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Primeiro trimestre registra recorde na desocupação e reforça tendência de precarização do trabalho

O aumento da taxa de desocupação em março (14,7%) reflete os impactos negativos do recrudescimento da pandemia sobre o mercado de trabalho. Esse resultado, no entanto, apenas impulsiona a tendência de piora dos indicadores do mercado de trabalho, verificada desde janeiro de 2021. O crescimento das desocupações (+ 382 mil pessoas) é explicado pela queda nas ocupações (-249 mil) e aumento da força de trabalho (+ 133 mil), ou seja, pessoas que voltaram a procurar emprego, porém não encontraram uma ocupação. Destaca-se ainda o crescimento contínuo dos desalentados (pessoas que desistiram de procurar emprego), que atingiram o maior patamar na série histórica (5.970 milhões de pessoas).

A queda na ocupação é puxada fundamentalmente pelo setor privado com carteira assinada (-127 mil) e pelos empregados do setor público (-144 mil). O desempenho negativo é atenuado pelas ocupações “Conta Própria” (+184 mil), especialmente aquelas com CNPJ. Quando analisamos sob o prisma dos setores de atividade, os impactos do recrudescimento da pandemia sobre o mercado de trabalho são latentes: a queda nas ocupações se concentra especialmente no comércio (-124 mil) e serviços, com destaque para alojamento e alimentação (-122 mil) e outros serviços (-141 mil).

Esse cenário reforça a tendência estrutural de precarização do trabalho no país, marcada não apenas pelo nível da taxa de informalidade (que se encontra estável em torno de 42% do total de ocupados), mas pelo avanço da “pejotização” da força de trabalho, que limita o acesso dos trabalhadores aos direitos previstos na CLT. O aumento da subocupação por insuficiência de horas trabalhadas em março (+142 mil em comparação a fevereiro), que atingiu o maior nível desde setembro de 2019, também aponta para o aumento da precarização.

Por fim, em relação aos dados sobre renda, destaca-se a contínua queda da massa de rendimentos habitualmente recebida no primeiro trimestre de 2021. Essa tendência foi acompanhada pela queda do rendimento médio habitualmente recebido ao longo dos três primeiros meses do ano (com exceção de março, quando houve recuperação em relação a fevereiro). Esse movimento preocupa, pois sinaliza não apenas a queda das ocupações, mas também uma redução das ocupações com maior remuneração (que normalmente são mais estáveis), impactando, portanto, o rendimento médio.

Portanto, a piora da crise sanitária explica apenas parte do desempenho ruim do mercado de trabalho no trimestre. A interrupção do auxílio emergencial e a demora na renovação do programa de manutenção de emprego e da renda (BEM) contribuíram para o aumento da incerteza e, consequente, diminuição do emprego e da renda no período. Ademais, a ausência de política sanitária e econômica convergente, em torno do objetivo de redução das contaminações e mortes, torna o “abre e fecha” na economia ainda mais frequente, piorando a incerteza tanto por parte do empregador, quanto por parte do empregado.

Gráfico 1: Criação líquida de empregos em mil pessoas, setores formal e informal, entre julho de 2019 e março de 2021 e taxa de informalidade (%) e população fora da força de trabalho (%), entre julho de 2019 e março de 2021

Gráfico 2: Taxa de desemprego, taxa composta de subutilização da força de trabalho e percentual de pessoas desalentadas

Gráfico 3: Massa de rendimentos (em milhões de reais) e rendimento médio (em unidade monetária) de todos os trabalhos, habitualmente recebidos, entre julho de 2019 e março de 2021 – valores reais

 

Núcleo de Mercado de Trabalho

Saulo Abouchedid

Jacques Gabriel Guedes Videla

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