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Relatório Trimestral de Conjuntura: para além da euforia

Sumário Executivo

O crescimento de 1,2% do PIB no primeiro trimestre de 2021 surpreendeu o mercado e vários analistas, que esperavam um desempenho desfavorável no período, por conta da retirada do auxílio emergencial, do recrudescimento da pandemia e da elevação da taxa básica de juros (Selic). Outras análises, como aquelas apontadas pelo ITE-FACAMP [link], apontavam para um tênue crescimento no trimestre, com baixa probabilidade de sustentação no resto do ano.

Pelo lado da oferta, a atividade econômica foi beneficiada pela inércia da incipiente recuperação do segundo semestre de 2020, principalmente na indústria.  Por conta do descompasso entre oferta e demanda na retomada da atividade e da dificuldade de obtenção de insumos produtivos, parte da indústria utilizou seus estoques em 2020. Esses estoques foram, em parte, repostos no primeiro trimestre de 2021, justificando o crescimento da atividade industrial, mesmo com o desempenho insuficiente do mercado de trabalho e do consumo das famílias, que permanecem muito abaixo do necessário para sustentar taxas otimistas de crescimento econômico.

Pelo lado da demanda, o principal destaque positivo foi a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). O crescimento dos gastos dos empresários, em meio à queda no emprego e na renda se justifica principalmente pelos investimentos realizados pelo setor exportador, tendo em vista o crescimento da demanda externa e do preço das commodities.

A redução do déficit em transações correntes atingiu seu ápice no encerramento do primeiro trimestre de 2021. A recuperação do saldo comercial e, especialmente, a queda dos saldos negativos da conta de serviços sustentaram tal comportamento das transações correntes, contribuindo para o resultado positivo do PIB no primeiro trimestre.  Vale ressaltar que a continuidade do desempenho favorável da balança comercial brasileira mantém-se profundamente ligada ao promissor comportamento da economia e da demanda chinesa.

No entanto, a despeito de uma recuperação da atividade econômica, não foi possível observar uma melhora equivalente no mercado de trabalho, que registrou, no primeiro trimestre, aumento da desocupação e da subocupação, além de queda na massa de rendimentos. A precarização continua a avançar ao longo da pandemia, com o aumento da “uberização” e “pejotização” do trabalho.

Ademais, os primeiros meses do ano registraram uma mudança de orientação da política macroeconômica. O perfil anticíclico da política monetária e fiscal foi substituído por uma postura pró-cíclica, com aumento da taxa básica de juros, cortes de gastos com saúde e geração de superávits primários, mesmo com o recrudescimento da crise sanitária. Por um lado, o aumento das taxas de juros pouco contribui para o combate do processo inflacionário recente. Por outro, o corte de despesas e investimentos públicos compromete a recuperação no médio e longo prazo.

Portanto, as características do crescimento atual colocam dúvidas sobre a possibilidade de uma recuperação sustentável da economia: não retomamos ainda o patamar da atividade de 2014 nem sequer conquistamos condições estruturais para destravar o crescimento de longo prazo. Com o aumento da dependência externa, a fragilidade do mercado de trabalho e a falta de coordenação por parte do Estado, reforça-se a ideia de uma economia à deriva, sujeita a espasmos momentâneos. Para além da euforia, o que paira é a incerteza.

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