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Março confirma primeiro trimestre ruim e aponta dificuldades nos próximos meses para a indústria

A queda de -2,4% da indústria em março, em comparação a fevereiro de 2021, reflete os efeitos do recrudescimento da pandemia (e das restrições da quarentena) sobre a atividade econômica, confirmando um primeiro trimestre ruim para a indústria brasileira (-0,4% em relação ao quarto trimestre de 2021). Os impactos da crise sanitária em março de 2021 sobre o setor, no entanto, foram menores em comparação a março de 2020 (+10,5 ante março de 2020), mesmo diante da gravidade maior da segunda onda da pandemia em relação à primeira. Tal resultado sinaliza que as próximas ondas da crise sanitária brasileira (independentemente da gravidade e das restrições da quarentena) não repetirão o mesmo cenário do primeiro semestre de 2020.

Fonte: IBGE. Elaboração NEC/FACAMP

Os principais destaques negativos se concentram no setor de bens de consumo, como vestuário e acessórios (-14,1 em relação a fevereiro de 2021), fabricação de móveis (-9,3%) e fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias (-8,4%). O desempenho negativo desses setores envolve não somente os impactos do recrudescimento da pandemia sobre a demanda agregada, mas também as dificuldades de acesso e reposição de insumos industriais, especialmente aqueles importados. Tais quebras nas cadeias produtivas contribuíram inclusive para a paralisação da produção no setor automobilístico, por exemplo.

Dentre os destaques positivos, vale ressaltar o desempenho da indústria extrativa (5,5% em relação a fevereiro de 2021), puxada pelo crescimento dos preços das commodities, e de outros equipamentos de transporte [1] (+35%). Assim, diante das dificuldades de recuperação do mercado interno, por conta da crise sanitária e da redução expressiva das medidas emergenciais de apoio às empresas e à manutenção do emprego e da renda, a principal esperança de dinamismo para os próximos meses recai sobre o setor externo.

 

Fonte: IBGE. Elaboração NEC/FACAMP

O aumento de preço dos insumos industriais – explicado em parte pela desvalorização cambial –, a piora dramática da crise sanitária e as dificuldades logísticas em algumas cadeias comprometem a rentabilidade e as expectativas de demanda do setor. Neste contexto, a prorrogação das medidas emergenciais de combate à crise e a diminuição da pressão de preços e da escassez de insumos em setores-chave da indústria serão os termômetros para a recuperação nos próximos meses. Por fim, não devemos esquecer que a quebra de importantes elos das cadeias produtivas internas ainda representa o maior o obstáculo estrutural para a retomada sustentável da atividade industrial no país. O esvaziamento do tecido industrial, em curso desde os anos 1990, implica na perda de competitividade estrutural de importantes segmentos industriais, o que, por sua vez, dificulta ainda mais a recuperação do setor em momentos de elevada incerteza.

 

Núcleo de Estudos de Conjuntura

Saulo Abouchedid

 

[1] Segundo o CNAE o segmento de fabricação de Outros Equipamentos de Transporte exceto Veículos Automotores compreende a construção de embarcações e estruturas flutuantes, de veículos ferroviários, de aeronaves, de motocicletas, bicicletas e outros equipamentos de transporte e também a fabricação de veículos militares de combate, de cadeiras de rodas e veículos semelhantes para deficientes físicos, e de peças para os mesmos.

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