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É só a Petrobras?

Na semana que se encerrou o Ibovespa caiu para seu menor nível desde novembro de 2020, os juros futuros subiram de forma abrupta, revertendo uma tendência de suave queda e o câmbio voltou a se desvalorizar, fechando a semana em R$ 5,60. Prontamente os analistas se puseram a denunciar que a culpa da piora nos indicadores se devia às decisões atabalhoadas do Presidente da República na sua decisão intempestiva de substituir o presidente da Petrobras.

Certamente a decisão presidencial, da forma como foi feita, impactou o mercado financeiro, sobretudo por provocar uma desvalorização da principal blue chip brasileira e puxar para baixo as cotações acionárias, estimulando o lado maníaco do mercado, numa debandada vendedora. Mas será possível creditar todo movimento de perdas ao gesto de despreparado Presidente? Entendemos que há mais coisas por trás desse fenômeno. Já na terça-feira (23), as ações da Petrobras reagiam e ensaiavam uma subida. O que houve?

No nosso entender, todo o movimento explicita uma situação estrutural do mercado financeiro nacional: sua cada vez maior dependência dos movimentos dos investidores estrangeiros e dos humores dos mercados externos na direção dos preços dos ativos negociados nos mercados nacionais.

Na própria terça-feira os indicadores relativos à economia americana indicavam forte crescimento no 4o trimestre (4,3%). Some-se a isso a confirmação do auxílio emergencial e do pacote de estímulos que o governo americano dará à economia. A reação do mercado financeiro americano foi de ler as informações como o prenúncio de uma elevação na inflação futura. À expectativa de uma maior inflação no futuro, os investidores reagiram vendendo títulos de dívida pré-fixados (públicos e privados), pressionando para baixo seus preços e, portanto, elevando suas taxas de rendimento. Os investidores agem assim, pois entendem que a maior inflação anulará parte de seus ganhos nominais com papéis pré-fixados. Faz sentido vendê-los e buscar outra aplicação que prometa juros nominais maiores (como aquelas que estarão certamente sendo oferecidas nos mercados primários, dada a elevação dos juros promovidas pelo movimento de venda).

O mercado lê esse movimento como um sinal de crescimento da percepção geral de risco, estimulando a busca de ativos mais líquidos. O movimento de flight to quality se espalha e alcança os mercados periféricos, sempre mais voláteis e sensíveis a oscilações de humor dos investidores globais. Nos mercados periféricos mais líquidos, como é o caso do brasileiro, esse movimento se apresenta de maneira mais acentuada, e tende a se deteriorar ainda mais quando somado à percepção de riscos internos, como no caso da troca de comando da Petrobras, o que leva a uma desvalorização mais pronunciada dos ativos de maior risco.

 O resultado é o observado na semana passada no mercado nacional. A lição é que, ao que parece, a gestão da riqueza financeira e, principalmente, a gestão da política macroeconômica no Brasil se faz a reboque dos humores dos investidores estrangeiros e dos movimentos dos preços dos ativos nos mercados centrais, principalmente o norte-americano.

Esse movimento deve se aprofundar? A boa notícia é a de que provavelmente não, tendendo a se reverter assim que o mercado americano se normalizar. A má notícia é que cada vez mais a gestão dos principais preços da economia brasileira se faz a partir do movimento dos preços dos ativos nos mercados centrais. Isso é particularmente preocupante num ambiente de elevada conexão entre a decisão de gasto (consumo e investimento) e o comportamento dos preços dos ativos financeiros.  Neste contexto, as condições e o nível de endividamento, o custo dos insumos produtivos, as expectativas de demanda dos empresários e a cesta de consumo das famílias, por exemplo, são constantemente impactadas por mudanças de preços nos diversos segmentos dos mercados financeiros (commodities, câmbio, títulos, etc). Assim, a geração de fluxos derivados da decisão de produzir riqueza nova no Brasil (investimentos, pagamento de aluguéis, compra de insumos, salários e outras rendas derivadas das decisões de produzir) depende cada vez mais dos humores dos gestores da riqueza velha (estoque dos ativos) administrada nos mercados dos países centrais. Uma nova face da nossa eterna dependência.

 

Licio da Costa Raimundo

Saulo Abouchedid

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