Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

A CRISE SOCIAL PRÉ PANDEMIA (2015-2019) – PARTE 2: HETEROGENEIDADE REGIONAL

Waldir Quadros[1]

Apresentação

Este é o segundo artigo de uma série. No primeiro, foram apresentados esclarecimentos sobre a metodologia adotada para a estratificação social e o panorama nacional.

Agora, de forma marcadamente descritiva, vamos cuidar das especificidades regionais, neste país tão desigual e heterogêneo. Inicialmente apresentamos o quadro global da desigualdade regional, a partir da situação vigente em 2019. Em seguida, apresentamos em cada região a evolução da mobilidade social ao longo do período 2015-2019. E, por fim, o comportamento da renda per capita.

  1. O quadro geral vigente em 2019

A Tabela 1 contém a composição social de cada região. A clássica comparação entre Sudeste e Nordeste, as duas regiões mais populosas, respectivamente com 42% e 27% da população nacional, já revela a dimensão da desigualdade.

De fato, enquanto no Sudeste se encontram 53% do total nacional da Alta Classe Média (ACM), 52% da Média (MdCM) e 47% da Baixa (BxCM); no Nordeste estão 55% dos Miseráveis (MIS) e 45% dos pobres da Massa Trabalhadora (MT).

O Sul e o Centro-Oeste revelam uma baixa presença relativa de Miseráveis e Pobres, sendo que na primeira delas também são expressivas as duas camadas superiores (e típicas) da classe média.

 

Tabela 1: CAMADAS SOCIAIS POR REGIÃO – % (2019)

REGIÕES ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
SUDESTE 52,9 51,6 47,4 29,4 21,1 42,2
NORDESTE 14,4 13,9 19,8 44,8 55,2 27,2
SUL 16,8 20,0 16,6 8,2 5,5 14,3
NORTE 5,1 6,0 7,6 11,8 14,4 8,6
CENTRO OESTE 10,7 8,5 8,6 5,8 3,7 7,7
BRASIL 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

     Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

A Tabela 2 apresenta a renda média das famílias em cada região e camada social. Como era de se esperar, a mais elevada encontra-se no Sudeste, seguida do Sul e Centro-Oeste. As mais baixas estão no Nordeste e Norte.

Quando examinamos a renda da Alta Classe Média, apenas a do Sudeste supera a média nacional. Já na Média Classe Média, na Baixa Classe Média e nos pobres da Massa Trabalhadora, o destaque fica com o Sul. Entre os Miseráveis destaca-se o Norte, seguido pelo Nordeste.

 

Tabela 2: RENDA MÉDIA FAMILIAR – R$* (2019)

REGIÕES ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
SUDESTE 18.053 6.114 3.098 1.533 279 5.308
NORDESTE 15.973 5.830 2.712 1.531 376 2.839
SUL 16.194 6.134 3.195 1.590 253 5.184
NORTE 15.001 5.715 2.781 1.517 401 3.133
CENTRO OESTE 16.410 6.060 3.001 1.542 259 5.148
BRASIL 17.108 6.050 3.005 1.535 348 4.419

 Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual; *A preços de Out/2019. Deflator: INPC.

 

A Tabela 3 engloba a participação das regiões e camadas sociais na renda total declarada, refletindo tanto as populações regionais (Tabela 1) como a renda média familiar (Tabela 2).

Desta forma, mais uma vez o Sudeste se destaca largamente, com 52% da Renda Total declarada pelo conjunto das famílias, 58% na Alta Classe Média, 52% na Média, 51% na Baixa, 39% na Massa Trabalhadora e 35% entre os miseráveis.

 

Tabela 3: PARTICIPAÇÃO NA RENDA FAMILIAR TOTAL – % (2019)

REGIÕES ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
SUDESTE 58,1 51,5 50,8 39,3 35,1 52,2
NORDESTE 12,5 12,9 14,6 32,1 31,6 15,5
SUL 15,8 20,9 19,7 10,6 14,1 17,5
NORTE 4,1 5,5 5,7 9,8 11,2 5,6
CENTRO OESTE 9,4 9,2 9,2 8,2 8,0 9,1
BRASIL 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

 Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

Como se observa na Tabela 4, a região Centro Oeste é aquela que apresenta maior presença relativa de Alta Classe Média, seguida pelo Sudeste e Sul. Essas três regiões também se destacam na Média Classe Média. No outro extremo, e como era de se esperar, no Nordeste e Norte encontram-se as maiores participações de Miseráveis e Pobres.

Agregando as duas camadas superiores que, na verdade são aquelas que rigorosamente podem ser chamadas de Classe Média, tem-se 36,6% da população no Sul, 34,3 % no Sudeste e 33,7% no Centro-Oeste.

No polo inferior, a soma de Miseráveis e Pobres alcança 56,5% no Nordeste e 46,6% no Norte.

O que denominamos de Baixa Classe Média são rigorosamente “Pobres Intermediários”, cujas ocupações típicas são professores(as) do nível fundamental, auxiliares de enfermagem e auxiliares de escritório. No conjunto, essas três camadas atingem as impressionantes marcas de 72% da população em termos nacionais, 86% no Nordeste e 82% no Norte.

 

Tabela 4: ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL REGIONAL – % (2019)

REGIÕES ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
SUDESTE 13,0 21,3 45,0 16,2 4,5 100,0
NORDESTE 5,5 8,9 29,2 38,3 18,2 100,0
SUL 12,2 24,4 46,7 13,3 3,5 100,0
NORTE 6,2 12,2 35,0 31,7 14,9 100,0
CENTRO OESTE 14,4 19,3 44,7 17,3 4,3 100,0
BRASIL 10,4 17,4 40,1 23,2 8,9 100,0

 Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

  1. Mobilidade social ao longo do período

 

Como observamos na Tabela 5, em termos nacionais a Alta Classe Média chega em 2019 com a mesma participação de 2014, tendo sofrido retração de 2015 a 2017. Nesses anos a Média Classe Média expande com esta queda de membros da Alta e, em 2019, os dados sugerem uma certa ascensão na Baixa Classe Média. A camada de Miseráveis cresce continuamente.

 

Tabela 5: BRASIL- MOBILIDADE SOCIAL – % (2014-2019)

ANOS ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
2019 10,4 17,4 40,1 23,2 8,9 100,0
2018 10,0 16,9 40,1 24,1 9,0 100,0
2017 9,2 16,6 40,9 24,4 8,9 100,0
2016 9,3 15,7 40,9 25,8 8,3 100,0
2015 9,9 16,1 44,0 23,4 6,7 100,0
2014 10,4 15,3 45,2 23,0 6,1 100,0

Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual.

 

As tabelas 6 a 10 apresentam os desempenhos regionais que, de um modo geral, acompanham a performance nacional.

Sem entrar em cansativos detalhes, observa-se em termos panorâmicos que os piores anos foram 2016 e 2017, com recuperação em 2018 e 2019. Que será profundamente impactada pela retração provocada pela pandemia.

 

Tabela 6: CENTRO OESTE – MOBILIDADE SOCIAL – % (2014-2019)

ANOS ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
2019 14,4 19,3 44,7 17,3 4,3 100,0
2018 13,4 20,5 43,4 18,2 4,4 100,0
2017 12,8 18,5 45,4 18,8 4,5 100,0
2016 11,7 18,0 45,5 21,3 3,6 100,0
2015 13,3 17,6 48,3 17,9 2,9 100,0
2014 14,1 17,7 49,1 16,5 2,6 100,0

 Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

Tabela 7: SUDESTE – MOBILIDADE SOCIAL – % (2014-2019)

ANOS ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
2019 13,0 21,3 45,0 16,2 4,5 100,0
2018 12,6 20,3 45,0 17,5 4,6 100,0
2017 11,3 20,5 46,1 17,6 4,6 100,0
2016 12,2 19,2 45,9 18,5 4,1 100,0
2015 12,2 19,6 49,4 15,8 3,0 100,0
2014 13,3 18,4 50,5 15,0 2,8 100,0

Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

Tabela 8: SUL – MOBILIDADE SOCIAL – % (2014-2019)

ANOS ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
2019 12,2 24,4 46,7 13,3 3,5 100,0
2018 11,9 22,4 46,9 15,1 3,8 100,0
2017 11,7 22,8 47,9 14,1 3,7 100,0
2016 10,9 21,4 48,9 15,7 3,2 100,0
2015 12,3 22,3 49,6 13,4 2,5 100,0
2014 12,4 21,1 51,5 12,8 2,2 100,0

  Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

Tabela 9: NORTE – MOBILIDADE SOCIAL – % (2014-2019)

ANOS ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
2019 6,2 12,2 35,0 31,7 14,9 100,0
2018 7,0 11,8 35,2 31,6 14,4 100,0
2017 5,3 11,6 37,3 32,1 13,8 100,0
2016 5,3 11,4 35,7 34,0 13,7 100,0
2015 6,5 11,8 39,7 31,6 10,5 100,0
2014 6,5 12,2 41,5 31,1 8,7 100,0

 Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

Tabela 10: NORDESTE – MOBILIDADE SOCIAL – % (2014-2019)

ANOS ACM MdCM BxCM MT MIS. TOTAL
2019 5,5 8,9 29,2 38,3 18,2 100,0
2018 5,0 9,2 29,5 38,2 18,2 100,0
2017 4,8 8,3 29,3 39,6 18,1 100,0
2016 4,6 8,0 29,4 41,1 17,0 100,0
2015 5,1 8,3 32,9 39,2 14,5 100,0
2014 5,3 7,8 33,9 39,9 13,2 100,0

Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual

 

  1. A evolução da renda per capita

 

A movimentação das pessoas e famílias, ascendendo ou descendendo na estrutura social, é acompanhada da movimentação de seus rendimentos.

Assim sendo, estes dois movimentos se refletem na evolução da renda per capita familiar, tal como se apresenta na Tabela 11.

 

Tabela 11: EVOLUÇÃO DA RENDA PER CAPITA

REGIÕES Variação % 2019/14 Renda per capita* % 2019/2014
Renda total População 2014 2019
SUDESTE 2,09 4,02 1.285 1.262 -1,9
NORDESTE -2,59 2,83 614 582 -5,3
SUL 3,96 3,99 1.251 1.251 – 0 –      
NORTE -0,29 7,02 706 658 -6,8
CENTRO OESTE 1,21 7,10 1.276 1.206 -5,5
BRASIL 1,44 4,17 1.046 1.019 -2,6

Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual; *Renda familiar total dividida pela população, a preços de Out/2019. Deflator: INPC.

 

Em termos nacionais, a renda total cresceu 1,44% entre 2014 e 2019, bem abaixo da expansão da população em 4,17%. Desta forma, a renda per capita caiu 2,6 %, passando de R$ 1.046 para R$ 1.019.

Este comportamento da renda per capita se reproduz nas regiões, à exceção da região Sul, em que ela fica constante, com a maior expansão regional da renda total. A maior retração ocorre no Norte, com queda na renda total e aumento expressivo da população. A mesma situação se verifica no Nordeste, porém com a mais baixa taxa de crescimento populacional. No Centro Oeste a renda cresce um pouco abaixo da renda nacional, porém com a maior expansão populacional, decorrente da forte atração exercida por seu dinamismo. Por fim, o Sudeste fica com a menor queda na renda per capita.

 

[1] Professor Doutor da FACAMP e Professor Associado aposentado do IE/UNICAMP onde é pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho – CESIT. Nossos agradecimentos iniciais aos colegas Dr. Alexandre Gori Maia, Professor do IE/UNICAMP e Dra. Maria Alice Pestana de Aguiar Remy, pesquisadora do CESIT – IE/UNICAMP, que sempre processam os micro dados do IBGE. Sem suas colaborações seria impossível realizar minhas pesquisas. À FACAMP pelo rico e estimulante ambiente intelectual.

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