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Inflação em 2021 e a coragem para superar o senso comum

A inflação voltou a ser uma preocupação em 2021. Tendo o IPCA-15 – circunscrito à cesta de consumo das famílias que ganham entre 1 e 40 salários mínimos – atingido 6,17% em abril e o IGP-M – com maior peso dos preços ao produtor – 32,02% em abril, ambos no acumulado em 12 meses,  aquilo que parecia esquecido na memória longínqua do brasileiro voltou a assombrar.

As principais teorias que se propuseram a entender o fenômeno inflacionário são basicamente três: a monetarista, a estruturalista e a teoria da inflação inercial.

Para os monetaristas, a inflação é sempre um fenômeno de origem monetária. O excesso de gastos públicos financiados pela emissão monetária obriga a sociedade a conviver com um nível de oferta monetária que excede suas necessidades, que são dadas pelo volume de bens e serviços transacionados nessa economia. Uma política de combate eficaz da inflação implica em um corte de excesso de gastos públicos, de modo a adequá-los às receitas fiscais e proporcionar um estado de equilíbrio que é garantido na medida em que a oferta monetária cresce a mesma taxa de crescimento do PIB.

Para os estruturalistas a inflação é tributária do poder de fixação de preços que os monopólios e seus contervailing powers (poder de compensação) (Galbraith, 1993), representados pelos sindicatos e pelas redes varejistas, atacadistas, adquirem na sociedade industrial avançada. Capazes de controlar preços, os monopólios têm a possibilidade de reagir a uma situação de desalinho de preços relativos, fixando mark-ups e reajustando preços preventivamente.

Os adeptos da teoria da inflação inercial entendem que as estratégias defensivas adotadas pelos produtores contra uma inflação baixa, mas considerada suficientemente elevada para reduzir margens, podem provocar uma espiral de aumentos sucessivos de preços, desencadeando um fenômeno inflacionário que alimenta a si próprio e que acaba, de um lado, por não garantir a segurança daqueles que buscar defender-se e, por outro, penalizar brutalmente aqueles que não têm o poder de fixar o preço da mercadoria que vende (como geralmente ocorre com a força de trabalho, por exemplo). O resultado é que o fenômeno não se extingue até que hiperinflações sejam atingidas (Arida e Resende, 1986).

O que se observou no Brasil em 2020 foi, no nosso entender, uma suspensão do status quo no que se refere às expectativas inflacionárias. Acostumados até 1994 a conviver com taxas de inflação fora do controle, os brasileiros conviveram nas últimas décadas com taxas baixas e controladas de inflação, marcada, esta última, por elevações esporádicas e muito pontuais de preços. Em 2020, tal padrão aparentemente se quebrou. As taxas de inflação crescem na proporção do número de casos de acometidos pela Covid-19.

Dois desalinhos explicam tal explosão de preços. Por um lado, uma desarticulação da demanda, reduzida em alguns itens mais sensíveis à plena circulação da população, como alimentação fora da residência, e ampliada em outros, mais afetados pela maior permanência na residência, como alimentação em domicílio ou bens como aparelhos eletrônicos, por exemplo. Observou-se que um esperado efeito combinado nulo entre os itens em queda e os itens em elevação de preço não se verificou. A resiliência à queda de preços dos bens que apresentaram um padrão de queda de consumo deve-se, muito provavelmente, ao que a teoria estruturalista apontaria como estruturas monopólicas que resistem a diminuir seus preços, fixando mark-ups e defendendo-se da queda de margens de lucro. Na ponta contrária, as altas tiveram livre curso, na medida em que foram sancionadas pela maior demanda no segundo semestre de 2020. O resultado foi uma elevação contínua do IPCA.

Do lado da oferta, os desalinhamentos concentram-se tanto nas estruturas de produção quanto nas de distribuição. Na esfera produtiva, vários setores se retraíram, reação esperada frente ao brutal choque de oferta e demanda causado pela pandemia. Em alguns setores, como, por exemplo, na produção de aço, a volta à normalidade produtiva não é imediata, por força de descontinuidades técnicas específicas do setor. Somam-se a essas, as descontinuidades observadas na ponta da distribuição, onde várias cadeias globais de fornecimento de peças, componentes e mesmo bens finais foram descontinuadas. Tal fenômeno manifestou-se com intensidade em setores-chave, como o automobilístico e o de produção de microprocessadores, por exemplo.

Tais impactos foram amplificados pelo avanço da desvalorização cambial e dos preços das commodities, que reverberaram no mercado interno brasileiro, por meio do encarecimento do custo de produção e do aumento dos preços dos alimentos e da energia. Esse contágio foi particularmente maior nos combustíveis, que possuem peso significativo no cálculo do IPCA e cujos preços são sensíveis à variação cambial e às cotações externas de petróleo e derivados.

Para 2021, duas possibilidades de trajetória inflacionária se abrem para o Brasil. Por um lado, pode-se esperar uma paulatina retomada dos níveis inflacionários vistos antes da pandemia por força de um arrefecimento da demanda (que tende a se normalizar em níveis ainda baixos) e uma lenta recomposição das estruturas de oferta, uma vez eliminados os ruídos pontuais e inesperados (como, por exemplo, a interrupção da navegação pelo Canal de Suez) e superada, ainda que parcialmente, a incerteza formada nos primeiros meses de pandemia.

Por outro lado, não se pode descartar a possibilidade de 2021 trazer de volta o componente inercial da inflação brasileira. A remarcação de preços defensiva e não organizada poderia fazer com que os índices de inflação voltassem a crescer bem acima das metas estabelecidas pela Autoridade Monetária.

O Banco Central, com seu ferramental reduzido a um conjunto de instrumentos e hipóteses herdeiras do monetarismo, conta na verdade apenas com o canal das expectativas e o canal do câmbio para tentar reverter os índices de inflação. À inocuidade dos demais canais, soma-se o fato de a taxa de câmbio no Brasil ser governada por fluxos internacionais de capitais que se movem em reação aos acontecimentos observados nos países centrais, sobretudo nos mercados norte-americanos. Refém desses movimentos autônomos, o BCB se apega a sua suposta capacidade de conduzir as expectativas de inflação via formação de um forward guidance para os agentes econômicos nacionais. Muito pouco para uma instituição que é considerada independente.

Falta às autoridades nacionais a atitude de Gallbraith para enfrentar o conventional wisdom (sabedoria do senso comum) (Galbraith, 1972) e exercer um controle de preços que impeça que as rupturas das estruturas de demanda e oferta no momento mais agudo de crise pandêmica provoquem um descontrole inflacionário. Esse controle seria exercido por meio da coordenação das dificuldades logísticas e diluição dos ajuste de preços-chave para a cesta de consumo (como os combustíveis) ao longo do tempo. Assim como Galbraith, quando à frente do órgão responsável pela supervisão das cadeias de abastecimento nos EUA durante a Segunda Guerra (Carter, 2020), o momento seria de exercer o poder de coordenação estatal que recompusesse a própria possibilidade de funcionamento do mercado. Como diz Diadorim, personagem eterno de Guimarães Rosa: “carece de se ter coragem”.

Licio da Costa Raimundo (pesquisador do Núcleo de Estudos em Monetária e Finanças)

Saulo Abouchedid (pesquisador do Núcleo de Estudos em Monetária e Finanças)

 

Referências

ARIDA, Persio; LARA-RESENDE, André. Inflação inercial e reforma monetária. Inflação zero: Brasil, Argentina, Israel. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

GALBRAITH, John Kenneth. A sociedade afluente. Expressão e Cultura, 1972.

GALBRAITH, John Kenneth. American capitalism: The concept of countervailing power. Transaction Publishers, 1993.

CARTER, Z. The Price of Piece: Money, Democracy and the life of John Maynard Keynes. Random House, 2020.

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