O Presidente do BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - e Professor Titular da UNICAMP, Luciano Coutinho, fala sobre o cenário econômico brasileiro e o papel do engenheiro

Como estão as perspectivas econômicas para os próximos anos?
O Brasil voltou a crescer de maneira sustentada nesta última década e tem se destacado como um dos maiores e mais dinâmicos mercados do mundo. Há diversos obstáculos a ultrapassar, mas a base industrial brasileira é sólida e sua força não pode ser desmerecida: basta considerar sua capacidade de resistência a períodos muito difíceis no passado.
Mas é voz corrente que o Brasil tem severas carências na infraestrutura...
É verdade. Temos restrições de infraestrutura que resultam do investimento relativamente baixo durante longo período, mas também temos oportunidades. O firme aumento da demanda devido ao forte crescimento da produção e do consumo de bens e serviços requer uma "infraestrutura associada": estradas, eletricidade, aeroportos, portos. Estes setores de infraestrutura passaram a ser objeto de investimentos em escala crescente. A ampliação da infraestrutura que, repito, tem se dado de forma crescente e acelerada, reduz custos do sistema e promove o crescimento da economia. As perspectivas são promissoras.

Quais são os principais desafios atuais?
Na minha visão são três: reduzir os custos de produção, sobretudo na indústria, acelerar os ganhos de produtividade e elevar as taxas de investimento e poupança da economia. Estes elementos são, naturalmente, interligados. O aumento do investimento é uma das alavancas do crescimento da produtividade, e o aumento desta, um dos ingredientes para reduzir os custos de produção e aumentar a competitividade das empresas brasileiras. A ampliação da competitividade passará a depender, daqui para frente, fundamentalmente do aumento da produtividade. No curto prazo, a retomada do investimento em novas máquinas e equipamentos ajuda a subir a produtividade; a médio prazo, o amplo leque de investimentos em infraestrutura reduzirá custos e aumentará a produtividade sistêmica. Isto tenderá a elevar a taxa de investimento da economia para níveis superiores aos dos últimos 30 anos.

Isto significa que há muitas oportunidades para o Brasil...
Sim, sem dúvida. As mudanças em curso na economia brasileira trazem um conjunto de oportunidades para o país. Primeiramente, estamos nos tornando uma economia diversificada. Um país com presença importante no mercado internacional de commodities; que tem diante de si o desafio do pré-sal; que apresenta um amplo e atrativo em infraestrutura; que possui uma base industrial pronta para dar um salto de qualidade em produtividade e inovação; que continua sua trajetória de inclusão econômica e social. Consolidamos um mercado interno de proporções significativas, que deve tornar o nosso crescimento menos volátil e mais robusto. Em segundo lugar, os desequilíbrios pré-existentes e o atraso relativo do Brasil criam oportunidades para que, com a expansão do investimento, deflagre-se um processo de crescimento da produtividade acima da média internacional. Um aumento forte da produtividade é o caminho para conciliar elevação do padrão de vida da população com competitividade externa e crescimento.

Mas para realizar estas transformações não é necessário pessoal qualificado?
Este é um ponto de vital importância. Para realizar os investimentos que o país necessita, já existe grande demanda por profissionais competentes e capacitados. É preciso pessoal que seja capaz de gerir e implementar projetos, com iniciativa e com visão estratégica do país. Por exemplo, a China, que investe ao redor de 40% do PIB ao ano e que tem crescido rapidamente nestes últimos 30 anos, forma 190 mil engenheiros por ano.

O Brasil tem engenheiros suficientes? Pode-se considerar que este é um desafio a ser enfrentado?
Hoje, temos um déficit que é avaliado em mais de 150 mil profissionais. Formamos apenas 40 mil engenheiros e temos apenas 6 engenheiros para cada mil pessoas economicamente ativas. Nos EUA e no Japão, esta proporção é de 25 engenheiros por cada mil trabalhadores. E ainda assim empresas como a Apple têm dificuldades para encontrar engenheiros com competências diversificadas, capazes de atuar nas diferentes áreas da empresa, do chão de fábrica à área administrativa. Na China, a produção da Apple precisa de quase 10 mil engenheiros para organizar os seus 200 mil trabalhadores. Seus executivos garantem que levaria meses para se encontrar pessoal deste nível de qualificação nos EUA.

Qual seria o perfil adequado para estes profissionais?
Todas as profissões passaram por transformações de grande profundidade no decorrer dos últimos anos. Isto é consequência da disseminação dos efeitos da III Revolução Industrial sobre toda a cadeia de produção e sobre todos os setores da economia. Hoje, é preciso cada vez mais de profissionais que tenham uma formação holística, que sejam capazes de inovar mas que também tenham capacidade de gerenciar e administrar projetos e pessoas. É também necessário que o profissional da área de engenharia conheça a economia do Brasil e do mundo, que seja capaz de pensar em projetos que sejam adequados para um país inserido nesta nova ordem internacional. Ou seja, as perspectivas promissoras que se apresentam ao Brasil dependem muito da formação de engenheiros qualificados, que tenham capacidade de inovar e de construir o futuro do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

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