Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Fevereiro confirma piora do mercado de trabalho no primeiro bimestre

Os resultados da PNAC de fevereiro indicam um aumento da taxa de desocupação em fevereiro de 2021 (14,4% ante a 14,2% em janeiro de 2021) o que confirma a reversão da recuperação (lenta) do mercado de trabalho, verificada ao longo do segundo semestre de 2020. A elevação da desocupação (+151 mil em relação a janeiro) supera, significativamente, o crescimento da força de trabalho (+25 mil), ratificando o cenário ruim no mercado de trabalho.  

Há uma queda (-126 mil em relação ao trimestre móvel fechado em janeiro) das ocupações em fevereiro, concentradas no setor informal[1] (-237 mil em relação ao trimestre móvel findo em janeiro, frente a um crescimento de 113 mil vagas no setor formal), o que continua mostrando grande instabilidade das ocupações sem carteira assina, mesmo essas sendo cada vez mais relevante no mercado de trabalho brasileiro. Dentre as posições informais, destaca-se a queda das ocupações no setor público (-133 mil) e dos trabalhadores “conta própria” sem CNPJ (- 55 mil). Assim, mesmo se observando um aumento dos empregos formais com carteira (Grafico 1), as ocupações formais não foram suficientes para suprir a queda dos informais. O cenário é reflexo das desigualdades estruturais que permeiam o mercado de trabalho, tais como a precarização, limitando e fragilizando a absorção de mão de obra.

Gráfico 1: criação líquida de empregos em mil pessoas (setores formal e informal), taxa de informalidade (%) e população fora da força de trabalho (%).

 

Destaca-se ainda um grande avanço da subocupação por insuficiência de horas trabalhadas no mês (+93 mil) e um aumento dos desalentados (+50 mil) no perído, o que deixa claro que além da piora na qualidade das ocupações, reforça, principalmente, um maior desperdício de mão de obra, o que contribui para o crescimento da taxa composta de subutilização da força de trabalho (Gráfico 2).  Reflete-se assim, que muitas pessoas perderam trabalho por conta da paralização das atividade (decorrente da pandemia) e/ou deixaram de procurar por conta dificuldades de se inserirem no mercado de trabalho.

Gráfico 2: taxa de desemprego, taxa composta de subutilização da força de trabalho e percentual de pessoas desalentadas (em %).

Em relação aos setores de atividade, destaca-se a recuperação do setor de alojamento e alimentação que registrou criação de 29 mil empregos em fevereiro e também do setor de transporte, armazenagem e correio (+100 vagas), ainda na esteira da recuperação do setor de serviços antes do recrudescimento da crise sanitária em março.  Os destaques negativos ficam por conta do desempenho negativo no setor de construção (-76 mil vagas), da indústria geral (-24 mil vagas), do comércio (-89 mil vagas) e serviço doméstico (-28 mil vagas). Vale ressaltar que a queda da ocupação no comércio, por exemplo, ocorre mesmo com o bom desempenho do setor no trimestre findo em fevereiro (+4,1% na margem de acordo com a PMC), sinalizando maior dificuldade do mercado de trabalho responder a alguns estímulos da atividade econômica na pandemia.

Por fim, a queda na massa de rendimentos no trimestre móvel que se encerrou em fevereiro, decorrente da pior situação do mercado de trabalho, preocupa. Isso porque o rendimento médio também cai, sinalizando uma queda não apenas das ocupações com menor remuneração – como se observou em 2020, quando o rendimento médio aumentou – mas também das ocupações com maior remuneração. Se esse cenário se confirmar, o avanço da crise em direção as faixas maiores de renda pode provocar um abalo significativo na demanda agregada e nas previsões do PIB em 2021.

Gráfico 3: massa de rendimentos (em milhões de reais) e rendimento médio (em unidade monetária) de todos os trabalhos, habitualmente recebidos – valores reais

 

Núcleo de Estudos do Mercado de Trabalho

Saulo Abouchedid

Nayara Oliveira

Juliana de Paula Filleti

 

[1] Considera-se, nesta nota, como setor informal as pessoas que trabalham sem carteira assinada, sem CNPJ ou como trabalhador familiar auxiliar. Essa metodogia difere da adotada pelo IBGE, que considera como informal as pessoas que não contribuem para a previdência.

 

Related Posts

Leave a comment

You must be logged in to post a comment.