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ITE/FACAMP sinaliza forte recuperação do PIB no terceiro trimestre

Variação mensal novamente foi significativa dada a magnitude das medidas emergenciais. Persiste, porém, forte incerteza sobre a sustentação dessa trajetória num cenário ainda desfavorável à retomada dos investimentos

Tabela 1: ITE/FACAMP mensal (variação em %)

Comparações Agosto/2020 Setembro/2020
Mês anterior (com ajuste sazonal) 3,6 2,1
Mesmo mês 2019 2,1 5,1
Acumulado 12 meses -3,0 -2,7

                    Fonte: Elaboração NEC/FACAMP a partir dos dados da CCEE

 

Tabela 2: ITE/FACAMP trimestral (variação em %)

Comparações 2ºTRI/2020 3ºTRI/2020
Trimestre anterior (com ajuste sazonal) -8 7,3
Mesmo trimestre de 2019 -11,4 1,9
Acumulado 12 meses -3,7 -3,2

                    Fonte: Elaboração NEC/FACAMP a partir dos dados da CCEE

 

O Índice de Tendência Econômica da FACAMP (ITE/FACAMP)[1] cresceu 2,1% em setembro em relação a agosto, já descontados os efeitos sazonais (Tabela 1). O desempenho perfaz a quinta expansão marginal consecutiva, aponta uma recuperação em “V” e sinaliza uma alta expressiva do PIB no terceiro trimestre após o tombo causado pela pandemia. Em bases trimestrais (Tabela 2), o índice também anotou forte alta na comparação marginal (+7,3% em relação ao segundo trimestre, compensando parcialmente a queda de 8% vista no trimestre anterior). Ainda em bases trimestrais, também merece destaque o desempenho positivo em relação ao terceiro trimestre de 2019 (+1,9%).

A despeito da forte recuperação marginal, o desempenho no ano ainda mostra resultados negativos. Isso fica evidente no acumulado de 12 meses (Tabelas 1 e 2) e na análise do carregamento estatístico. Com efeito, supondo um crescimento marginal nulo no quarto trimestre, o ITE/FACAMP anotaria um recuo de 4,1% em 2020

A rápida recuperação da atividade econômica reflete, sabidamente, os impactos do programa de auxílio emergencial, que totalizou R$236,96 bilhões até setembro de 2020, 3,2% do PIB de 2019. Conforme esperado pelo mercado, um programa dessa dimensão produziu efeitos diretos e indiretos muito significativos sobre a renda e o emprego, reduzindo a pobreza e a miséria para níveis historicamente baixos e dinamizando especialmente as vendas do comércio – que superaram, em setembro de 2020, os níveis de 2014, conforme o IBGE.  Ademais, as melhores condições de crédito somadas à demanda reprimida das faixas mais altas de renda contribuíram para recuperação do consumo de bens duráveis, em especial veículos e imóveis.

Segundo o professor Rodrigo Sabbatini do NEC/FACAMP, “o comportamento do ITE confirma o diagnóstico de uma recuperação acelerada no terceiro trimestre. No entanto, na medida em que persiste um quadro de capacidade ociosa na indústria e grande incerteza quanto ao comportamento da demanda após a reversão dos estímulos emergenciais, é preciso ter cautela em relação à retomada do investimento produtivo, este sim o principal indicador de uma recuperação mais sustentável da economia”.

De fato, embora as medidas fiscais anticíclicas e a flexibilização da quarentena tenham provocado euforia no comércio e rápida recuperação da produção industrial no curto prazo, o cenário nebuloso da política econômica em 2021 (em especial da magnitude da redução do auxílio emergencial) e a lenta recuperação no mercado de trabalho – concentrada principalmente na criação de vagas pelo setor informal – provocam cautela na decisão de produção e na gestão dos estoques. O comportamento receoso do empresário também é justificado pelo desajuste de preços de insumos e alguns bens finais importados, que se elevaram nos últimos meses, em razão, principalmente, da desvalorização cambial e do aumento dos custos de logística, por conta da pandemia. O repasse desses efeitos para os preços dos bens finais na indústria e no comércio pode afetar a recuperação desses setores no curto e médio prazo. Ademais, ainda que a depreciação do real frente ao dólar beneficie as exportações brasileiras no médio prazo, por outro lado, a segunda onda da pandemia, registrada principalmente nos países europeus, pode arrefecer a recuperação da demanda externa.

Nesse contexto, a consolidação da retomada nos próximos trimestres dependerá não apenas de um redesenho dos programas de transferência de renda que não penalize aqueles assistidos pelo auxílio emergencial, mas também da continuidade de outras medidas anticíclicas (como por exemplo, o crédito emergencial destinado às empresas) e da recuperação do investimento produtivo, o que ainda parece distante, dada a ociosidade industrial e as incertezas no ambiente macroeconômico e internacional. “A sustentação do crescimento em 2021 exigirá também o enfrentamento das fragilidades estruturais que marcam a longa crise brasileira iniciada em 2014: o baixo nível do investimento público e privado e o reduzido dinamismo da indústria e do mercado de trabalho”, complementa a professora Juliana Filleti do NEC/FACAMP. Vale ressaltar que o ITE/FACAMP do terceiro trimestre de 2020 ainda se encontra -14% abaixo do nível mais alto da série (terceiro trimestre de 2013).

Portanto, o desempenho do investimento produtivo, a recuperação do mercado de trabalho formal, a continuidade e abrangência das medidas emergenciais adotadas pelo governo federal e por estados e municípios serão os principais termômetros dessa desejável recuperação.

 

Gráfico 1: ITE/FACAMP (jan/13 a set/20) e IBC-Br (jan/13 a ago/20) ­– média de 2014 = 100

    Fonte: Elaboração NEC/FACAMP a partir dos dados da CCEE e do Banco Central do Brasil

 

Gráfico 2: ITE/FACAMP (2013T1 a 2020T3) e PIB (2013T1 a 2020T2) ­– média de 2014 = 100

    Fonte: Elaboração NEC/FACAMP a partir dos dados da CCEE e do IBGE.

[1] O ITE/FACAMP é calculado a partir do consumo de energia tomando informações públicas disponibilizadas pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). O ITE possui um coeficiente de correlação de Pearson (r) de 0,89 ante o IBC-br do Banco Central em agosto de 2020. Em relação ao PIB, o coeficiente de correlação é de 0,87 em agosto de 2020. Para mais detalhes sobre a metodologia do ITE/FACAMP, veja https://www.facamp.com.br/ite-facamp/

 

Expediente

FACAMP é uma faculdade privada com espírito público fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Com 100% de Mestres e Doutores, seu curso de Economia recebeu 5 estrelas do Guia do Estudante.

Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP

www.facamp.com.br

nec@facamp.com.br

Pesquisadores

Adriana Marques da Cunha, Beatriz Freire Bertasso, Bento Maia, Camila Veneo, Fernanda Serralha, José Augusto Ruas, Juliana Filleti, Nathan Caixeta, Ricardo Buratini, Rodrigo Sabbatini, Saulo Abouchedid e Thiago Dallaverde

Assistentes de Pesquisa

Thais Trombetta

Jaques Gabriel Guedes Videla

Editoração e Capa

Renata Job Zani

Como citar este texto

Núcleo de Estudos de Conjuntura (NEC). ITE/FACAMP confirma forte recuperação no terceiro trimestre. Nota ITE/FACAMP, set/2020. Campinas: Editora FACAMP, novembro de 2020.

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