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Desigualdade e Rentismo

Uma marca perversa do tempo em que vivemos é o rápido aumento da desigualdade. Uma importante organização internacional que combate a pobreza e a injustiça, a Oxford Committee for Famine Relief – a OXFAM, informa que metade de toda a riqueza do mundo é propriedade de 1% da população. Sem dúvida, esta é a maior desigualdade na distriubição da riqueza que já existiu na história.

O economista francês Thomas Piketty fez uma extensa pesquisa sobre a desigualdade, recolheu dados do mundo inteiro. No livro de economia mais vendido no mundo em 2014, chamado O Capital no Século XXI, ele mostra que nem sempre foi assim.

Quanto maior é a parcela da renda nacional apropriada pelos mais ricos, mais desigual é a distribuição de renda do país. Veja o gráfico.

Nele, você está vendo a porcentagem da renda detida pelos 10% mais ricos. Por exemplo: entre 1900 e 1930, nos Estados Unidos e a Europa os ricos detinham de 40 a 45% da renda total.

A partir dos anos 1930 ocorreu uma grande mudança. A renda apropriada pelos 10% mais ricos caiu para cerca 30%. Uma queda expressiva! 1/3 da renda dos mais ricos foi redistribuída para os mais pobres. Esta grande e contínua redução da desigualdade perdurou por décadas.

A partir de 1970, a situação começou a mudar. A desigualdade de renda voltou a crescer sistematicamente no mundo.

A projeção nos informa que em 2016, é provável que o 1% mais rico possua mais que todos os 99% restantes. Isto é muito grave! Piketty, corretamente, diz que desigualdades tão grandes e arbitrárias como as que vemos hoje minam a democracia e aumentam as tensões sociais. Clique no link e assista, por exemplo, o vídeo de Rick Hanauer no TED.1

Os mais ricos acumulam patrimônios extraordinários: a OXFAM afirma que o 1% mais rico do mundo tem um patrimônio 65 maior que o da metade mais pobre do mundo!

https://www.ted.com/talks/nick_hanauer_beware_fellow_plutocrats_the_pitchforks_are_coming?language=pt-br#t-24177

Como você nos explicaria estas estas mudanças tão grandes na desigualdade social neste últimos 100 anos?

Prof. ∫: No pós Segunda Guerra Mundial, na segunda metade do século passado, a tributação progressiva foi fundamental, isto é, os impostos eram proporcionalmente mais elevados para os mais ricos. Esta tributação proporcionalmente maior para os mais ricos, só foi possível porque vivíamos um período de crescimento econômico.

Vejamos algumas formas de redistribuir a renda no período. Na Europa e nos Estados Unidos, foram criadas inúmeras escolas públicas, o ensino público generalizou-se, a saúde pública mudou de patamar, tornou-se mais decente, e generalizou-se o seguro-desemprego. Foram criadas novas oportunidades de trabalho no setor público e o desenvolvimento econômico foi alavancado. Quero insistir na afirmação que só foi possível tributar mais pesadamente os mais ricos porque a riqueza como um crescia.

Mas, a partir dos anos setenta, alterou-se radicalmente o cenário: 1)ocorreu a desregulação das finanças internacionais e

2) tem início a III Revolução Industrial – do computador e das telecomunicações.

A concorrência internacional se intensificou e as empresas foram obrigadas a se reestruturar. Reduziram suas estruturas de emprego e transferiram parte importante de suas atividades para países em que a mão de obra era mais barata e os impostos era menores.

Sobre este assunto, é importante ver o vídeo do Canal FACAMP chamado Automação e Terceirização.

Como eu dizia, a natureza da globalização produtiva e financeira passou a criar grandes dificuldades para a manutenção do arranjo anterior. Os

 

Estados nacionais foram perdendo sua base de tributação e, com isso, perdendo condição para investir e puxar o crescimento econômico.

Porque, ao contrário do que se pensa vulgarmente, a história não registra nenhum momento de crescimento econômico sem a participação decisiva do Estado.

Assim fica claro como foi possível a desigualdade ter voltado a crescer tão rapidamente. É correto insistir que este aumento da desigualdade recente é muito perigoso e ameaça a estabilidade social.

Piketty diz que a democracia não pode sobreviver numa sociedade como esta, pois os valores meritocráticos são destruídos por uma desigualdade tão acintosa.

Uma das exceções neste processo de ampliação da desigualdade é o Brasil, graças aos aumentos do salário mínimo e ao crescimento da renda no século que vivemos. Por outro lado, é importante ter em conta que a nossa desigualdade de distribuição de renda é uma das maiores do mundo e estamos muito distantes dos padrões do mundo civilizado.

O Professor Waldir Quadros, no vídeo do Canal FACAMP sobre a desaceleração do crescimento econômico e suas consequências sociais nos explica bem o que ocorre no Brasil.

Para entender bem o que aconteceu recentemente no Brasil, um processo de redução das desigualdades nos primeiros anos do século XXI e depois uma inversão disto, é importante assistir os vídeos do Canal FACAMP. O aumento da desigualdade no mundo ocorre num ambiente em que o desemprego é elevado. Naturalmente, as perspectivas de futuro são muito

ruins para boa parte da população.

Este cenário é explosivo, abre espaço para os preconceitos religiosos e étnicos. E é uma ameaça para a democracia.