fbpx

Pandemia abre fosso entre o mercado formal e informal de trabalho

São dois os destaques das estatísticas da PNADC de maio de 2020 – a movimentação das pessoas entre as categorias demográficas e o distanciamento cada vez maior entre os segmentos formal e informal do mercado de trabalho. A crise econômica vigente explicita, de maneira dramática, as fragilidades estruturais do mercado de trabalho brasileiro, que se ampliaram com a flexibilização das leis trabalhistas e o aumento da precarização do trabalho.

Os dados demográficos continuam revelando a pouca importância da taxa de desemprego como indicador sintético das condições do mercado de trabalho brasileiro. Embora aquela taxa tenha crescido 0,6 pontos percentuais entre o trimestre que se encerra no mês de maio de 2020 e o mesmo período de 2019 (evoluindo de 12,3% para 12,9%), é o crescimento das pessoas fora da força de trabalho que revela a crise ocupacional em seu aspecto mais violento (Tabela 1). Foram aproximadamente 2,2 milhões de brasileiros a menos no mercado de trabalho entre 2014 e 2019 e 10,3 milhões entre 2019 e 2020; entre estes, aqueles que declararam deixar de procurar uma ocupação por desalento foram 3,4 milhões no primeiro intervalo e 0,5 milhão no segundo. Ou seja, dos 10,3 milhões de pessoas que saíram da força de trabalho no último ano, só 0,5 milhão se declarou minimamente conectado com o mercado de trabalho.

A desocupação, por sua vez, cresceu em 6,8 milhões de pessoas entre 2014 e 2019, mas caiu entre 2019 e 2020 (0,3 milhão de pessoas). Ou seja, a estatística de desocupação pouco diz sobre a situação laboral dos brasileiros.

Em relação à informalidade, as estatísticas de ocupação revelam o fosso entre as categorias, que se amplia no tempo. Do trimestre findo em maio de 2016 ao findo em maio de 2019, houve queda de 0,5 milhão de ocupações formais e expansão de 3 milhões de ocupações informais. No entanto, entre os trimestres findos em maio de 2019 e 2020 foram fechadas 1,3 milhões de vagas formais e 5,7 milhões de vagas informais – ou seja, da queda da ocupação registrada no último ano, 82% foi de vagas informais. Ironicamente, com esta recomposição da ocupação, o salário médio dos brasileiros ocupados cresceu 5,3% em média entre 2019 e 2020, mostrando que a queda da ocupação se deu especialmente entre as de baixa remuneração. Em conjunto, a massa de rendimentos recuou 2,5% entre 2019 e 2020 – composta de uma queda de 0,4% do segmento formal e de 8,3% do segmento informal.

Este cenário, portanto, revela que o avanço da desregulamentação do mercado de trabalho não solucionou a crise ocupacional vigente desde 2014, contrariando a opinião de muitos analistas. A flexibilização contribuiu para impulsionar a informalidade nos últimos anos e tornou a crise pandêmica especialmente cruel no país, dificultando uma potencial recuperação econômica.

 

Gráficos e Tabelas
Fonte: IBGE
Elaboração: Centro de Pesquisas Econômicas da FACAMP

Tabela 1. Demografia do mercado de trabalho brasileiro (mil pessoas). Trimestre composto pelos meses de mar-abr-mai 2014, 2019 e 2020.

Elaboração própria, com base em dados da PNAD Contínua Mensal/IBGE.

 

Tabela 2. Variação na ocupação (em 1000 pessoas), por posição na ocupação. Trimestre composto pelos meses de mar-abr-mai 2014, 2019 e 2020.

Elaboração própria, com base em dados da PNAD Contínua Mensal/IBGE.

 

Beatriz Freire Bertasso
Saulo Abouchedid

 

 

 

Expediente
FACAMP explica: PNAD-C é uma publicação mensal do Centro de Pesquisas Econômicas da FACAMP que repercute os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Mensal, do IBGE.
FACAMP é uma faculdade privada fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Com 100% de Mestres e Doutores, seu curso de Economia recebeu 5 estrelas do Guia do Estudante.

Centro de Pesquisas Econômicas da FACAMP
www.facamp.com.br
cepe@facamp.com.br

Pesquisadores
Adriana Marques da Cunha, Beatriz Freire Bertasso, Bento Maia, Fernanda Serralha, Jackeline Bertuolo, José Augusto Ruas, Juliana Filleti, Ricardo Buratini, Rodrigo Sabbatini, Saulo Abouchedid e Thiago Dallaverde, Nathan Caixeta

Assistentes de Pesquisa
Thais Trombetta
Jacques Gabriel Guedes videla