e 25,6% para os homens brancos, respectivamente). Como as mulheres negras, as mulheres brancas também tiveram uma participação menor na FT (21,2%) e nas pessoas ocupadas (21,3%) do que na PIA (24,8%).

Tabela 2 – Brasil – População em Idade Ativa e suas categorias, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (em participação percentual) – 2º trimestre de 2021

População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens Total
População em Idade Ativa (A + B) 28,4 26,0 24,8 20,8 100,0
   A. Força de trabalho (A.1 + A.2) 23,8 30,6 21,2 24,4 100,0
      A.1 Pessoas ocupadas 22,1 31,0 21,3 25,6 100,0
         A.1.1 Pessoas subocupadas 34,8 30,2 20,1 14,9 100,0
      A.2 Pessoas desocupadas 33,8 28,6 20,7 16,8 100,0
   B. Fora da força de trabalho (B.1 + B.2) 34,8 19,6 29,6 16,0 100,0
      B.1 Força de trabalho potencial (B.1.1 + B.1.2) 40,6 27,0 19,9 12,6 100,0
         B.1.1 Indisponíveis 41,8 20,4 24,6 13,2 100,0
         B.1.2 Desalentados 39,6 32,4 15,9 12,1 100,0
      B.2 Fora da força de trabalho potencial 33,8 18,5 31,1 16,5 100,0
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 25,3 30,3 21,1 23,3 100,0
Subutilização da força de trabalho ampliada (A.1.1 + A.2 + B.1) 36,2 28,5 36,2 15,0 100,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Em contrapartida, as mulheres negras voltam a representar a maioria nas demais subcategorias, superando a sua participação na PIA: pessoas subocupadas (34,8%), pessoas desocupadas (33,8%), FFT (34,8%), na FTP (40,6%), pessoas indisponíveis (41,8%), desalentadas (39,6%),  FFTP (33,8%) e na subutilização da força de trabalho ampliada (36,2%). Apenas nas pessoas na FTA a maior parcela esteve com homens negros (30,3%), sendo o segundo lugar das mulheres negras (25,3%), mas enquanto os homens negros apresentaram essa alta participação por conta do seu peso na FT, as mulheres negras foram expressivas na FTA pela sua alta participação relativa na FTP.

A análise do grupo que se coloca como extremo oposto às mulheres negras, os homens brancos, deixa ainda mais evidente a desigualdade entre os dois grupos. Afinal, os homens brancos representaram, em todas as categorias que mostram uma inserção mais precária no mercado de trabalho, uma parcela menor do que sua representatividade na PIA: pessoas subocupadas (14,9%), pessoas desocupadas (16,8%), FFT (16,0%), na FTP (12,6%), pessoas indisponíveis (13,2%), desalentadas (12,1%), FFTP (16,5%), e na subutilização da força de trabalho ampliada (15,0%).

Assim, mesmo com uma diferença pequena entre as mulheres negras e os homens negros na PIA (7,6 pontos percentuais), a distância foi muito maior nas categorias que indicam uma pior inserção no mercado de trabalho como, por exemplo, a subutilização da força de trabalho ampliada cuja diferença foi de 21,2 p. p., e, de modo alarmante, 28,6 p. p. de diferença na categoria das pessoas que se encontram indisponíveis para o mercado de trabalho entre homens brancos e mulheres negras. Cabe menção aqui também a alta participação relativa dos homens negros na categoria desalento (32,4%). Enquanto a participação dos homens negros apresentou uma diferença de 5,2 pontos percentuais com relação a dos homens brancos na PIA, essa diferença passa a ser de 20,3 p.p. na condição de desalento entre esses dois grupos. A baixa participação relativa entre as mulheres brancas também foi observada entre as pessoas desalentadas (15,9%), 23,7 pontos percentuais menor ao das mulheres negras nessa condição (39,6%)

Esses dados também evidenciam uma taxa de participação (FT/PIA)[7] e o nível de ocupação (PO/PIA)[8] dos homens negros e brancos foram bem maiores do que a das mulheres negras e brancas. Enquanto a taxa de participação deles foi de 68,0% e 67,5%, a delas foi de 48,3% e 49,4%, respectivamente. O nível de ocupação deles foi de 59,0% e 60,9% e o delas de 38,6% e 42,6%. Destaque-se aqui, então, que a maior parte das mulheres negras e brancas em idade ativa não se encontravam na força de trabalho ou ocupadas (sobretudo as negras), diferentemente dos homens. Assim, o nível de ocupação médio do Brasil extremamente baixo no 2º trimestre de 2021 (49,6%) é determinado pela baixa ocupação das mulheres, em especial, as negras.

 

2.1.1.    Movimentos nas categorias da PIA em um ano (2º trimestre de 2021 versus 2º trimestre de 2020)

Para além da composição da PIA, apresenta-se também a análise das taxas de variação observadas pelas categorias, primeiro com a comparação com o mesmo trimestre do ano anterior e, no próximo subitem, na comparação com o trimestre imediatamente anterior.

Tabela 3 – Brasil – População em Idade Ativa, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (taxas de variação percentual) – 2º trimestre de 2021 versus 2º trimestre de 2020

População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens
População em Idade Ativa (A + B) 1,0 0,3 3,6 2,8
   A. Força de trabalho (A.1 + A.2) 8,9 6,1 6,7 3,8
      A.1 Pessoas ocupadas 6,4 7,1 3,7 3,5
         A.1.1 Pessoas subocupadas 42,2 29,0 30,3 32,5
      A.2 Pessoas desocupadas 20,0 0,1 30,3 6,0
   B. Fora da força de trabalho (B.1 + B.2) -5,4 -10,0 0,8 0,8
      B.1 Força de trabalho potencial (B.1.1 + B.1.2) -20,9 -30,4 -20,8 -27,6
         B.1.1 Indisponíveis -36,2 -53,0 -33,4 -44,2
         B.1.2 Desalentados 0,1 -6,9 4,5 -0,8
      B.2 Fora da força de trabalho potencial -1,8 -3,5 3,6 5,8
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 3,2 1,8 3,7 1,6
Subutilização da força de trabalho ampliada 4,5 -7,0 8,6 -1,6

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

A tabela 3 apresenta as taxas de variação em um ano das pessoas nas categorias da PIA no 2º trimestre de 2021. Vale ressaltar que o ano de 2020 foi marcado pelo surgimento de uma crise sanitária que assolou o mundo inteiro e que afetou o Brasil de forma mais singular, pois o país já se encontrava em uma crise econômica desde 2015. Somou-se a isso a insuficiência das políticas sociais, econômicas e sanitárias para o controle da pandemia e da crise econômica, com fortes consequências para as possibilidades de as pessoas obterem trabalho e rendimentos. Além disso, é digno de nota o fato do 2º trimestre de 2020 ter sido o pior momento da crise sanitária, com os maiores impactos sobre o mercado de trabalho[9], ilustrada pela expressiva saída das pessoas da força de trabalho e, neste boletim, são avaliadas as consequências de um ano depois do início da pandemia no Brasil.

A partir dos dados apresentados, foi possível observar um retorno das pessoas para a FT, sendo um aumento de 8,9% para as mulheres negras, 6,1% para os homens negros, 6,7% para as mulheres brancas e 3,8% para os homens brancos. Isso significou uma elevação de 6,0 milhões de pessoas à força de trabalho. Porém, foi possível notar que muitas dessas pessoas voltaram sem conseguir um posto de trabalho, principalmente no caso das mulheres, pois o número de mulheres negras desocupadas aumentou 20,0% e de mulheres brancas desocupadas 30,3%, sendo 812 mil mulheres negras e 694 mil mulheres brancas a mais procurando por um emprego sem conseguir encontrar. Ainda são 14,4 milhões de pessoas desocupadas no Brasil no 2º trimestre de 2021, valor muito próximo do pico da série histórica (14,7 milhões) atingido no trimestre anterior.

Muitas dessas pessoas que entraram na força de trabalho conseguiram uma realizar uma atividade remunerada, uma vez que os resultados para as pessoas ocupadas foram positivos. Notou-se um aumento de 6,4% para as mulheres negras, 7,1% para os homens negros, 3,7% para as mulheres brancas e 3,5% para os homens brancos. Com isso, 4,3 milhões a mais de pessoas conseguiram uma ocupação no 2º. Trimestre de 2021, depois de um ano de início da pandemia. Porém, também se faz importante salientar que 1,9 milhão de pessoas que voltaram ao mercado de trabalho, o fizeram de forma precária, sem conseguir preencher a jornada de trabalho que gostariam. A variação percentual dessas pessoas, subocupadas, no mercado de trabalho foi da ordem de 42,2% para as mulheres negras, 29,0% para os homens negros, 30,3% para as mulheres brancas e 32,5% para os homens brancos.

Para as pessoas fora da força de trabalho, notou-se um comportamento diferenciado entre a população negra e a população branca. Houve uma redução do número de pessoas negras nessa categoria (-5,4% para as mulheres e -10,0% para os homens, representando 1,4 milhão de mulheres a menos na categoria e 1,6 milhão de homens a menos), e uma elevação para as pessoas brancas (+0,8% tanto para as mulheres quanto para os homens, representando um aumento de 165 mil mulheres e 94 mil homens na categoria). Aqui fica clara a desigualdade por raça, mostrando como muitas pessoas que estavam indisponíveis ao trabalho no 2º trimestre de 2020, tiveram que retornar ao mercado de trabalho, mesmo que de forma precária ou até mesmo sem um emprego definido, após um ano de crise sanitária. Para a população branca, o tempo para ficar fora da força de trabalho ainda pôde ser estendido.

Em 2020, o fechamento das escolas e das redes de apoio se mostrou como um aspecto relevante, dificultando a capacidade de trabalho de muitas mães que não tinham com quem deixar seus filhos para procurar um trabalho ou para trabalhar. Porém, ao longo do ano de 2020, a presença do auxílio emergencial possibilitou que algumas dessas pessoas que perderam o emprego, ou que estavam com dificuldades de locomoção, ou que não tinham com quem deixar seus filhos, se sustentassem durante o isolamento social. Todavia, com a redução do auxílio no início de 2021, ficou mais difícil para a continuidade do isolamento social, forçando as pessoas a retornarem ao mercado de trabalho, sobretudo da população negra.

A redução das pessoas na força de trabalho potencial foi de 20,9% para as mulheres negras (1,1 milhão), 30,4% para os homens negros (1,2 milhão), 20,8% para as mulheres brancas (530 mil) e 27,6% para os homens brancos (489 mil), sendo que, praticamente todas essas pessoas saíram, na verdade da indisponibilidade (redução de 1,1 milhão para as mulheres negras, 1,0 milhão para os homens negros, 569 mil para as mulheres brancas e 483 mil para os homens brancos).

Mesmo com a redução da FTP, o crescimento do número de mulheres negras desocupadas e subocupadas foi responsável por, mais um trimestre, elevar o número dessas mulheres subutilizadas (+4,5%). Para as mulheres brancas, o resultado sobre a subutilização também teve a mesma direção (+8,6%), mas para os homens negros e brancos, essa categoria se reduziu nesse período de um ano (-7,0% e -1,6%, respectivamente), visto que o crescimento do número de homens desocupados foi baixo e não compensou a queda de homens na FTP. Ou seja, a distância entre o número de mulheres e de homens subutilizados aumentou nesse período, denotando uma ampliação das assimetrias na qualidade de inserção entre esses grupos sociais no mercado de trabalho brasileiro.

2.1.2.    Movimentos da PIA na margem (2º trimestre de 2021 versus 1º trimestre de 2021)

A análise apresentada neste subitem – a comparação do trimestre com relação ao trimestre imediatamente anterior – tem estrutura semelhante à do anterior, e serão salientadas no texto apenas as variações que mais se destacaram.

Assim como observado no item anterior, as principais variações foram observadas nas pessoas subocupadas (aumento de 11,4% para as mulheres negras, 4,9% para os homens negros, 2,0% para as mulheres brancas e 8,6% para os homens brancos). Afinal, o número de pessoas subocupadas atingiu o maior valor da série histórica no 2º trimestre de 2021 (eram 7,5 milhões de pessoas subocupadas nesse período). O crescimento das subocupações foi tão alto que absorveu o aumento das pessoas na FT e também contribuiu para reduzir o número de pessoas desocupadas com relação ao trimestre anterior (redução de 3,9% para mulheres negras, 3,5% para homens negros e 1,0% para homens brancos). Com isso, o número de pessoas subutilizadas se reduziu em comparação com o trimestre anterior (mulheres negras, -1,9%, homens negros, -3,2%, mulheres brancas, -4,5%, e homens brancos, -3,7%).

O segundo ponto de destaque da tabela 4 foi a contração das pessoas indisponíveis em todas os grupos analisados. A redução foi de 759 mil pessoas para o Brasil como um todo, sendo que a redução foi de 10,7% para as mulheres negras, 16,1% para os homens negros, 16,5% para as mulheres brancas e 16,6% para os homens brancos.

 

Tabela 4 – Brasil – População em Idade Ativa, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (taxas de variação percentual) – 2º trimestre de 2021 versus 1º trimestre de 2021

População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens
População em Idade Ativa (A + B) 0,8 0,6 -1,0 -0,3
   A. Força de trabalho (A.1 + A.2) 2,1 2,0 1,5 1,1
      A.1 Pessoas ocupadas 3,8 2,9 1,7 1,3
         A.1.1 Pessoas subocupadas 11,4 4,9 2,0 8,6
      A.2 Pessoas desocupadas -3,9 -3,5 0,0 1,0
   B. Fora da força de trabalho (B.1 + B.2) -0,4 -2,2 -3,3 -3,2
      B.1 Força de trabalho potencial (B.1.1 + B.1.2) -6,7 -8,8 -14,4 -16,2
         B.1.1 Indisponíveis -10,7 -16,1 -16,5 -16,6
         B.1.2 Desalentados -2,9 -4,4 -11,4 -15,8
      B.2 Fora da força de trabalho potencial 0,9 -0,6 -2,1 -1,3
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 0,7 1,0 -0,1 0,1
Subutilização da força de trabalho ampliada -1,9 -3,2 -4,5 -3,7

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

3.             TAXAS (%) DE PARTICIPAÇÃO, DESOCUPAÇÃO, SUBOCUPAÇÃO E DE SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

O IBGE propõe taxas indicadoras da qualidade de inserção no mercado de trabalho. Neste item, são apresentadas algumas taxas selecionadas pela equipe do NPEGen, quais sejam: a taxa de participação no mercado de trabalho (força de trabalho/PIA), a taxa de desocupação (número de desocupados/força de trabalho), a taxa de subocupação (número de subocupados/número de ocupados) e a taxa de subutilização da força de trabalho ampliada (número de pessoas subutilizadas/FTA). Vale ressaltar que as taxas se referem à relação das categorias internamente a cada grupo social, ou seja, a taxa de participação das mulheres negras no mercado de trabalho será resultado da divisão das mulheres negras na força de trabalho pelo total de mulheres negras na PIA.

Gráfico 2 – Brasil: Taxa (%) de participação, segundo cor ou raça e sexo – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

No gráfico 2 estão as taxas de participação para o Brasil e para os recortes de cor e sexo apresentados anteriormente, para os três trimestres considerados na seção 2. Pôde-se observar que a taxa de participação aumentou substantivamente para todas as categorias sob análise, tanto na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior quanto na comparação com o trimestre anterior (+2,4 pontos percentuais e +0,9 p. p. para o Brasil; +3,5 p. p. e +0,6 p. p. para as mulheres negras; +3,6 p. p. e +0,9 p. p. para os homens negros; +1,4 p. p. e +1,2 p. p. para as mulheres brancas; +0,6 p. p. e +1,0 p. p. para os homens brancos, respectivamente). Conforme já comentado anteriormente, a baixa taxa de participação para o Brasil como um todo foi puxada pelas baixas taxas de participação das mulheres, negras e brancas. Vale salientar ainda que as taxas de participação das mulheres, negras ou brancas, não chegou a atingir 50%, enquanto as taxas dos homens, negros ou brancos, alcançou quase 70%.

As taxas de desocupação, apresentadas no gráfico 3, embora tenham apresentado uma leve redução no 2º trimestre de 2021 com relação ao 1º. trimestre de 2021, os números absolutos mostram ainda um grande contigente de pessoas desocupadas, indicando que as taxas caíram por aumento das pessoas na FT e não por uma redução mais forte no número de pessoas desocupadas. Para o Brasil, a taxa de desocupação, que era de 13,3% no 2º trimestre de 2020, chegou a 14,7% no 1º trimestre de 2021 e a 14,1% no 2º trimestre de 2021. Ademais, é possível notar que essas taxas podem diferir grandemente quando analisados os grupos aqui considerados. As mulheres negras foram, como sempre, as que apresentaram as maiores taxas de desocupação (18,2% no 2º trimestre de 2020, 21,4% no 1º trimestre de 2021 e 20,1% no 2º trimestre de 2021), sendo que todos os demais grupos apresentaram taxas inferiores à do Brasil (13,2% para homens negros, 13,8% mulheres brancas e 9,7% para homens brancos, no 2º trimestre de 2021). Além de ser o grupo que sempre apresenta as maiores taxas de desocupação, as mulheres negras também foram as que apresentaram maior variação da taxa no período analisado (quase 2 pontos percentuais de aumento entre o 2º. Trimestre de 2020 e o de 2021), ao lado das mulheres brancas (2,5 p.p. de aumento nesse período). Enquanto isso, a taxa de desocupação dos homens brancos pouco se alterou (9,5 versus 9,7%) e a dos homens negros reduziu um pouco (de 14,0 para 13,2%, no mesmo período).

Gráfico 3 – Brasil: Taxa (%) de desocupação, segundo cor ou raça e sexo – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2021

No que diz respeito às taxas de subocupação (gráfico 4), notou-se uma expressiva elevação para praticamente todos os grupos sob análise (apenas as mulheres brancas mantiveram a taxa de subocupação do 1º trimestre de 2021). Para o Brasil, a taxa , que era de 6,7% no 2º trimestre de 2020, passou para 8,2% no 1º trimestre de 2021 e depois para 8,6% no 2º trimestre de 2021, crescimento esse puxado pelo o que ocorreu com a subocupação das mulheres negras. Para elas, a taxa foi de 10,1%, para 12,6% e 13,5%; para os homens negros de 6,9%, para 8,2% e 8,4%; para as mulheres brancas de 6,5%, para 8,1% e mantendo 8,1%; e, finalmente, para os homens brancos de 3,9%, para 4,7% e 5,0%, respectivamente. Com grande evidência dos dados, mais uma vez ficou expressa a inserção mais precária das mulheres negras no mercado de trabalho, destacando-se a intersecção de gênero e raça como fundamental para a análise das questões estruturais de desigualdade do Brasil.

Gráfico 4 – Brasil: Taxa (%) de subocupação, segundo cor ou raça e sexo – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

Para finalizar a análise das taxas do mercado de trabalho, foram consideradas as taxas de subutilização da força de trabalho ampliada (gráfico 5). A taxa de subutilização considera as formas de inserção mais precárias do mercado de trabalho (por ser o resultado da soma das categorias de subocupação, desocupação e força de trabalho potencial), ampliando, assim, o conceito de desocupação ao incluir algumas formas ocultas de desemprego. Dessa forma, a taxa de subutilização mostra de forma mais realista o grupo de pessoas que se encontra em uma situação de maior de vulnerabilidade socioeconômica.

Gráfico 5 – Brasil: Taxa (%) de subutilização da força de trabalho ampliada, segundo cor ou raça e sexo – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

Novamente, os resultados do gráfico 6 deixam evidente a inserção mais precária das mulheres negras frente aos demais grupos sociais, sendo a inserção dos homens negros mais similar à das mulheres brancas e o os homens brancos representando o grupo com uma situação muito melhor. Notou-se no 2º trimestre de 2021, uma ligeira redução das taxas de subutilização, puxadas principalmente pela redução do número de pessoas na força de trabalho potencial. Ainda assim, uma taxa de subutilização de 28,6% para o Brasil, e principalmente a taxa de 40,9% para as mulheres negras, são números alarmantes. Aqui se destaque também a enorme diferença entre as mulheres negras e os homens brancos: a taxa de subutilização delas é mais de 2 vezes maior do que a deles.

4.             POSIÇÕES NA OCUPAÇÃO

Neste item são apresentadas as formas de ocupação preponderantes para a mulher negra e os principais destaques das demais categorias.

Os dados do 2º trimestre de 2021, apresentados na tabela 5, mostram algumas diferenças importantes na inserção das mulheres negras. A primeira delas está no trabalho doméstico. Os dados revelaram uma presença majoritária das mulheres negras no trabalho doméstico com carteira (55,7%) e no sem carteira (62,1%), muito maiores do que a sua participação no total das pessoas ocupadas (22,1%). As mulheres brancas ocuparam a segunda posição nessa forma de ocupação (32,5% com carteira e 31,9% sem carteira, também maior do que a sua participação total, de 21,3%), indicando que o trabalho doméstico, com ou sem carteira, é feminino e, predominantemente, negro.

Tabela 5 – Brasil – Pessoas ocupadas e sua composição na sua posição na ocupação (em participação percentual) no 2º trimestre de 2021

População Negra População Branca
Mulheres Homens Mulheres Homens Total
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 19,2 31,2 22,1 27,6 100,0
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 16,4 45,6 13,6 24,4 100,0
TRAB. DOMÉSTICO CC 55,7 7,6 32,5 4,2 100,0
TRAB. DOMÉSTICO SC 62,1 3,9 31,9 2,2 100,0
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 23,4 19,5 30,9 26,2 100,0
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 36,4 23,6 24,4 15,5 100,0
MILITAR E SERV. ESTATUTÁRIO 28,7 22,1 28,7 20,5 100,0
EMPREGADOR (A) 8,7 23,2 20,7 47,5 100,0
CONTA PRÓPRIA 17,7 36,3 17,5 28,5 100,0
TRAB. FAMILIAR AUXILIAR 34,1 21,9 29,2 14,8 100,0
TOTAL 22,1 31,0 21,3 25,6 100,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

A segunda diferença relevante foi nas outras duas formas preponderantes das ocupações das mulheres negras: o setor público sem carteira (36,4%) e o trabalhador familiar auxiliar (34,1%). Novamente, mais um argumento para consolidar a inserção precária da mulher negra no mercado de trabalho.  Nessa modalidade de contratação, o trabalho para o setor público acontece sem os direitos trabalhistas e, no caso do trabalhador familiar auxiliar, em geral, não possui remuneração.

A outra face dessa inserção diz respeito ao fato das mulheres negras serem minoritária em algumas posições que indicam condições melhores de trabalho. Tiveram uma participação inferior à do total das pessoas ocupadas (22,1%) as seguintes posições: empregador (8,7%), empregado do setor privado sem carteira (16,4%), conta própria (17,7%) e empregado do setor privado com carteira (19,2%).

Cabe ressaltar que na representatividade do total das ocupações, as mulheres negras (22,1%) se aproximam mais às mulheres brancas (21,3%) do que aos homens negros (31,0%). Isso mostra como a participação no mercado de trabalho possui um viés de gênero.

Tabela 6 – Brasil – Pessoas ocupadas, segundo a posição na ocupação, raça ou cor e sexo (em taxas de variação percentual) – 2º trimestre de 2021 versus 2º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

2º trim. 2021 x 2º trim. 2020 2º trim. 2021 x 1º trim. 2021
Pop. Negra Pop. Branca Pop. Negra Pop. Branca
M H M H M H M H
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 0,9 -0,1 2,2 1,9 3,4 1,4 3,2 1,1
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 10,4 23,4 4,1 13,7 2,0 5,9 1,0 0,4
TRAB. DOMÉSTICO CC -3,8 -21,3 -8,1 -8,4 -1,5 -20,8 2,7 -8,8
TRAB. DOMÉSTICO SC 16,8 5,0 13,4 11,3 6,4 3,5 6,5 17,9
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 20,0 10,0 -13,6 4,0 31,0 12,4 -1,7 3,2
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC -21,3 -15,3 -15,6 5,5 11,5 5,8 6,6 15,9
MILITAR E SERV. ESTATUTÁRIO 4,6 -2,0 -7,1 -4,1 -2,0 -1,2 -6,8 -1,1
EMPREGADOR (A) 2,6 -5,0 -7,3 -3,8 -0,5 -1,4 1,7 1,1
CONTA PRÓPRIA 15,8 13,5 20,6 11,7 6,0 4,4 3,4 2,8
TRAB. FAMILIAR AUXILIAR 16,6 7,8 5,1 1,0 1,5 1,8 0,9 -10,6
TOTAL 6,4 7,1 3,7 3,5 3,8 2,9 1,7 1,3

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Com relação às variações ocorridas entre o 2º trimestre de 2021 (tabela 6) na comparação com o 2º trimestre de 2020, nota-se que apenas o trabalho doméstico com carteira apresentou queda em todos os grupos analisados (-3,8% para as mulheres negras, -21,3% para os homens negros, -8,1% para as mulheres brancas e -8,4% para os homens brancos). Isso mostra que o trabalho doméstico, realmente, foi a posição mais impactada negativamente pela pandemia. Essa redução representou a saída de 98 mil pessoas de suas ocupações.

Essas pessoas que perderam suas vagas no trabalho doméstico formal, e tantas outras pessoas que se viram forçadas a procurar uma condição de se sustentar, acabaram entrando para o trabalho doméstico informal (+16,8% para as mulheres negras, +5,0% para os homens negros, +13,4% para as mulheres brancas e +11,3% para os homens brancos), significando um aumento de 495 mil pessoas assumindo, em geral, faxinas em alguns dias da semana. Conforme apresentado anteriormente, o trabalho doméstico é feminino e negro, então, dessas pessoas, 337 mil eram mulheres negras.

Essas pessoas se viram alijadas de seus postos de trabalho por trabalharem em ambiente inseguro ou por terem dificuldades no transporte até o seu trabalho, muitas trabalhadoras domésticas perderam seus empregos, pois os empregadores estavam também com dificuldade financeira ou com receio de que a funcionária pudesse ser uma fonte de contaminação para a família. Sendo assim, após um tempo, com o maior relaxamento do isolamento social e na medida em que a vacinação evoluiu, as mulheres negras se viram novamente com possibilidade de procurar por uma vaga.

O trabalho de conta própria também absorveu muitas pessoas no período (+15,8% para as mulheres negras, +13,5% para os homens negros, +20,6% para as mulheres brancas e +11,7% para os homens brancos). No total do Brasil, foram 3,1 milhões de pessoas a mais trabalhando como conta própria no 2º trimestre de 2021com relação ao mesmo período do ano anterior. Ou seja, as pessoas começaram a procurar alternativas para o trabalho e por rendimentos, sem poder esperar que uma vaga formal surgisse.

Em comparação ao trimestre imediatamente anterior, e pela primeira vez desde o início da pandemia, a única posição que registrou baixa para todos os grupos foram os militares e servidores estatutários (-2,0% para as mulheres negras, -1,2% para os homens negros, -6,8% para as mulheres brancas e -1,1% para os homens brancos).

Por outro lado, o setor público apresentou variação positiva para praticamente todos os grupos sociais com e sem carteira (+31,0% e 11,5% para as mulheres; +3,5% e +12,4% para os homens negros, -1,7% e +6,6% para as mulheres brancas e +3,2% e +15,9% para os homens brancos, respectivamente).

5.             RENDIMENTOS

Neste item são apresentadas as questões salariais na comparação entre o rendimento médio no Brasil e os demais grupos aqui apresentados. No 2º trimestre de 2021, o valor do rendimento médio foi de R$2.515,41. Todos os gráficos apresentados aqui têm o Brasil como a base (igual a 100 para os valores dos demais salários apresentados).

Os dados apresentados no gráfico 6 permitem a comparação dos rendimentos médios dos grupos sociais com os rendimentos das pessoas que são responsáveis por seus domicílios de acordo com a sua cor e gênero.

Analisando, primeiramente, o rendimento médio de cada um dos grupos sociais, no 2º trimestre de 2021 as mulheres negras ganharam, em média, 66,2% do salário médio da população (R$1.665,20), enquanto os homens negros ganharam 80,1% (R$2.014,84), as mulheres brancas 111,0% (R$2.792,11) e os homens brancos 143,5% (R$3.609,61). A baixa remuneração no mercado de trabalho une, portanto, as mulheres negras aos homens negros, sendo preponderante a desigualdade racial, nesse caso. As pessoas negras não chegaram a atingir o salário médio da população, enquanto as pessoas brancas o superam. Os rendimentos das mulheres negras representaram 46,1% do dos homens brancos.

Gráfico 6 – Brasil: Rendimento médio das pessoas ocupadas, de chefes de família, segundo a cor ou raça e sexo (em número índice: Rendimento médio do Brasil = 100) – 2º trimestre de 2021

O cenário fica ainda mais desigual quando considerada a condição mais relevante do domicílio, a condição de chefe de família. A partir dos dados da PNAD, não é possível afirmar com certeza que a pessoa considerada como chefe de família é a que tem o maior rendimento, mas é possível imaginar que boa parte das pessoas consideradas como chefes de família são as que se encontram nessa situação. Sendo assim, verifica-se que o rendimento médio das mulheres negras chefes de família foi de apenas 68,3% da média do Brasil ou 38,4% dos rendimentos médios dos homens brancos responsáveis pelo domicílio. Além disso, destaca-se que as mulheres negras foram o único grupo social para o qual quase não se altera o rendimento com o fato de ser ou não chefe de família. Isso indica uma situação de vulnerabilidade desse grupo, principalmente quando considerado que parte dessas mulheres, com rendimentos tão baixos, são mães, com crianças pequenas e sem cônjuge. Lembrando que, no contexto da pandemia, sem creches, escolas e sem formas alternativas de auxílio econômico, a vulnerabilidade dessas mulheres tornou-se ainda mais acentuada.

Gráfico 7 – Brasil: Rendimento médio das pessoas ocupadas, por grau de instrução, segundo a cor ou raça e sexo (em número índice: Rendimento médio do Brasil = 100) – 2º trimestre de 2021

Quando considerado o nível de escolaridade (gráfico 7), nota-se um aumento da desigualdade de rendimentos conforme aumenta o nível de escolaridade, o que deixa as mulheres negras em mais desvantagem. Das pessoas sem instrução, as pessoas negras foram as com menor remuneração. As mulheres negras auferiram o equivalente a 30,4% do rendimento médio da população, enquanto os homens negros ficaram com 38,4% (as mulheres brancas tiveram 45,4% e os homens brancos 51,1%). No ensino fundamental incompleto, nota-se que a situação das mulheres pouco muda (35,8% para as negras e 44,9% para as mulheres brancas), já para os homens houve uma melhora da condição (52,8% para os negros e 71,5% para os brancos).

Aumentando o nível de escolaridade para o extremo oposto, as pessoas com ensino superior completo, foi possível notar um aumento dramático da desigualdade, principalmente entre os grupos mais distantes – mulheres negras e homens brancos. Elas, com o maior nível de escolaridade possível, tiveram rendimento médio equivalente a 129,8% ao do Brasil, enquanto o deles representou 286,4% do rendimento médio. Para se ter de forma mais clara a grandeza da desigualdade nesse nível de escolaridade, o salário médio das mulheres negras equivaleu a 45,3% do salário médio dos homens brancos.

Gráfico 8 – Brasil: Rendimento médio das pessoas ocupadas, por cargos, segundo a cor ou raça e sexo (em número índice: Rendimento médio do Brasil = 100) – 2º trimestre de 2021

Por fim, a comparação de rendimentos também pode ser feita de acordo com o cargo ocupado (gráfico 8) pelos diferentes grupos, sendo esse um possível fator de redução das desigualdades apresentadas anteriormente. Para os dados considerados, a desigualdade entre as mulheres negras e os homens brancos esteve sempre visível. Porém, em três categorias a desigualdade parece ser maior: diretores e gerentes, profissionais das ciências e forças armadas, policiais e bombeiros.

Para as pessoas com cargos de diretores e gerentes, notou-se que apenas as mulheres negras não ultrapassaram o dobro do rendimento médio da população (155,5%). Dois grupos superaram o dobro do rendimento médio da população (222,7% para os homens negros e 205,8% para as mulheres brancas) e os homens brancos nessa categoria mais do que triplicaram o rendimento médio da população (343,4%).

A situação é bem parecida quando considerados os profissionais das ciências. As mulheres negras atingiram 142,4% do rendimento médio, ao passo que homens negros ficaram com 211,5%, as mulheres brancas com 205,7% e os homens brancos com 310,4%.

Finalmente, quando considerados os profissionais das forças armadas, policiais e bombeiros, o padrão se altera e as mulheres negras não representaram o grupo com os menores salários, sendo a posição assumida pelos homens negros (206,0%). Essa foi a única categoria que as mulheres negras conseguiram superar o dobro do rendimento médio da população (235,4%) e também a única na qual o rendimento médio das mulheres brancas foi o maior rendimento da categoria (312,0%).

6.             CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este boletim teve a finalidade de apresentar a inserção das mulheres negras no mercado de trabalho no 2º trimestre de 2021. Vale retomar nessas considerações finais alguns aspectos mais marcantes da análise.

O primeiro deles foi o número elevado de pessoas desocupadas e subutilizadas no 2º trimestre de 2021. Ainda que o número de pessoas ocupadas tenha levemente aumentado em relação ao trimestre anterior, foi observado forte incremento nas subocupações, que também pôde ser evidenciado pelo aumento no trabalho por conta própria e sem carteira de trabalho.

O segundo aspecto relevante foi a composição das taxas de mercado de trabalho. Mostrou-se que a desocupação, a subocupação e a subutilização foram condições mais relevantes para as mulheres negras do que para os demais grupos. Isso mostra como a inserção dessas mulheres continua sendo marcamente mais precária no mercado de trabalho.

Finalmente, as desigualdades entre os grupos considerados como extremos opostos neste boletim (mulheres brancas e homens negros) ficou ainda mais evidente quando considerados os rendimentos de acordo com a posição no domicílio, a escolaridade e com os cargos. Viu-se que as mulheres negras, mesmo assumindo a função de chefes de família, tiveram remuneração muito abaixo a da média da população. Também se observou a presença de um teto de vidro, impedindo às mulheres negras o acesso a cargos mais elevados, levando a uma remuneração média mais baixa para elas, mesmo com altos níveis de escolaridade. Assim como quando assumem cargos de direção ou gerência, sua remuneração fica aquém dos níveis dos homens brancos.

7.             Anexos

Tabela A – Brasil – População em Idade Ativa, segundo sua composição por raça ou cor e sexo (em mil pessoas) – 1º trimestre de 2021

Negros Brancos
Mulheres Homens Mulheres Homens
População em Idade Ativa (A + B) 50.164 45.846 43.719 36.766
   A. Força de trabalho (A.1 + A.2) 24.222 31.196 21.619 24.818
      A.1 Pessoas ocupadas 19.354 27.072 18.634 22.401
         A.1.1 Pessoas subocupadas 2.610 2.263 1.511 1.120
      A.2 Pessoas desocupadas 4.868 4.124 2.985 2.417
   B. Fora da força de trabalho (B.1 + B.2) 25.941 14.651 22.100 11.948
      B.1 Força de trabalho potencial (B.1.1 + B.1.2) 4.128 2.743 2.020 1.283
         B.1.1 Indisponíveis 1.930 942 1.136 609
         B.1.2 Desalentados 2.198 1.801 884 673
      B.2 Fora da força de trabalho potencial 21.813 11.907 20.080 10.665
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 28.350 33.939 23.639 26.101
Subutilização da força de trabalho ampliada (A.1.1 + A.2 + B.1) 11.606 9.130 6.515 4.819

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Tabela B – Brasil: Pessoas ocupadas e sua composição na sua posição na ocupação, por cor ou raça e sexo (em mil pessoas) no 1º trimestre de 2021

Negros Brancos
Mulheres Homens Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 5787 9384 6638 8295
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 1632 4550 1352 2435
TRAB. DOMÉSTICO CC 731 99 426 56
TRAB. DOMÉSTICO SC 2348 147 1205 83
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 297 248 392 333
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 758 492 509 324
MILITAR E SERV. ESTATUTÁRIO 2416 1866 2415 1732
EMPREGADOR (A) 326 874 782 1791
CONTA PRÓPRIA 4373 8970 4327 7056
TRAB. FAMILIAR AUXILIAR 686 442 587 298

Fonte: microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

REFERÊNCIAS

GORAYEB, Daniela Salomão.; FONSECA, Camila Veneo Campos; FILLETI, Juliana de Paula.; CAJUEIRO, Juliana Pinto de Moura. Uma análise do mercado de trabalho no contexto da crise econômico-sanitária de 2020: efeitos sobre as mulheres, sua saída da força de trabalho e sua indisponibilidade. In: Encontro Nacional de Economia Política, XXVI, 2021, Goiânia (evento virtual). Anais […]. Niterói: Sociedade de Economia Política, 2021. Disponível em: https://enep.sep.org.br/uploads/1649_1615673090_SEP_trabalho_identificado_pdf_ide.pdf.

 

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2018. Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios Contínua. Notas Técnicas – Versão 1.5. 2ª ed. Rio de Janeiro. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101561_notas_tecnicas.pdf.

SARRIS, Georgia Christ; FILLETI, Juliana de Paula.; CARDOSO de MELO, Maria Fernanda; GORAYEB, Daniela S. Mulheres no mercado de trabalho no 2º trimestre de 2020. Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas, SP: Editora FACAMP, volume 02, número 02, setembro de 2020. Disponível em: https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/npegen/mulheres-no-mercado-de-trabalho-segundo-trimestre-de-2020/

[1] Para entender melhor a crise sanitária e os efeitos da crise prolongada que a precedeu, verifique Gorayeb et al. (2021).

[2] População em idade ativa são as pessoas de 14 anos ou mais. Todas as definições das categorias da população em idade ativa podem ser encontradas em IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2018)

[3] Neste boletim são consideradas pessoas negras a soma das pessoas que se declararam pretas ou pardas.

[4] Neste boletim são consideradas pessoas brancas a soma das pessoas que se declararam brancas ou amarelas.

[5] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam por pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento, etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.

[6] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se, também, como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência.

[7] Vide item 4 mais adiante neste Boletim.

[8] A partir dos dados da tabela A do anexo é possível obter o nível de ocupação.

[9] Vide Sarris, et. al. (2020).

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