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Fevereiro sinaliza primeiro semestre ruim para a indústria e o investimento

A queda de 0,7% na indústria em fevereiro (em comparação ao mês imediatamente anterior) sinaliza um primeiro semestre difícil para o setor. Ainda que o resultado supere fevereiro de 2020 (0,4%), o recrudescimento da pandemia, o fim do auxílio emergencial e de outras medidas emergenciais dificultam a manutenção do patamar acima dos níveis pré-pandemia. Assim, o cenário pessimista, que se reforçará a partir de março, torna o crescimento acumulado no ano de 1,3% ainda mais efêmero.

Alguns setores-chave da indústria ratificam o cenário acima. O principal destaque negativo em fevereiro foi o setor de veículos automotores, reboques e carrocerias, que registrou queda de 7,2% na margem em fevereiro. De fato, a ANFAVEA apontou queda de 1,3 na produção de veículos em fevereiro. Essa queda deve se acentuar nos próximos meses com a paralisação das linhas de produção, por conta das dificuldades logísticas e de produção dos fornecedores da cadeia automotiva.

O resultado negativo da indústria extrativa (-4,7% em relação a janeiro de 2021), por sua vez, surpreende por conta do ritmo acelerado de produção nos últimos meses. O resultado sugere uma normalização da produção, que se acelerou nos últimos meses para atender a demanda aquecida no segundo semestre. No entanto, a elevação dos preços das commodities (em conjunto com o crescimento da demanda chinesa) impulsionou a receita das grandes empresas do setor, compensando a queda na quantidade produzida.

Por fim, a produção de bens de capital apresenta reversão da trajetória de recuperação verificada ao longo do segundo semestre, indicando, em parte, uma queda no investimento induzido pelas políticas anticíclicas de 2020, em especial o auxílio emergencial. De fato, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) referente às máquinas e equipamentos nacionais e à construção civil caiu 0,3% e 0,2%, respectivamente, indicando ao menos uma interrupção na recuperação dos investimentos. Dentre os segmentos do setor que registraram resultados positivos, destacam-se as máquinas agrícolas, impulsionadas pela modernização do estoque de capital no setor e pelo cenário positivo das commodities agrícolas no mercado internacional.

Assim, fevereiro sinaliza um primeiro semestre ruim da indústria e do investimento. O aumento de preço dos insumos industriais – explicado em parte pela desvalorização cambial –, a piora dramática da crise sanitária e as dificuldades logísticas em algumas cadeias comprometem a rentabilidade e as expectativas de demanda do setor. Neste contexto, a prorrogação das medidas emergenciais de combate à crise e a diminuição da pressão de preços e da escassez em setores-chave da indústria serão os termômetros para a recuperação nos próximos meses. Por fim, não devemos esquecer que a quebra de importantes elos das cadeias produtivas internas ainda representa o maior o obstáculo estrutural para a retomada sustentável da atividade industrial no país. O esvaziamento do tecido industrial, em curso desde os anos 1990, implica na perda de competitividade estrutural de importantes segmentos industriais, o que, por sua vez, dificulta ainda mais a recuperação do setor em momentos de elevada incerteza.

 

Gráficos e Tabelas

Fonte: IBGE

Elaboração: Centro de Pesquisas Econômicas da FACAMP

Brasil: Evolução da PIM-PF em %
Fevereiro 2021 em relação a Fevereiro de 2020 Fevereiro 2021 em relação a Janeiro de 2021 Variação percentual acumulada no ano (Base: igual período do ano anterior)
0,4 -0,7 1,3

 

 

 

Saulo Abouchedid

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