Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho – 2º trimestre de 2021

Sumário executivo

O Boletim das Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen com o objetivo de analisar os dados relativos à inserção das mulheres no mercado de trabalho, a partir dos microdados da PNAD contínua do IBGE.

Neste número são apresentados os dados referentes ao 2º trimestre de 2021. Ressalta-se que o ano de 2020 foi marcado por uma crise sanitária, que se somou à crise econômica que vigora desde 2015[1], de tal forma que o 2º trimestre de 2021 ainda reflete os efeitos gerados pelo contexto socioeconômico particular. Os destaques deste número foram:

  • Houve recuperação da força de trabalho em relação ao 2º trimestre de 2020, principalmente da feminina (+7,9% contra +5,1% dos homens). Apesar disso, o número de desocupados subiu, um aumento de 1,6 milhão de pessoas, sendo que a maioria absoluta eram mulheres 1,5 milhão eram mulheres (+23,8%), contra apenas 142 mil homens (+2,2%);
  • O aumento da taxa de subocupação e de subutilização da força de trabalho ampliada, principalmente no caso das mulheres, indica que a volta ao mercado de trabalho ocorreu de forma precária. O número de pessoas subocupadas atingiu o valor máximo da série histórica da PNAD contínua, sendo 7,5 milhões de pessoas no Brasil, delas 4,1 milhões de mulheres e 3,4 milhões de homens.
  • Houve uma redução no número de desocupados frente ao 1º trimestre de 2021, trimestre que atingiu o maior valor da série histórica – apesar de a quantidade de pessoas desempregadas ainda se mostrar alarmante. Foram 14,4 milhões de pessoas procurando uma ocupação sem conseguir encontrar, sendo 7,8 milhões de mulheres e 6,6 milhões de homens;
  • A desigualdade salarial de gênero segue expressiva e se intensifica com o aumento do nível de instrução e a depender do cargo ocupado. O rendimento médio das mulheres corresponde a 88,2% da média do Brasil. Para mulheres negras e indígenas não chega a 70% do salário médio da população.

Diante desse cenário de extrema desigualdade e vulnerabilidade, a análise das informações do mercado de trabalho brasileiro, principalmente a partir de um recorte de gênero, se coloca como de particular importância. Não só faz-se necessário estimular pesquisas para compreender o fenômeno estrutural e conjuntural dessa desigualdade, como as informações aqui analisadas podem apoiar a formulação de políticas cujo propósito seja mitigar a situação precária em que a maior parte das mulheres se encontra.

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Introdução

O Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho (MMT) tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com foco na participação da mulher.

Desde 2012, com a publicação da PNAD Contínua, o IBGE reformulou as estatísticas disponíveis para o mercado de trabalho, ampliando-as, tanto em termos de sua abrangência geográfica como em relação ao escopo de suas categorias.

Para os propósitos deste boletim – analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho –, algumas novas categorias são particularmente relevantes: a subocupação da força de trabalho e a força de trabalho potencial. Esses dois subconjuntos capturam a precariedade do mercado de trabalho e a vulnerabilidade das pessoas que se encontram dentro ou fora dele – no primeiro caso, elas estão ocupadas, mas de forma precária; no segundo, elas se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo e necessidade – por desalento ou por indisponibilidade. Ao lado da desocupação, a subocupação e a força de trabalho potencial conformam uma outra nova categoria, a da subutilização da força de trabalho.

Na perspectiva do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP (NPEGen), para viabilizar a análise da situação de milhões de mulheres ocultas das categorias tradicionais e comumente divulgadas pela maior parte dos estudos sobre o mercado de trabalho, é fundamental lançar um olhar mais atento a esses novos dados, ainda que sua leitura e interpretação impliquem maior complexidade analítica.

Os dados do 2º trimestre de 2021 revelam o início de uma recuperação da força de trabalho em relação ao 2º trimestre de 2020. No entanto, e apesar da redução do número de desocupados em relação ao último trimestre, não só o número de mulheres desocupadas aumentou a taxa muito superior à dos homens, como também a volta ao mercado de trabalho ocorreu de forma precária – como demonstram o aumento da taxa de subocupação e de subutilização da força de trabalho ampliada, principalmente no caso das mulheres.

Sendo assim, o boletim está estruturado em 4 seções, além desta introdução e das considerações finais. Nas seções de 1 a 3, exibem-se os dados da população na Força de Trabalho brasileira, bem como do contingente que está Fora da Força de Trabalho. Na seção 4, apresentam-se os dados dos rendimentos, com diferentes recortes, ainda que guardando as diferenciações entre os sexos.

1.             COMPOSIÇÃO E VARIAÇÃO (%) DA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA (PIA) E DE SUAS CATEGORIAS

Esta seção é composta por 4 itens. No primeiro, é apresentado o número de pessoas das categorias da PIA no trimestre analisado, com as participações de mulheres e homens em cada uma delas. No segundo, exibem-se as variações percentuais do trimestre analisado em relação ao trimestre anterior e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior dessas categorias. A composição da Força de Trabalho Potencial é apresentada no item 3. No último item, são discriminados os motivos alegados pelas pessoas para não estarem na Força de Trabalho brasileira no 2º trimestre de 2021.

1.1.        Composição da população em idade ativa (PIA) no 2º trimestre de 2021

A composição da População em Idade Ativa (PIA)[2] é exibida no gráfico 1. Há duas subdivisões da PIA: a população na Força de Trabalho (FT) – pessoas que estavam Ocupadas[3] ou Desocupadas[4] no período de referência da pesquisa – e a população Fora da Força de Trabalho (FFT) ­– pessoas que não estavam ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. As pessoas que estão Fora da Força de Trabalho estão subdivididas em outras duas categorias: as pessoas na Força de Trabalho Potencial (FTP) e as pessoas Fora da Força de Trabalho Potencial (Fora da FFTP).

Embora as mulheres sejam a maioria na PIA (53,2%), nota-se uma menor representatividade delas na Força de Trabalho (45,0%) e na População Ocupada (43,4%) do que a dos homens (55,0% na FT e 56,6% na População Ocupada). Apesar dessa menor representatividade na FT, as mulheres foram a maioria da População Desocupada, 54,5% no 2º trimestre de 2021; assim como da População Subocupada[5], 54,9% no mesmo período.

As mulheres também aparecem como maioria em todas as categorias que evidenciam a maior vulnerabilidade no mercado de trabalho. Elas estavam em maior proporção entre as pessoas Fora da Força de Trabalho (64,4%), assim como eram a maioria da Força de Trabalho Potencial (FTP) – formada por uma parte da população fora da força de trabalho que não estava nem ocupada nem desocupada na semana de referência, mas com potencial para se tornar força de trabalho (Pessoas Indisponíveis e Pessoas em Desalento)[6]. As mulheres continuaram sendo a ampla maioria nestas categorias, representando 60,5% da FTP, 66,4% das Pessoas Indisponíveis e 55,5% das Pessoas em Desalento. Entre as pessoas que estavam Fora da Força de Trabalho Potencial (FFTP), as mulheres representaram 65,0% do total.

Outra categoria que sintetiza o conjunto de posições vinculadas à inserção mais precária no mercado de trabalho é a Subutilização da Força de Trabalho – resultado consolidado das pessoas Subocupadas, Desocupadas e na Força de Trabalho Potencial – que também foi mais elevada para as mulheres (56,5%).

Gráfico 1: Brasil – Composição da População em Idade Ativa (PIA) – 2º trimestre de 2021 (em mil pessoas)

1.2.        Taxa de variação (%) da composição da População em Idade Ativa (PIA)

Neste item são apresentadas as variações observadas pelas categorias, primeiro com a comparação com o mesmo trimestre do ano anterior e, no segundo subitem, na comparação com o trimestre imediatamente anterior.

Vale salientar, antes do início da análise dos dados, que o 2º trimestre de 2020 foi o trimestre de agravamento da crise sanitária, com grande saída das pessoas do mercado de trabalho, atingindo níveis nunca antes observados de pessoas indisponíveis ou em desalento.

1.2.1.    2º trimestre de 2021 versus 2º trimestre de 2020

Conforme salientado anteriormente, o 2º trimestre de 2020 foi o período de maior agravamento da crise econômico-sanitária vivida pelo Brasil, de modo que o mercado de trabalho apresentou os piores indicadores históricos no referido trimestre. De fato, o isolamento social e as medidas sanitárias passaram a ser adotadas no Brasil a partir de meados de março de 2020, praticamente coincidindo com o início do 2º trimestre. Por isso, a partir dessa comparação, será possível observar o cenário um ano após os primeiros efeitos da crise sobre o mercado de trabalho brasileiro.

Considerando o cenário exposto, foi possível notar uma recuperação da força de trabalho, com o retorno de 6,1 milhões de brasileiros para o mercado de trabalho. Desse total, 3,4 milhões eram mulheres (+7,9%) e 2,7 milhões eram homens (5,1%). Houve um aumento significativo das pessoas ocupadas, 4,4 milhões de pessoas no total, sendo 1,8 milhão de mulheres (+5,1%) e 2,6 milhões de homens (+5,5%). Porém, vale salientar que nem todas as pessoas que ingressaram na força de trabalho nesse período o fizeram conseguindo um emprego ou cargo. O número de desocupados subiu, um aumento de 1,6 milhão de pessoas, sendo que a maioria, 1,5 milhão eram mulheres (+23,8%), contra apenas 142 mil homens (+2,2%).

Além disso, foi possível notar um aumento considerável das pessoas em posição de subocupação, ou seja, pessoas que conseguiram voltar a compor a força de trabalho, mas não conseguiram encontrar uma vaga para preencher todo o tempo que gostariam de trabalhar. No total, foram 1,9 milhão de pessoas subocupadas a mais, sendo 1,1 milhão de mulheres (+37,7%) e 796 mil homens (+30,6%).

No 2º trimestre de 2020, um dos principais movimentos observados no mercado de trabalho foi o grande aumento das pessoas indisponíveis, ou seja, pessoas que gostariam de trabalhar, mas, por algum motivo, se encontravam indisponíveis para assumir uma vaga. Como o aumento foi muito significativo, apesar da redução apresentada no 2º trimestre de 2021, o indicador ainda se encontra em um patamar muito elevado. Houve uma redução de 3,2 milhões de pessoas na indisponibilidade, porém 4,6 milhões de pessoas ainda se consideravam indisponíveis para o trabalho. Dessas pessoas, 3,1 milhões eram mulheres (-35,0% frente ao resultado do 2º trimestre de 2020) e 1,6 milhão eram homens (uma variação de -50,0%).

Esse movimento das pessoas indisponíveis justificou a redução observada na força de trabalho potencial como um todo, com uma redução de 3,3 milhões de pessoas nessa condição, sendo a FTP composta, no 2º trimestre de 2021, por 6,2 milhões de mulheres (-20,8%) e 4,0 milhões de homens (-29,6%). O desalento, por outro lado, apresentou uma variação positiva no caso das mulheres, 42 mil mulheres a mais em desalento (+1,4%), sendo que houve uma redução no caso dos homens, 143 mil homens a menos (-5,5%).

 

 

Tabela 1: População em Idade Ativa, segundo sua composição e sexo, no 2º trimestre de 2021 (em mil pessoas), taxas de variação (%) do 2º trimestre de 2021 versus 2º trimestre 2020 e versus 1º trimestre de 2021

2º trim. 2021 (em mil pessoas) 2º trim. 2021 versus 1º trim. 2021 2º trim. 2021 versus 2º trim. 2020
M H M H M H
População em Idade Ativa (A + B) 94.225 82.924 0,0 0,3 2,2 1,5
 A. Força de Trabalho (A.1 + A.2) 45.989 56.246 1,9 1,7 7,9 5,1
   A.1 Pessoas Ocupadas 38.114 49.677 2,8 2,3 5,1 5,5
     A.1.1 Pessoas Subocupadas 4.140 3.403 8,0 6,4 37,7 30,6
   A.2 Pessoas Desocupadas 7.875 6.569 -2,4 -2,5 23,8 2,2
 B. Fora da Força de Trabalho (B.1 + B.2) 48.236 26.678 -1,7 -2,6 -2,6 -5,5
   B.1 Força de Trabalho Potencial (FTP) 6.182 4.041 -9,3 -11,3 -20,8 -29,6
     B.1.1 Indisponíveis 3.084 1.557 -12,8 -16,3 -35,0 -50,0
     B.1.2 Desalentados 3.098 2.484 -5,5 -7,7 1,4 -5,5
   B.2 Fora da Força de Trabalho Potencial 42.054 22.637 -0,5 -0,9 0,8 0,6
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 52.170 60.287 0,4 0,7 3,4 1,8
FT Subutilizada 18.197 14.012 -2,8 -3,3 6,0 -5,2

Fonte: Microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

1.2.2.    2º trimestre de 2021 versus 1º trimestre de 2021

A comparação do 2º trimestre de 2021 com 1º trimestre de 2021 (tabela 1) mostra os primeiros sinais de uma tentativa de recuperação do mercado de trabalho. Porém, como será possível observar, o número absoluto de pessoas desocupadas teve uma variação muito pequena (redução de 196 mil mulheres e 165 mil homens), indicando que o contingente de pessoas procurando emprego ainda é muito grande. Tal conclusão se coloca principalmente se considerado que o número de desocupados atingiu o valor recorde da série histórica no primeiro trimestre de 2021[7].

De qualquer forma, houve, no 2º trimestre de 2021, um retorno das pessoas para a força de trabalho, com um aumento de 1,9% para as mulheres e 1,7% para os homens – o que representou 1,8 milhões de pessoas a mais no mercado de trabalho, sendo 844 mil mulheres e 936 mil homens. Essas pessoas foram alocadas entre as pessoas ocupadas e subocupadas, pois, mesmo que pouco significativa em termos absolutos, houve uma redução do número de pessoas desocupadas (-2,4% para as mulheres e -2,5% para os homens).

Sendo assim, o número de pessoas ocupadas no 2º trimestre aumentou em 2,1 milhões de pessoas (1,0 milhão de mulheres, +2,8%, e 1,1 milhão de homens, +2,3%), sendo capaz de captar não só o aumento da força de trabalho, mas também a redução ocorrida no número de desocupados. Porém, é importante observar que 511 mil pessoas desse contingente acabaram assumindo vagas que não conseguiam preencher toda a carga horária desejada, ou seja, o aumento da subocupação também apareceu de forma contundente no 2º trimestre de 2021 (8,0% de aumento para as mulheres e 6,4% de aumento para os homens).

O aumento observado no número de pessoas na força de trabalho foi resultado da queda da participação das pessoas fora da força de trabalho, visto que a população em idade ativa ficou estável no caso das mulheres e cresceu muito pouco no caso dos homens. Houve uma redução de 1,6 milhões de pessoas fora da força de trabalho (quase 850 mil mulheres e 720 mil homens a menos). Das categorias que compõem as pessoas fora da força de trabalho, a principal redução ocorreu na força de trabalho potencial (-9,3% para as mulheres e -11,3% para os homens), uma contração de 1,1 milhão de pessoas. Vale lembrar que a FTP cresceu muito ao longo da pandemia uma vez que muitas pessoas se viram impossibilitadas de acessar seus trabalhos – seja por estarem muito expostas, por não conseguirem meios de transporte ou por ter que cuidar dos seus.

Conforme salientado nos boletins anteriores, a situação das mulheres foi particularmente agravada pelo fechamento das escolas e pelo desmantelamento das redes de apoio. No início de 2021, algumas escolas começaram o processo de retomada, mesmo que parcial ou em dias alternados, movimento intensificado no 2º trimestre de 2021, ainda que sem um retorno completo.

Outro fator determinante para a retomada das atividades foi a redução do auxílio emergencial. Ao longo de 2020, o auxílio permitiu que muitos trabalhadores permanecessem em casa cuidando de seus familiares e da sua própria saúde. Porém, seu corte no final de 2020 e posterior retorno, num valor menor, em 2021, deixou muitas famílias em uma situação de insegurança, forçando seus membros a voltar a procurar trabalho mesmo que em período parcial ou de forma precária.

Dentro da força de trabalho potencial, a principal redução se deu nas pessoas indisponíveis. Foram 755 mil pessoas a menos indisponíveis para o trabalho, sendo 451 mil mulheres (-12,8%) e 304 mil homens (-16,3%). Muitas pessoas também saíram da condição de desalento (388 mil pessoas), mas coube à indisponibilidade o maior impacto sobre a variação da FTP.

1.3.        Força de Trabalho Potencial: Desalento e Indisponibilidade

Desde o início da crise sanitária observou-se um aumento das categorias de indisponibilidade e desalento, ou seja, da força de trabalho potencial. Conforme observado no item anterior, porém, no 2º trimestre de 2021 o movimento do mercado de trabalho começou a dar indícios de mudança de tendência. Os próximos três gráficos evidenciam esse movimento do mercado de trabalho, ainda lento e insuficiente para recuperar todas as pessoas que foram alijadas dele, mas que dá sinais de recuperação.

Gráfico 2: Percentual de Pessoas da Força de Trabalho Potencial na População Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens ­– 2º trimestre de 2021, 2º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

O gráfico 2 apresenta, para o Brasil, mulheres e homens, o percentual de pessoas da força de trabalho potencial na população fora da força de trabalho. É possível notar que houve, de fato, uma redução da participação da FTP no 2º trimestre de 2021 quando comparado com o 1º trimestre de 2021 nas três categorias analisadas (Brasil 13,6% versus 14,9%, mulheres 12,8% versus 13,9% e homens 15,1% versus 16,6%, respectivamente), sendo essa redução ainda maior quando comparada com 2º trimestre de 2020 (Brasil 3,8 pontos percentuais de redução, mulheres -2,9 p.p. e homens -5,2 p.p.).

Os próximos gráficos, 3 e 4, têm a função de apresentar a participação do desalento e da indisponibilidade na composição da força de trabalho potencial, para o Brasil, mulheres e homens. Os gráficos, em conjunto, mostram que a indisponibilidade, categoria que chegou a figurar como a maioria das pessoas na força de trabalho potencial no 2º trimestre de 2020, voltou a ter participação menos significativa. No Brasil, no 2º trimestre de 2020, 58,0% da FTP era composta por pessoas indisponíveis e 42,0% por desalentados. No 1º trimestre de 2021 a situação se inverteu e os desalentados voltaram a ser a maioria (52,5%) das pessoas na FTP, enquanto os indisponíveis representavam 47,5%. Finalmente, no 2º trimestre de 2021 a diferença fica ainda maior (45,4% de indisponíveis e 54,6% desalentados). No entanto, a comparação desse quadro entre homens e mulheres é bastante distinta.

Gráfico 3: Percentual de Pessoas da Desalentadas na Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

Para as mulheres, mesmo com a queda das pessoas indisponíveis, apenas no 2º trimestre de 2021 o número de desalentados supera o número de indisponíveis, e mesmo assim, de forma marginal. No caso dos homens o movimento é muito similar ao do Brasil como um todo.

Sendo assim, a indisponibilidade, que representava a grande maioria das mulheres na FTP no 2º trimestre de 2020 (60,8%), reduziu-se no 1º trimestre de 2021 (51,9%) e deixou de ser a maior parcela da FTP no 2º trimestre de 2021 (49,9%). Como as duas categorias são complementares, a situação das mulheres desalentadas foi exatamente oposta (de 39,2% no 2º trimestre de 2020, para 48,1% no 1º trimestre de 2021, chegando a 50,1% no 2º trimestre de 2021).

No caso dos homens, a indisponibilidade foi a maior parte da FTP apenas no 2º trimestre de 2020, o pior período da crise conforme já salientado neste boletim. A participação foi de 54,2%, contra 45,8% dos desalentados. No ano de 2021, o desalento volta a constituir a maior parte da FTP, sendo 59,1% dos homens na FTP em desalento e 40,9% indisponíveis. No 2º trimestre de 2021 a distância entre as duas categorias aumentou ainda mais, sendo 61,5% de desalentados e 38,5% indisponíveis.

Gráfico 4: Percentual de Pessoas da Indisponíveis na Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

2.             MOTIVOS PARA NÃO ESTAR NA FORÇA DE TRABALHO

O gráfico 5 apresenta os motivos declarados pelos entrevistados para estarem fora da força de trabalho no 2º trimestre de 2021. As respostas dos homens e das mulheres diferem de forma significativa.

Gráfico 5: Motivos para não estar na Força de Trabalho – 2º trimestre de 2021

Para as mulheres, o principal motivo para estar fora do mercado de trabalho foi o cuidado com os afazeres domésticos (26,6%), seguido por ser muito idosa ou muito jovem (24,6%), outro motivo (14,8%), problemas de saúde e gravidez (13,9%), estudar (11,5%) e, finalmente, por não querer trabalhar (8,7%). Apesar de cuidar dos afazeres domésticos sempre figurar como principal motivo para as mulheres não estarem no mercado de trabalho, certamente, a crise sanitária agravou essa situação. Isso porque, as medidas sanitárias para conter a contaminação pelo vírus implicaram o fechamento das escolas e a desestruturação da rede de apoio das mulheres – por exemplo, os cuidados com a saúde impediram avós de auxiliar nos cuidados com as crianças –, dificultando o acesso das mulheres ao mercado de trabalho.

No caso dos homens, o principal motivo alegado para não estar no mercado de trabalho foi o de ser considerado muito idoso ou muito jovem para trabalhar (28,9%), seguido por outro motivo (20,6%), problemas de saúde (18,6%), estudar (18,6%), não querer trabalhar (11,1%) e, apenas em último lugar, cuidar dos afazeres domésticos (2,1%). Ou seja, mesmo diante do cenário de crise sanitária, que impôs uma maior restrição a circulação, o fechamento de escolas, além de implicar a desestruturação da rede de apoio para o cuidado com as crianças, os homens não declararam o afastamento do mercado de trabalho devido aos afazeres domésticos.

 

3.             TAXAS (%) DE DESOCUPAÇÃO, SUBOCUPAÇÃO E SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO AMPLIADA

Após analisar as categorias que compõem a PIA, assim com os motivos para não estar na força de trabalho, são apresentados os dados relativos aos movimentos das taxas de desocupação, subocupação e subutilização, apresentadas nos gráficos 6, 7 e 8. A importância da análise das taxas está na relativização com o total de cada um dos grupos analisados, Brasil, mulheres e homens.

Pode-se observar, no gráfico 6, uma redução das taxas de desocupação (número de pessoas desocupadas em relação às pessoas na força de trabalho) para o Brasil, as mulheres e os homens, no 2º trimestre de 2021 em relação ao 1º trimestre de 2021: Brasil passou de 14,7% para 14,1%; as mulheres, de 17,9% para 17,1%; e, os homens, de 12,2% para 11,7%. Conforme apresentado anteriormente, essa redução da taxa de desocupação se deveu, em grande medida, ao aumento da força de trabalho para todos esses grupos. Porém, a comparação com o 2º trimestre de 2020 mostra um aumento das taxas de desocupação para o Brasil (+0,8 ponto percentual) e para as mulheres (+2,2 p. p.), apesar de ter sido observada uma leve redução para os homens (-0,3 p. p.). Esse indicador mostra, mais uma vez, como o mercado de trabalho ainda está longe de uma recuperação que preveja a absorção das pessoas que perderam seus empregos ao longo do último ano.

Gráfico 6: Taxa (%) de Desocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

As Taxas de Subocupação[8] do Brasil, das Mulheres e dos Homens são apresentadas no gráfico 7. A taxa de subocupação é um importante indicador da precariedade do mercado de trabalho, pois revela o contingente de pessoas que conseguiram trabalhar por um período na semana de referência, mas não conseguiram ocupar as 40 horas semanais e, assim, trabalharam menos do que gostariam. No 2º trimestre de 2021 houve um aumento da subocupção para as 3 categorias analisadas. Para o Brasil, o aumento foi de 1,9 ponto percentual comparado o 2º trimestre de 2020 e de 0,4 p. p. com relação ao 1º trimestre de 2021. Para as mulheres o aumento foi de 2,6 p. p. comparado ao mesmo período do ano anterior e de 0,6 p. p. comparado ao trimestre imediatamente anterior. Para os homens houve um aumento de 1,3 p. p. frente ao 2º trimestre de 2020 e de 0,2 p. p. frente ao 1º trimestre de 2021.

Gráfico 7: Taxa (%) de Subocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

Por fim, as Taxas de Subutilização da Força de Trabalho Ampliada[9] (gráfico 8), outro indicador relevante da precariedade do trabalho, visto que agrupa as principais formas de vulnerabilidade (subocupação, desocupação e força de trabalho potencial), apresentaram pequena queda no 2º trimestre de 2021. Para o Brasil, a taxa que era de 29,1% no 2º trimestre de 2020, chegou a 29,7% no 1º trimestre de 2021 e recuou para 28,6% no 2º trimestre de 2021. Para as mulheres,. a taxa saiu de 34,0% no 2º trimestre de 2020, chegou em 36,0% no 1º trimestre de 2021 e caiu para 34,9% no 2º trimestre de 2021. No caso dos homens, a taxa era 24,9% no 1º trimestre de 2020, caiu para 24,2% já no 1º trimestre de 2021 e estava em 23,2% no 2º trimestre de 2021.

Gráfico 8: Taxa (%) de Subutilização para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2020, 1º trimestre de 2021 e 2º trimestre de 2021

4.             POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO DAS PESSOAS OCUPADAS

Neste item, é apresentada a análise das posições na ocupação das pessoas ocupadas. A finalidade é entender melhor os impactos sobre as posições que as pessoas ocupam no mercado de trabalho, sejam elas empregadas, empregadoras, trabalhadoras por conta própria ou trabalhadoras familiares auxiliares.

A tabela 2 apresenta a posição na ocupação das pessoas ocupadas no 2º trimestre de 2021. Observa-se que as categorias “empregado do setor privado com carteira” e “conta própria” concentraram a maioria das pessoas ocupadas (Brasil com 34,4% e 28,3%; mulheres com 32,7% e 22,9%; homens com 35,7% e 32,4%, respectivamente). Outras duas categorias relevantes foram “empregado do setor privado sem carteira” e “militar e servidor estatutário” (Brasil com 11,4% e 9,6%; mulheres com 7,9% e 12,7%; homens com 14,1% e 7,3%, respectivamente). Para as mulheres, o trabalho doméstico também se destaca. Ao todo, 9,4% das mulheres eram trabalhadoras domésticas sem carteira e, quando consideradas as trabalhadoras com carteira, esse percentual sobe para 12,4%. 

Tabela 2: Pessoas Ocupadas, segundo posição na ocupação e sexo – Totais (em mil pessoas) e Taxa de participação (%) no 2º trimestre de 2021

2º trimestre de 2021 Participação (%)
Brasil Mulheres Homens BR M H
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 30.189 12.459 17.729 34,4 32,7 35,7
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 10.023 3.001 7.022 11,4 7,9 14,1
TRAB. DOMÉSTICO CC 1.312 1.157 155 1,5 3,0 0,3
TRAB. DOMÉSTICO SC 3.796 3.564 232 4,3 9,4 0,5
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 1.273 691 582 1,4 1,8 1,2
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 2.097 1.275 822 2,4 3,3 1,7
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 8.451 4.845 3.607 9,6 12,7 7,3
EMPREGADOR (A) 3.788 1.109 2.679 4,3 2,9 5,4
CONTA PRÓPRIA 24.839 8.734 16.105 28,3 22,9 32,4
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 2.023 1.279 744 2,3 3,4 1,5
TOTAL 87.791 38.114 49.677 100,0 100,0 100,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua ­­– IBGE. Elaboração: NPEGen.

Com relação às variações de cada uma das categorias (tabela 3), o Brasil apresentou um aumento de 2,5% do total de pessoas ocupadas, um acréscimo de 2,8% de mulheres e 2,3% de homens, quando comparados com 1º trimestre de 2021. Ainda na comparação com o trimestre anterior, no 2º trimestre de 2021 o trabalho doméstico com carteira permaneceu em queda, como desde o início da pandemia (-2,4% para o Brasil, -0,1% para as mulheres e -16,9% para os homens), a categoria “militar e servidor estatutário” também apresentou queda para as três categorias analisadas (-3,1% para o Brasil, -4,5% para as mulheres, -1,3% para os homens).  Nas demais categorias, praticamente todas apresentaram crescimento frente ao 1º trimestre de 2021, exceto “trabalhador doméstico sem carteira” para os homens (-5,0%) e “trabalhador familiar auxiliar” para o Brasil (-0,7%) e para os homens (-3,2). Para as mulheres, as maiores variações foram, em ordem de grandeza, “empregado do setor público com carteira” (+10,0%), “empregado do setor público sem carteira” (+9,6%), “trabalhador doméstico sem carteira” (+6,5%) e conta própria (+4,8%). Aqui, novamente, é possível notar a precariedade da inserção das mulheres no mercado de trabalho, dado que as categorias com maior crescimento foram as informais.

Tabela 3: Pessoas Ocupadas, segundo posição na ocupação e sexo – taxa de variação (%) 2º trimestre de 2021 versus 1º trimestre de 2021 e versus 2º trimestre de 2020

Variação (%)

(versus 1º trimestre de 2021)

Variação (%)

(versus 2º trimestre de 2020)

Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 2,1 3,3 1,2 0,1 1,6 -0,9
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 3,4 1,8 4,1 16,0 7,8 19,9
TRAB. DOMÉSTICO CC -2,4 -0,1 -16,9 -7,0 -5,5 -17,1
TRAB. DOMÉSTICO SC 5,7 6,5 -5,0 14,9 15,4 8,1
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 8,6 10,0 7,0 1,7 -1,9 6,4
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 9,5 9,6 9,4 -14,9 -18,8 -7,9
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO -3,1 -4,5 -1,3 -2,3 -1,6 -3,2
EMPREGADOR (A) 0,5 1,0 0,3 -4,2 -4,6 -4,1
CONTA PRÓPRIA 4,2 4,8 3,9 14,7 18,0 12,9
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR -0,7 0,9 -3,2 8,7 10,9 5,1
TOTAL 2,5 2,8 2,3 5,3 5,1 5,5

Fonte: microdados da PNAD Contínua – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Como comentado anteriormente, o 2º trimestre de 2020 foi o pior período da crise sanitária. Logo, já era esperado algum sinal de recuperação para o mercado de trabalho na variação anual. No total, todas as categorias apresentaram recuperação da ocupação (5,3% para o Brasil, 5,1% para as mulheres e de 5,5% para os homens). Porém, mesmo diante de um cenário de recuperação, é possível notar ainda uma forte redução do trabalho doméstico com carteira (-7,0% para o Brasil, -5,5% para as mulheres e -17,1% para os homens) e, principalmente, na categoria “empregado do setor público sem carteira” (-14,9% para o Brasil, -18,8% para as mulheres e -7,9% para os homens). A redução do trabalho doméstico é especialmente dramática para as mulheres, pois elas representam 92% dessa categoria – além de que o 2º trimestre de 2020 já apresentava tendência de queda. Outras categorias também impactadas, mas em menor intensidade, foram: “militar e servidor estatutário” e “empregador”.

 

 

5.             RENDIMENTO MÉDIO DAS PESSOAS OCUPADAS

Nesta seção são apresentados os dados do rendimento médio das mulheres e homens ocupados no 2º trimestre de 2021, de acordo com a cor ou raça, nível de instrução e cargo. No Brasil, no 2º trimestre de 2021, o rendimento médio foi de R$2.515,2, mantendo-se grandes as diferenças por sexo, cor ou raça, conforme apresentado na tabela 4. Nota-se que o maior rendimento médio observado foi para os homens brancos ou amarelos (R$3.608,1) e o menor para as mulheres indígenas (R$1.644,2).

Tabela 4: Rendimento médio das pessoas ocupadas, segundo cor ou raça e o sexo – Valores do 2º trimestre de 2021 (em R$)

Brasil Mulheres Homens
Total 2515,2 2218,0 2738,7
Brancos/Amarelos 3240,1 2788,5 3608,1
Pretos/Pardos 1873,8 1667,0 2018,0
Indígenas 1886,4 1644,2 2037,1

Fonte: microdados da PNAD Contínua – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Cor ou Raça

Para facilitar a comparação, as pessoas foram separadas de tal forma a apresentar, primeiramente, os rendimentos médios do Brasil (base 100), das mulheres e dos homens. Depois, as pessoas foram separadas de acordo com o sexo e com a cor ou raça – brancos/amarelos, pretos/pardos e indígenas.

É possível observar, a partir do gráfico 9, que as mulheres indígenas apresentaram o menor rendimento médio da população, equivalente a 65,4% do rendimento médio do Brasil. As mulheres pretas e pardas se somam às indígenas como as categorias cujo rendimento ficou abaixo dos 70% do salário médio da população. No outro extremo, situaram-se os homens brancos/amarelos, com rendimento 43,5% acima do rendimento médio da população, seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (10,9% acima do rendimento médio da população). Esses dados mostram que, além de um recorte de sexo, considerar cor, raça ou etnia também é muito importante para analisar a desigualdade de rendimentos no Brasil.

Gráfico 09: Rendimento médio relativo por sexo e cor ou raça, 2º trimestre de 2021

Nível de Instrução

Outra forma de comparação relevante para os rendimentos é a observação do rendimento médio por nível de instrução. Novamente, os rendimentos médios do Brasil representam a base 100. Como era de se esperar, o aumento no nível de instrução acarreta um aumento dos salários, porém, junto com esse aumento, a diferença dos rendimentos entre homens e mulheres fica cada vez maior.

A partir do gráfico 10, observa-se que apenas as mulheres com ensino superior completo conseguiram ultrapassar o rendimento médio da população (63,8% acima do rendimento médio da população), contudo, os homens na mesma posição ganharam mais do que o dobro do rendimento médio (2,57 vezes o rendimento médio da população). Sem contar que, até o nível superior incompleto, as mulheres não chegaram a alcançar 70% do rendimento médio da população. Quando consideradas as pessoas sem instrução, o rendimento médio das mulheres representou 82,9% do rendimento dos homens. No outro extremo do gráfico, as pessoas com nível superior completo, o rendimento das mulheres equivaleu a 63,6% do rendimento dos homens.

Gráfico 10: Rendimento médio relativo por sexo e instrução, 2º trimestre de 2021

Cargo

Por fim, os rendimentos são comparados entre os cargos das pessoas ocupadas. O rendimento médio do Brasil, novamente, é a base e igual a 100. Cargos mais altos, com rendimentos médios superiores ao da população, apresentaram maior desigualdade entre homens e mulheres.

Gráfico 11: Rendimento médio relativo por sexo e cargo, 2º trimestre de 2021

A partir da análise do gráfico 11, para o Brasil, foi possível observar que os cargos “elementares,” “agropecuária, caça e pesca” e “serviços e comércio,” possuíam rendimento médio inferior à média da população – 43,2%, 64,7% e 68,2%, respectivamente. A desigualdade entre homens e mulheres foi bem pequena nas profissões elementares (o rendimento das mulheres representou 87,4% do dos homens), mas aumentou na agropecuária (71,0% do rendimento dos homens) e também em serviços e comércio (65,3% do rendimento deles).

Nos cargos com rendimento acima da média da população, o rendimento das mulheres superou o dos homens apenas nas “forças armadas, policiais e bombeiros” (com o rendimento dos homens sendo 80,9% do das mulheres). Nos cargos de “diretores e gerentes” e “profissionais das ciências” a desigualdade entre homens e mulheres ficou ainda mais evidente, elas tiveram um rendimento médio de 62,2% e 65,4% do rendimento deles, respectivamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste número foram apresentados os dados do mercado de trabalho no Brasil referentes ao 2º trimestre de 2021. Como indicado anteriormente, não só o ano de 2020, em particular o 2º trimestre, foi marcado pelo estopim de uma crise sanitária, que se somou à crise econômica brasileira que vigora desde 2015, como o 1º trimestre de 2021 apresentou os piores resultados de toda a série histórica da PNAD Contínua. Por tais motivos, era de se esperar alguma melhora em relação aos indicadores do trimestre imediatamente anterior e do mesmo trimestre de 2020. Neste sentido, chama a atenção que, a despeito de uma melhora relativa, o 2º trimestre de 2021 ainda reflita, de forma grave, os efeitos gerados pelo contexto socioeconômico particular.

Apesar da recuperação da força de trabalho em relação ao 2º trimestre de 2020, principalmente da feminina (+7,9% contra +5,1% dos homens), e da redução no número de desocupados frente ao 1º trimestre de 2021, trimestre no qual se atingiu o maior valor da série histórica, 14,4 milhões de pessoas seguem procurando uma ocupação, sendo 7,8 milhões de mulheres e 6,6 milhões de homens.

Não obstante uma taxa de desemprego alarmante, a volta ao mercado de trabalho ocorreu de forma precária. A taxa de subocupação da força de trabalho chegou a 8,6% (10,9% para as mulheres e 6,8% para os homens), sendo que o número de pessoas subocupadas chegou ao valor máximo da série histórica, enquanto as taxas de subutilização da força de trabalho ampliada foram, respectivamente, 29,7%, 36,0% e 24,2% para o Brasil, mulheres e homens. Ou seja, 7,5 milhões de pessoas estão ocupadas, mas de forma precária, enquanto 10,2 milhões, das quais 4 milhões de mulheres, se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo e necessidade – por desalento ou por indisponibilidade. A subutilização da força de trabalho, portanto, chega a 32,2 milhões de pessoas (das quais 56,5% são mulheres).

A desigualdade salarial de gênero também segue expressiva e se intensifica com o aumento do nível de instrução e a depender do cargo ocupado. O rendimento médio das mulheres corresponde a 88,2% do rendimento médio do Brasil. Para mulheres pretas/pardas e indígenas não chega a 70% do salário médio da população. Considerando o nível de instrução, apenas as mulheres com ensino superior completo conseguiram ultrapassar o rendimento médio da população (63,8% superior). Até o nível superior incompleto, as mulheres não chegaram a alcançar 70% do rendimento médio total. Se comparados os cargos das pessoas ocupadas, as mulheres possuem rendimento inferior à média da população nos cargos “elementares,” “agropecuária, caça e pesca” e “serviços e comércio,”. O único cargo em que possuem rendimentos superiores aos dos homens é o das forças armadas.

Levando em consideração os dados expostos neste boletim, pode-se dizer que, mesmo com alguns sinais de recuperação do mercado de trabalho no 2º trimestre de 2021, os graves efeitos da crise sanitária ainda se fizeram sentir e há um longo caminho a ser percorrido para a recuperação do patamar apresentado ao final de 2019. Novamente, reforça-se o fato de o nível de emprego no 4º trimestre de 2019 ser o resultado de uma crise que já se alongava por quatro anos. Sendo assim, o mercado de trabalho ainda está longe de retomar um nível que já estava muito aquém do necessário para absorver a força de trabalho disponível no Brasil e reduzir o fenômeno estrutural e conjuntural da desigualdade de gênero no país.

REFERÊNCIAS

FILLETI, Juliana de Paula; HAMASAKI, Cláudia Satie; CAJUEIRO, Juliana Pinto de Moura. Mulheres no mercado de trabalho no 1º trimestre de 2021. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 03, número 01, março de 2021.

 

GORAYEB, Daniela S., Camila V. C. FONSECA, Juliana P. FILLETI, and Juliana P. M. CAJUEIRO. 2021. “Uma análise Do Mercado de Trabalho No Contexto Da Crise Econômico-Sanitária de 2020.” Efeitos Sobre as Mulheres, Sua Saída Da força de Trabalho e Sua Indisponibilidade. Anais do XXVI Encontro Nacional de Economia Política, evento virtual, de 08 a 11 de junho de 2021. SEP. https://enep.sep.org.br/uploads/1649_1615673090_SEP_trabalho_identificado_pdf_ide.pdf.

 

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2018. Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios Contínua. Notas Técnicas – Versão 1.5. 2ª ed. Rio de Janeiro. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101561_notas_tecnicas.pdf.

[1] Para entender melhor a crise sanitária e os efeitos da crise prolongada que a precedeu, verifique GORAYEB et al. (2021).

[2] População em idade ativa são as pessoas de 14 anos ou mais. Todas as definições das categorias da população em idade ativa podem ser encontradas em IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2018).

[3] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam por pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento, etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.

[4] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se também como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência.

[5] São classificadas como subocupadas na semana de referência as pessoas de 14 anos ou mais que trabalhavam habitualmente menos de 40 horas semanais, estavam disponíveis e gostariam de trabalhar mais horas.

[6] Os motivos para as pessoas se classificarem nesse subgrupo estão expostos na Seção 4.

[7] Para mais informações sobre o número recorde de desocupados no 1º trimestre de 2021, vide Filleti, et. al. (2021).

[8] Número de pessoas subocupadas em relação às pessoas ocupadas.

[9] A taxa de subutilização é representada pela razão entre a subutilização do trabalho (composta pela subocupação, desocupação e força de trabalho potencial) e a força de trabalho ampliada.

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