Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Boletim mulheres no mercado de trabalho – 4º trimestre de 2020

Introdução

Este boletim tem por objetivo analisar os resultados do mercado de trabalho do 4º trimestre de 2020. Nesse período, a economia brasileira apresentou um crescimento de 3,2% em relação ao trimestre anterior. No acumulado do ano, esse resultado não foi suficiente para evitar um recuo do PIB de 4,1% em relação a 2019[1].  Tal desempenho pode ser atribuído às condições críticas enfrentadas pela sociedade brasileira em função de políticas econômicas e sanitárias cujas ações se mostraram insuficientes para conter a grandeza da recessão observada e para o controle efetivo da pandemia do coronavírus.

Em relação ao PIB de 2019, os setores de serviços e da indústria foram fortemente afetados (redução de 4,5% e 3,5%, respectivamente), e, do lado da demanda, destacam-se a contração do consumo das famílias (-5,5%) e do consumo do governo (-4,7%). Os setores mais afetados ajudam a entender o fato de o mercado de trabalho permanecer desaquecido, de modo que muitas pessoas ainda encontram dificuldade de retomar seus postos de trabalho.

Com relação ao contexto da crise sanitária no 4º trimestre, a despeito de não ter havido redução das contaminações, o período foi marcado pelo baixo isolamento social, com a flexibilização das medidas sanitárias. As escolas públicas, as creches e outras instituições de ensino, no entanto, permaneceram fechadas. Deve-se destacar também que, nesse período, o auxílio emergencial já havia sido reduzido pela metade do seu valor, o que levou ao aumento da circulação de pessoas em busca de trabalho. Homens e mulheres, embora estivessem inseridos no mesmo cenário econômico-sanitário, apresentaram movimentos distintos que, neste boletim, serão analisados.

 

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Metodologia

O Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho (MMT) tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com foco na inserção da mulher.

Desde 2012, com a publicação da PNAD Contínua, o IBGE reformulou as estatísticas disponíveis para o mercado de trabalho, ampliando-as, tanto em termos de sua abrangência geográfica como em relação ao escopo de suas categorias.

Para os propósitos deste boletim – analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho –, algumas novas categorias são particularmente relevantes: a subocupação da força de trabalho e a força de trabalho potencial (FTP). Esses dois subconjuntos capturam a precariedade do mercado de trabalho e a vulnerabilidade das pessoas que se encontram dentro ou fora dele – no primeiro caso, elas estão ocupadas, mas de forma precária; no segundo, elas se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo – por desalento ou por indisponibilidade. Outra categoria importante para a análise é a da subutilização da força de trabalho ampliada, composta pela subocupação e a FTP, e também pela desocupação. Essa é uma categoria que permite identificar todos os trabalhadores que não estão total ou plenamente ocupados no mercado de trabalho, revelando também as formas ocultas de desocupação.  

Na perspectiva do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP (NPEGen), embora se evidenciem a ocupação e a desocupação, é muito importante construir de forma apropriada a análise da situação de milhões de mulheres ocultas das categorias tradicionais e comumente divulgadas pela maior parte dos estudos sobre mercado de trabalho, logo, é fundamental lançar um olhar mais atento a essas categorias novas, ainda que isso implique maior complexidade para a sua leitura e interpretação.

Para desenvolver essa análise, seguem-se três seções nas quais são apresentados os dados do 4º trimestre de 2020, relativos às características da população na força de trabalho brasileira (ocupação e desocupação), bem como às do contingente que está fora da força de trabalho (FTP e fora da força de trabalho potencial). Na seção 4, o foco são os dados dos indicadores de rendimentos, com diferentes recortes – por cor ou raça, cargo e nível de instrução –, ainda dentro da análise comparativa entre os sexos.

1.   Composição e variação (%) da população em idade ativa (PIA) e de suas categorias

Esta seção é composta por 4 itens. No primeiro, é apresentado o número de pessoas, nas categorias da PIA no trimestre analisado, sendo considerada a participação de mulheres e homens nessas categorias, comparação essa que segue ao longo dos demais itens. No segundo item, exibem-se as variações percentuais do trimestre analisado em relação ao trimestre anterior e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior das categorias da PIA. A composição da força de trabalho potencial é apresentada no item 3. No último item, estão discriminados os motivos alegados pelas pessoas para não estarem na força de trabalho brasileira no 4º trimestre de 2020.

1.1.                      Composição da população em idade ativa no 4º trimestre de 2020

A composição da população em idade ativa (PIA) – população com 14 anos ou mais de idade – é exibida no gráfico 1. Há duas subdivisões da PIA: a população na força de trabalho (FT) – pessoas que estavam ocupadas[2] ou desocupadas[3] no período de referência da pesquisa – e a população fora da força de trabalho (FFT) – pessoas que não estavam ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. As pessoas que estão fora da força de trabalho estão subdivididas em outras duas categorias: as pessoas na força de trabalho potencial (FTP) e as pessoas fora da força de trabalho potencial (fora da FTP).

Embora as mulheres tenham sido a maioria na PIA (53,2%), nota-se uma menor representatividade delas na força de trabalho (44,8%) e na população ocupada (43,5%) do que a dos homens (55,2% na FT e 56,5% na população ocupada). Além disso, mesmo não tendo sido a maioria das pessoas na força de trabalho, as mulheres representaram 52,9% da população desocupada no trimestre analisado.

As mulheres foram, também, maioria entre as pessoas fora da força de trabalho (64,2%). Quando observados os dados da força de trabalho potencial (FTP) – parte da população fora da força de trabalho que não estava ocupada nem desocupada na semana de referência, mas com potencial para se tornar força de trabalho (pessoas indisponíveis e pessoas em desalento)[4] – nota-se que as mulheres continuaram sendo a ampla maioria (60,4% da FTP, 65,4% das pessoas indisponíveis e 55,7% das pessoas em desalento).

Gráfico 1: Composição da população em idade ativa (PIA) – Totais para o Brasil (em mil pessoas) e taxa participação para mulheres e homens (%) no 4º trimestre de 2020

 

Nas categorias que revelam sua inserção precária no mercado de trabalho, as mulheres representaram a maioria em todas elas: pessoas subocupadas[5] (54,5%) e na subutilização da força de trabalho ampliada (55,9%) – resultado consolidado das pessoas subocupadas, desocupadas e na força de trabalho potencial.

1.2.                      Taxa de variação (%) da composição da população em idade ativa (PIA)

Seguindo a tendência apresentada no 3º trimestre de 2020[6], algumas pessoas conseguiram retornar ao mercado de trabalho no 4º trimestre de 2020. Porém, essa retomada ainda foi pequena quando considerada a quantidade de pessoas que havia deixado a força de trabalho nos dois primeiros trimestres de 2020. Mesmo com o aumento de pessoas na força de trabalho ocorrido nos 3º e 4º trimestres (de 418 mil e 3,5 milhões, respectivamente), ao final do ano de 2020, 100 milhões de pessoas compunham força de trabalho brasileira, ainda 5 milhões a menos do que havia no fim de 2019.

4º trimestre de 2020 versus 3º trimestre de 2020

Na comparação do 4º trimestre de 2020 com o trimestre imediatamente anterior (tabela 1),  observou-se um aumento da força de trabalho de 5,1% para as mulheres e 2,5% para os homens (+2,2 milhões de mulheres e +1,4 milhões de homens), indicando uma retomada mais forte do que a apresentada no trimestre anterior, sobretudo para as mulheres, grupo que registrou incremento de apenas 37 mil no 3º trimestre.

Da variação apresentada para as mulheres na força de trabalho, nota-se que 2,0 milhões estavam ocupadas (+5,6%) – sendo 390 mil delas subocupadas (+11,8%) – e 195 mil desocupadas (+2,7%). Ou seja, nem todas as mulheres que retornaram ao mercado de trabalho conseguiram recuperar seus antigos cargos ou conquistar novas posições, e parte delas assumiu apenas uma subocupação e ainda se mantém à procura de vagas, junto com as demais mulheres em situação de desocupação. O número de homens ocupados também se elevou no período (crescimento de 1,7 milhão de homens, representando +3,7%) – com aumento de 190 mil subocupados (+6,5%) e  o número de homens desocupados se reduziu (-360 mil homens desocupados, -5,2%). Então, dois movimentos se destacaram na diferenciação entre mulheres e homens: o efeito das subocupações foi maior para elas do que foi para os homens; e, enquanto houve redução do número de homens desocupados, as mulheres aumentaram a sua presença nessa categoria.

Essa leve retomada do mercado de trabalho teve um impacto na redução do número de pessoas fora da força de trabalho, 1,5 milhão a menos de mulheres (-3,0%) e 790 mil a menos de homens (-2,8%)[7]. Dentro dessa categoria, e considerando as mulheres, a redução da força de trabalho potencial e das pessoas fora da força de trabalho potencial foi de, respectivamente, 760 mil e de 759 mil mulheres.  Considerando as variações em termos percentuais, a FTP apresentou uma maior queda (-10,0%) do que a fora dessa categoria (-1,8%). Para os homens a redução foi de 800 mil na FTP (-15,2%) e aumento de 12 mil fora da FTP (+0,1%).

Dois fatores contribuíram para explicar a redução das pessoas estavam fora da força de trabalho: a flexibilização das regras de isolamento social e a redução do auxílio emergencial. Conforme destacado na introdução, a partir de setembro, último mês do 3º trimestre de 2020, o valor das parcelas do benefício caiu pela metade. Isso, certamente, fez com que algumas pessoas decidissem voltar para o mercado de trabalho, procurando por uma ocupação, mesmo sem necessariamente conseguir reencontrar.

Conforme já observado anteriormente, a FTP é composta pelas pessoas indisponíveis e desalentadas. Notou-se uma redução de 800 mil mulheres na indisponibilidade (-18,1%) e um aumento de 37 mil mulheres no desalento (+1,2%). Enquanto, para os homens, houve redução tanto na categoria de indisponíveis (queda de 685 mil, -15,2%) quanto na de desalento (-115 mil, -4,3%).

Por último, também é possível observar, uma redução, pela primeira vez no ano, do número de pessoas subutilizadas (categoria composta pela população subocupada, desocupada e pela força de trabalho potencial). Para as mulheres o recuo da subutilização foi bastante leve, de -1,0% (175 mil mulheres a menos). Afinal, a diminuição das mulheres na FTP acabou sendo praticamente compensada pelo aumento da desocupação e da subocupação delas. A contração da subutilização foi mais forte no caso dos homens (972 mil homens a menos, -6,4%), pois, à redução da FTP ainda se somou a dos desocupados.

 

Tabela 1: População em idade ativa, segundo sua composição, para Brasil, mulheres e homens – no 4º trimestre de 2020 (em mil pessoas), taxas de variação (%) 4º trimestre 2020 versus 3º trimestre 2020 e versus 4º trimestre de 2019

4º trim. 2020

(em mil pessoas)

4º trim. 2020 versus

3º trim. 2020 (%)

4º trim. 2020 versus

4º trim. 2019 (%)

M H M H M H
População em idade ativa (A + B) 93.800 82.562 0,7 0,7 4,0 1,5
  A. Força de trabalho (A.1 + A.2) 44.853 55.251 5,1 2,5 -6,4 -5,2
    A.1 Pessoas ocupadas 37.483 48.696 5,6 3,7 -10,0 -7,9
      A.1.1 Pessoas subocupadas 3.698 3.092 11,8 6,5 0,9 -1,1
    A.2 Pessoas desocupadas 7.370 6.555 2,7 -5,2 17,8 21,9
  B. Fora da força de trabalho (B.1 + B.2) 48.947 27.311 -3,0 -2,8 15,7 18,2
    B.1 Força de trabalho potencial (B.1.1 + B.1.2) 6.840 4.476 -10,0 -15,2 47,7 44,2
      B.1.1 Indisponíveis 3.616 1.911 -18,1 -26,4 74,1 84,1
      B.1.2 Desalentados 3.224 2.564 1,2 -4,3 26,3 24,1
   B.2 Fora da força de trabalho potencial 42.107 22.835 -1,8 0,1 11,7 14,2
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 51.693 59.727 2,8 1,0 -1,6 -2,7
Subutilização da força de trabalho ampliada

(A.1.1 + A.2 + B.1)

17.908 14.123 -1,0 -6,4 23,1 21,7

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

4º trimestre de 2020 versus 4º trimestre de 2019

A análise se altera quando a comparação é feita com o 4º trimestre de 2019 (tabela 1), ou seja, quando é considerado o período de pré-crise sanitária. A comparação com o ano anterior revela que os efeitos da pandemia ainda estavam presentes no 4º trimestre de 2020, e que ainda há um longo caminho para a retomada completa do nível de emprego observado antes da paralisação das atividades econômicas ocorrida a partir de meados de março de 2020.

A despeito de um crescimento da população em idade ativa, notou-se uma redução na força de trabalho, de 3,1 milhões de mulheres (-6,4%) e de 3,0 milhões de homens (-5,2%), no período considerado. Ao examinar as categorias que compõem a força de trabalho, notou-se que essa grande redução se deveu à diminuição das ocupações, de 4,2 milhões para as mulheres (-10%) e a mesma quantidade para os homens (-7,9%), observando-se, portanto, diferenças nas variações relativas.

A redução na força de trabalho em um ano só não foi maior porque muitas pessoas continuaram a procurar por emprego e aumentaram as fileiras dos desocupados. O número de mulheres desocupadas aumentou 1,1 milhão (+17,8%) e o de homens 1,2 milhão (+21,9%). As mulheres ainda apresentaram um aumento do número de subocupadas – aumento de 31 mil (+0,9%) –, enquanto os homens reduziram sua subocupação – queda de 33 mil (-1,1%).

Só considerando as 8,4 milhões de pessoas que perderam suas ocupações no ano de 2020, já se nota a quantidade de postos de trabalho que teriam que ser criados para retomar o nível do final de 2019, que já era crítico. Afinal, vale lembrar que, nesse ano, o país vivenciava os efeitos de uma prolongada e profunda crise econômica, desde 2015, e, portanto, com um mercado de trabalho já incapaz de absorver toda a oferta de trabalho existente. O fato de o nível das ocupações do 4º trimestre de 2020 estar em um patamar tão inferior ao do ano anterior indica a gravidade da crise da pandemia e é, portanto, muito preocupante.

Considerando as pessoas fora da força de trabalho, a variação com relação ao 4º trimestre de 2019 cresceu em todas as categorias. Ao todo, foram 6,6 milhões de mulheres a mais (+15,7%) e um aumento de 4,2 milhões de homens (+18,2%) nas pessoas fora da força de trabalho. Esse aumento foi dividido entre as duas categorias da população fora da força de trabalho: 2,2 milhões para mulheres na FTP (+47,7%) e 4,4 milhões para fora da FTP (+11,7%); 1,4 milhão de homens na FTP (+44,2%) e 2,8 milhões para fora da FTP (+14,2%).

Assim como apresentado nos trimestres anteriores, a crise sanitária impediu o acesso de uma parte da população ao mercado de trabalho. Muitos foram afastados de seus postos de trabalho, ou por eles não existirem mais ou porque precisaram ficar em casa para cuidar dos seus filhos, agora sem creche ou escolas, ou de seus idosos, mais vulneráveis ao vírus. Isso poderá ser percebido pela análise das categorias da FTP, principalmente para o caso da indisponibilidade.

A indisponibilidade apresentou um forte crescimento no período considerado e, mesmo com a redução do número de pessoas indisponíveis frente ao 3º trimestre de 2020, ainda se notou 1,5 milhão de mulheres (+74,1%) e 900 mil homens (+84,1%) a mais na indisponibilidade quando comparado com o 4º trimestre de 2019. No total da categoria do 4º trimestre de 2020, são 3,6 milhões de mulheres indisponíveis, afinal, com as escolas ainda fechadas e com redes de apoio comprometidas, muitas mulheres não conseguiram sair da indisponibilidade.

Observou-se também um aumento das pessoas desalentadas entre o 4º trimestre de 2019 e o 4º trimestre de 2020. Foram 670 mil mulheres (+26,3%) e 497 mil homens (+24,1%) a mais em desalento. Essas pessoas acabaram desistindo de procurar emprego em meio à pandemia, mas elas gostariam de estar trabalhando.

Por fim, a subutilização da força de trabalho ampliada também cresceu no ano de 2020, 3,4 milhões para as mulheres (+23,1%) e 2,5 milhões para os homens (+21,7%). Afinal, no caso das mulheres, todas as categorias de subutilização (subocupação, desocupação e força de trabalho potencial) apresentaram aumento.

 

1.3.                      Força de trabalho potencial: desalento e indisponibilidade

Desde o início da crise sanitária, observou-se um aumento das categorias de indisponibilidade e desalento, ou seja, da força de trabalho potencial. Isso significa que aumentou o número de pessoas com potencial para trabalhar, pois desejam e precisam encontrar um posto de trabalho, mas sem conseguirem compor a força de trabalho. Os próximos três gráficos evidenciam que a recuperação do mercado de trabalho ainda se mostrou lenta e insuficiente no 4º trimestre de 2020.

Gráfico 2: Percentual de pessoas da força de trabalho potencial na população fora da força de trabalho para o Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2020 e 4º trimestre de 2020 (em %)

O gráfico 2 apresenta o percentual de pessoas da força de trabalho potencial na população fora da força de trabalho para o Brasil, mulheres e homens. É possível notar que houve, de fato, uma redução da participação da FTP no 4º trimestre de 2020 quando comparado com o 3º trimestre de 2020 nas três categorias analisadas (Brasil 14,8% versus 16,4%, mulheres 14,0% versus 15,1% e homens 16,4% versus 18,8%, respectivamente), mas, com percentuais superiores aos do 4º trimestre de 2019 (Brasil 3,0 pontos percentuais de aumento, mulheres +3,1 p.p. e homens +3,0 p.p.).

Os próximos gráficos, 3 e 4, têm a função de apresentar a participação do desalento e da indisponibilidade na composição da força de trabalho potencial, para o Brasil, mulheres e homens. Os gráficos, em conjunto, mostram com clareza que a indisponibilidade não representava a maioria das pessoas na força de trabalho potencial no 4º trimestre de 2019. No Brasil, no 4º trimestre de 2019, 40,3% da FTP era de pessoas indisponíveis e 59,7% de desalentados. No 3º trimestre de 2020 a situação se inverteu e os indisponíveis passaram a ser a maioria (54,4%) das pessoas na FTP, enquanto os desalentados representavam 45,6%. Finalmente, no 4º trimestre de 2020 as duas categorias ficaram praticamente equilibradas (48,4% de indisponíveis e 51,2% desalentados). No entanto, a comparação desse quadro entre homens e mulheres é bastante distinta.

Gráfico 3: Percentual de pessoas desalentadas na força de trabalho potencial para o Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2020 e 4º trimestre de 2020 (em %)

Gráfico 4: Percentual de pessoas indisponíveis na força de trabalho potencial para o Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2020 e 4º trimestre de 2020 (em %)

Para as mulheres, o aumento da indisponibilidade passou a corresponder a maior parte da FTP e essa situação não se alterou nem no 4º trimestre de 2020, ao contrário do que aconteceu com o conjunto das pessoas e com os homens. É possível notar uma queda da participação da indisponibilidade das mulheres na FTP no 4º trimestre de 2020 com relação ao 3º trimestre do mesmo ano (de 58,1% para 52,9%, respectivamente), com um aumento equivalente da participação das mulheres desalentadas (de 41,9% para 47,1%, respectivamente). Porém, em comparação ao 4º trimestre de 2019, a participação das indisponíveis aumentou – de 44,9% para 52,9% – e se manteve representando a maior parte das pessoas na FTP (as mulheres desalentadas passaram de 55,1% para 47,1%).

No caso dos homens, o desalento sempre representou a maior parte da população na força de trabalho potencial – 66,6% no 4º trimestre de 2019, 50,8% no 3º trimestre de 2019 e 57,3% no 4º trimestre de 2020. Porém, mesmo para eles, foi possível notar um aumento da participação da indisponibilidade, que partiu de 33,4% no 4º trimestre de 2019 e passou para 49,2% no 3º trimestre de 2020 e 42,7% no 4º trimestre de 2020.

1.4.                      Motivos para não estar na força de trabalho

O gráfico 5 apresenta os motivos declarados pelos entrevistados para estarem fora da força de trabalho no 4º trimestre de 2020. As respostas dos homens e das mulheres diferem de forma significativa.

Gráfico 5: Motivos para não estar na força de trabalho, para o Brasil, mulheres e homens – no 4º trimestre de 2020 (em %)

Para as mulheres, o principal motivo para estar fora do mercado de trabalho alegado foi o cuidado com os afazeres domésticos (26,4%), seguido por ser muito idosa ou muito jovem (23,4%), outro motivo (16,0%), problemas de saúde e gravidez (13,6%), estudar (11,8%) e, finalmente, por não querer trabalhar (8,8%). Apesar de cuidar dos afazeres domésticos sempre figurar como principal motivo para as mulheres não estarem no mercado de trabalho, certamente, a crise sanitária agravou essa situação. Com as escolas fechadas e os filhos em casa, ao que se somou a desestruturação da rede de apoio das mulheres – por exemplo, os cuidados com a saúde impediram avós de auxiliar nos cuidados com as crianças –, ficou ainda mais difícil para as mulheres acessarem o mercado de trabalho.

No caso dos homens, o principal motivo alegado para não estar no mercado de trabalho foi o de  ser considerado muito idoso ou muito jovem para trabalhar (27,8%), seguido por outro motivo (22,2%), problemas de saúde (18,7%), estudar (18,7%), não querer trabalhar (10,7%) e, apenas em último lugar, cuidar dos afazeres domésticos (1,9%). Mesmo diante do cenário de crise sanitária, que impôs a restrição de circulação e o fechamento de escolas, e implicou o desmantelamento da rede de apoio para o cuidado com as crianças, os homens não declararam que estavam afastados do mercado para cuidar dos afazeres domésticos.

2.   Taxas (%) de desocupação, subocupação e de subutilização da força de trabalho

Após analisar as categorias que compõem a PIA, são apresentados os dados relativos aos movimentos ocorridos no mercado de trabalho, a partir da análise das taxas de desocupação, subocupação e subutilização, apresentadas nos gráficos 6, 7 e 8. A importância da análise das taxas está na relativização com o total de cada um dos grupos analisados, Brasil, mulheres e homens.

Pode-se observar uma redução das taxas de desocupação (número de pessoas desocupadas em relação às pessoas na força de trabalho) para o Brasil, as mulheres e os homens, apresentadas no gráfico 6, no 4º trimestre de 2020 com relação ao 3º trimestre de 2020:  Brasil passou de 14,6% para 13,9%; para as mulheres, houve quase nenhuma redução, de 16,8% para 16,4%; e, para os homens, ocorreu uma redução de quase um ponto percentual, de 12,8% para 11,9%. Conforme apresentado anteriormente, essa redução da taxa de desocupação se deveu, em grande medida, ao aumento da força de trabalho de todos esses grupos.

Gráfico 6: Taxa (%) de desocupação para o Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2020 e 4º trimestre de 2020

Nota-se também que, como sempre, a taxa de desocupação das mulheres foi superior à dos homens. Além disso, sua redução foi menor que a dos homens entre os dois trimestres: o número de mulheres desocupadas aumentou no 4º trimestre de 2020 e, ainda que tenha aumentado em proporção menor ao aumento da força de trabalho, atingiu o maior número de mulheres desocupadas desde o início das medições da PNAD Contínua trimestral. Na comparação com o último trimestre de 2019, porém, as taxas de desocupação permaneceram muito elevadas. O ano de 2020 representou uma mudança de patamar para as taxas de desocupação (Brasil +2,9 pontos percentuais, mulheres +3,3 p.p. e homens +2,7 p.p.).

Gráfico 7: Taxa (%) de subocupação para o Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2020 e 4º trimestre de 2020

As taxas de subocupação do Brasil, das mulheres e dos homens – representadas pelo número de pessoas subocupadas em relação às pessoas ocupadas – estão no gráfico 7. Foi possível observar, para os três níveis de análise, o aumento da taxa de subocupação no 4º trimestre de 2020. Para o Brasil, observou-se uma taxa de 7,9% no 4º trimestre de 2020, frente a uma taxa de 7,5% no 3º trimestre de 2020 e 7,2% no 4º trimestre de 2019.

O comportamento da taxa desagregada por sexo seguiu o mesmo padrão do Brasil, mas com um pouco mais de intensidade para as mulheres. No caso delas, a taxa de subocupação foi de 9,9% no 4º trimestre de 2020, contra 9,3% no 3º trimestre de 2020 e 8,8% no 4º trimestre de 2019. No caso dos homens, a taxa foi de 6,4% no 4º trimestre de 2020, 6,2% no 3º trimestre de 2020 e 5,9% no 4º trimestre de 2019. Portanto, enquanto a taxa das mulheres apresentou um aumento de 1,1 ponto percentual em um ano, a dos homens subiu apenas 0,5 p. p.

A taxa de subocupação é um importante indicador da precariedade do mercado de trabalho, pois evidencia as pessoas que conseguiram trabalhar por um período na semana de referência, mas não conseguiram ocupar 40 horas semanais e, assim, trabalharam menos do que gostariam.

Por fim, as taxas de subutilização da força de trabalho ampliada (gráfico 8) – representadas pela razão entre a subutilização do trabalho (composta pela subocupação, desocupação e força de trabalho potencial) e a força de trabalho ampliada[8] – evidenciaram a dificuldade de retorno ao mercado de trabalho. A despeito do aumento das pessoas ocupadas e da força de trabalho, ainda se observou uma grande parte dos trabalhadores subutilizados.

Gráfico 8: Taxa (%) de subutilização para o Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2019, 3º trimestre de 2020 e 4º trimestre de 2020

Para o Brasil, a taxa de subutilização da força de trabalho ampliada foi de 28,7% no 4º trimestre de 2020, 1,6 ponto percentual a menos que o trimestre imediatamente anterior, mas 5,7 p. p. acima do mesmo trimestre de 2019.

No caso das mulheres, essa taxa sempre foi superior à dos homens. No 3º trimestre de 2020, ela bateu recorde da série histórica (36%) e, no 4º trimestre de 2020, ainda permaneceu muito acima da média desde o início da PNAD Contínua (a taxa das mulheres foi de 34,6% sendo que a média histórica foi 23,9%). Quando comparada com o 4º trimestre de 2019, nota-se que a taxa no 4º trimestre de 2020 foi 6,9 pontos percentuais superior. Já a taxa de subutilização dos homens, mesmo estando em um patamar inferior ao das mulheres, também apresentou uma mudança da escala. No 4º trimestre de 2020, a taxa foi de 23,6%, 1,9 ponto percentual abaixo do 3º trimestre de 2020, mas 4,7 pontos percentuais acima do 4º trimestre de 2019.

3.   Posição na ocupação das pessoas ocupadas

Neste item, é apresentada a análise das posições na ocupação das pessoas ocupadas. A finalidade é entender melhor os impactos sobre as posições que as pessoas ocupam no mercado de trabalho, sejam elas empregadas, empregadoras, trabalhadoras por conta própria ou no trabalho familiar auxiliar.

Tabela 2: Pessoas ocupadas, segundo a posição na ocupação, para Brasil, mulheres e homens – Totais (em mil pessoas) e taxa de participação (%) no 4º trimestre de 2020

4º trimestre 2020 Participação (%)
Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 29.885 12.123 17.761 34,7 32,3 36,5
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 9.985 3.149 6.836 11,6 8,4 14,0
TRAB. DOMÉSTICO CC 1.281 1.129 152 1,5 3,0 0,3
TRAB. DOMÉSTICO SC 3.621 3.403 218 4,2 9,1 0,4
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 1.194 651 543 1,4 1,7 1,1
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 2.310 1.474 836 2,7 3,9 1,7
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 8.658 4.968 3.690 10,0 13,3 7,6
EMPREGADOR (A) 3.922 1.148 2.774 4,6 3,1 5,7
CONTA PRÓPRIA 23.272 8.178 15.094 27,0 21,8 31,0
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 2.051 1.260 791 2,4 3,4 1,6
TOTAL 86.179 37.483 48.696 100,0 100,0 100,0

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

A tabela 2 apresenta a posição na ocupação das pessoas ocupadas no 4º trimestre de 2020. Observa-se que as categorias “empregado do setor privado com carteira” e “conta própria” concentraram a maioria das pessoas ocupadas (Brasil 34,7% e 27,0%, mulheres 32,3% e 21,8%, homens 36,5% e 31,0%, respectivamente). Outras duas categorias relevantes foram: “empregado do setor privado sem carteira” e “militar e servidor estatutário(a)” (Brasil 11,6% e 10,0%, mulheres 8,4% e 13,3%, homens 14,0% e 7,6%, respectivamente). Para as mulheres, e apenas para elas, uma categoria com participação significativa foi a de “trabalhadora doméstica sem carteira” (9,1% das mulheres ocupadas).

Com relação às variações de cada uma das categorias (tabela 3), o Brasil apresentou um aumento de 4,5% do total de pessoas ocupadas, um acréscimo de 5,6% de mulheres e 3,7% de homens, quando comparados com 3º trimestre de 2020. Ainda na comparação com o trimestre anterior, a única categoria que apresentou redução nas três esferas analisadas foi a de “trabalhador doméstico com carteira assinada” (queda de 2,2% para Brasil, de 0,1% para as mulheres e de 15,3% para os homens). Isso mostra que a crise sanitária ainda impacta o setor de serviços domésticos, no qual a participação das mulheres é expressiva, com as pessoas reduzindo a contratação formal dessas trabalhadoras até o final do ano de 2020. Nas demais categorias, praticamente todas apresentaram crescimento frente ao 3º trimestre de 2020, exceto “trabalhador doméstico sem carteira” para os homens (-6,6%) e “empregado do setor público sem carteira” também para os homens (-2,5%). Para as mulheres, as maiores variações foram, em ordem de grandeza, “empregado do setor privado sem carteira” (+18,5%), “trabalhador doméstico sem carteira” (+10,9) e conta própria (+9,6). Aqui, novamente, é possível notar a precariedade da inserção das mulheres no mercado de trabalho, dado que as categorias com maior crescimento foram as informais.

Tabela 3: Pessoas ocupadas, segundo a posição na ocupação, para Brasil, mulheres e homens – Taxa de variação (%) 4º trimestre de 2020 versus 3º trimestre de 2020 e versus 4º trimestre de 2019

Variação (%)

(versus 3º trimestre de 2020)

Variação (%)

 (versus 4º trimestre 2019)

Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 1,8 1,7 1,8 -11,2 -12,1 -10,7
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 10,8 18,5 7,6 -15,8 -19,1 -14,2
TRAB. DOMÉSTICO CC -2,2 -0,1 -15,3 -27,6 -28,2 -23,4
TRAB. DOMÉSTICO SC 9,7 10,9 -6,6 -21,0 -20,9 -23,1
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 4,0 1,7 6,8 0,2 -1,1 1,9
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 1,6 4,0 -2,5 -7,5 -5,4 -11,0
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 3,0 2,6 3,5 8,9 10,3 7,1
EMPREGADOR (A) 1,6 0,5 2,1 -11,7 -16,5 -9,6
CONTA PRÓPRIA 6,8 9,6 5,4 -5,2 -6,2 -4,7
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 2,4 3,7 0,5 0,9 -2,6 7,0
TOTAL 4,5 5,6 3,7 -8,9 -10,0 -7,9

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Como já foi frisado diversas vezes ao longo deste boletim, quando comparadas as variações com relação ao 4º trimestre de 2019, nota-se que a pequena recuperação apresentada no 4º trimestre de 2020 está longe de ser suficiente para recuperar os níveis pré-crise sanitária. Para o Brasil, a queda no número total de ocupados foi de 8,9%, uma redução de 10,0% das mulheres e de 7,9% para os homens. Para qualquer uma das três esferas de análise o maior impacto foi, sem dúvida, sobre a trabalhadora doméstica, pois as mulheres representam 92% dessa categoria. A redução do número de pessoas na categoria de “trabalhador doméstico com carteira assinada” foi da ordem de 27,6% para o Brasil, 28,2% para as mulheres e 23,4% para os homens.  No caso do “trabalhador doméstico sem carteira” a redução também foi grande, 21% para o Brasil, 20,9% para as mulheres e 23,1% para os homens. Outras categorias também foram impactadas e o emprego do setor privado foi o que apresentou as maiores reduções, sendo que o  “empregado do setor privado sem carteira” apresentou redução de 15,8% para o Brasil, 19,1% para as mulheres e 14,2% para os homens.

4.   Rendimento médio das pessoas ocupadas

Nesta seção são apresentados os dados do rendimento médio das mulheres e homens ocupados no 4º trimestre de 2020, de acordo com a cor ou raça, nível de instrução e cargo.

No Brasil, no 4º trimestre de 2020, o rendimento médio[9] foi de R$2.507,0, mantendo-se grandes as diferenças por sexo, cor ou raça, conforme apresentado na tabela 4. Nota-se que o maior rendimento médio observado foi para os homens brancos ou amarelos (R$3.605,9) e o menor para as mulheres negras ou pardas (R$1.616,8).

Tabela 4: Rendimento médio das pessoas ocupadas, segundo cor ou raça, para Brasil, mulheres e homens – Valores do 4º trimestre de 2020 (em R$)

Brasil Mulheres Homens
Total 2.507,0 2.219,5 2.724,4
Brancos/Amarelos 3.256,9 2.830,6 3.605,9
Pretos/Pardos 1.835,6 1.616,8 1.984,3
Indígenas 2.111,0 2.260,2 2.016,5

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Cor ou Raça

Para facilitar a comparação, as pessoas foram separadas de tal forma a apresentar, primeiramente, os rendimentos médios do Brasil (base 100), das mulheres e dos homens. Depois, as pessoas foram separadas de acordo com o sexo e também com a cor ou raça – brancos/amarelos, pretos/pardos e indígenas.

É possível observar, a partir do gráfico 9, que as mulheres pretas/pardas apresentaram o menor rendimento médio da população, equivalente a 64,5% do rendimento médio do Brasil. Essa é a única categoria que ficou abaixo dos 70% do salário médio da população. No outro extremo, situaram-se os homens brancos/amarelos, com rendimento 43,8% acima do rendimento médio da população, seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (12,9% acima do rendimento médio da população). Essas foram as duas únicas categorias com rendimentos superiores ao da média da população. Isso mostra que, além de um recorte de sexo, considerar cor, raça ou etnia também é muito importante para analisar a desigualdade no Brasil.

 

Gráfico 9: Rendimento médio relativo cor ou raça, para Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2020 (número índice: Brasil = 100)

Nível de instrução

Outra forma de comparação relevante para os rendimentos é a observação do rendimento médio por nível de instrução. Novamente, os rendimentos médios do Brasil representam a base 100. Como era de se esperar, o aumento no nível de instrução acarreta um aumento dos salários, porém, junto com esse aumento, a diferença dos rendimentos entre homens e mulheres fica cada vez maior.

Gráfico 10: Rendimento médio relativo por instrução, para Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2020 (número índice: Brasil = 100)

A partir do gráfico 10, observa-se que apenas as mulheres com ensino superior completo conseguiram ultrapassar o rendimento médio da população (64,3% acima do rendimento médio para as mulheres), contudo, os homens na mesma posição ganharam mais do que o dobro do rendimento médio (2,55 vezes o rendimento médio da população). Sem contar que, até o nível superior incompleto, as mulheres não chegaram a alcançar 70% do rendimento médio da população. A desigualdade entre homens e mulheres vai crescendo junto ao nível de instrução. Quando consideradas as pessoas sem instrução, o rendimento médio das mulheres representou 91,0% do rendimento dos homens. No outro extremo do gráfico, as pessoas com nível superior completo, o rendimento das mulheres equivaleu a 64,4% do rendimento dos homens.

Cargo

Por fim, os rendimentos são comparados entre os cargos das pessoas ocupadas. O rendimento médio do Brasil, novamente, é a base e igual a 100. Cargos mais altos, com rendimentos médios superiores ao da população apresentaram maior desigualdade entre homens e mulheres.

Gráfico 11: Rendimento médio relativo cargo, para Brasil, mulheres e homens – 4º trimestre de 2020 (número índice: Brasil = 100)

A partir da análise do gráfico 11, é possível observar que os cargos “elementares”, “agropecuária, caça e pesca” e “serviços e comércio”, possuíam rendimento médio inferior à média da população – 42,3%, 62,8% e 67,5%, respectivamente. A desigualdade entre homens e mulheres foi bem pequena nas profissões elementares (o rendimento das mulheres representou 88,2% do dos homens), mas aumentou na agropecuária (67,2% do rendimento dos homens) e também em serviços e comércio (66,3% do rendimento deles).

Nos cargos com rendimento acima da média da população, o rendimento das mulheres superou o dos homens apenas nas “forças armadas, policiais e bombeiros” (com o rendimento dos homens sendo 78,2% do das mulheres). Nos cargos de “diretores e gerentes” e “profissionais das ciências” a desigualdade entre homens e mulheres ficou ainda mais evidente, elas tiveram um rendimento médio de 67,2% e 63,3% do rendimento deles, respectivamente.

 

 

Considerações Finais

 

Levando em consideração os dados expostos neste boletim, pode-se dizer que, mesmo com alguns sinais de recuperação do mercado de trabalho no 4º trimestre de 2020, os graves efeitos da crise sanitária ainda se fizeram sentir e há um longo caminho a ser percorrido para a recuperação do patamar apresentado ao final de 2019. Novamente, reforça-se o fato de o nível de emprego no 4º trimestre de 2019 ser o resultado de uma crise que já se alongava por quatro anos. Sendo assim, o mercado de trabalho ainda está longe de retomar um nível que já estava muito aquém do necessário para absorver a força de trabalho disponível no Brasil.

Para mostrar esse cenário do 4º trimestre de 2020, ficou destacado neste boletim que houve uma leve redução das taxas de desocupação e de subutilização da força de trabalho ampliada com relação ao 3º trimestre de 2020, mas ainda são taxas muito mais elevadas do que as do 4º trimestre de 2019. Além disso, vale salientar que, mesmo com essa redução da taxa de desocupação entre os dois últimos trimestres de 2020, o número de mulheres desocupadas atingiu, no 4º trimestre de 2020, seu ponto máximo da série história da PNAD Contínua. Ao todo, foram 7,4 milhões de mulheres procurando emprego, disponíveis para o trabalho, mas sem conseguir encontrar qualquer forma de ocupação.

Também se destacou que o 4º trimestre de 2020 apresentou uma redução das pessoas fora da força de trabalho. Uma das hipóteses levantadas para explicar essa queda foi a redução do auxílio emergencial. Com a queda pela metade do valor desse benefício a partir de setembro, último mês do 3º trimestre de 2020, as pessoas se viram obrigadas a voltar a procurar por uma ocupação, mesmo sem necessariamente conseguir encontrar, reduzindo, assim, o isolamento social e contribuindo para um agravamento futuro no número de contaminações.

Finalmente, com as escolas públicas ainda fechadas e sem conseguir contar com uma rede de apoio, foram muitas as mulheres que não conseguiram sair da condição de indisponibilidade. No 4º trimestre de 2020, praticamente quatro a cada cinco pessoas indisponíveis foram mulheres, sendo que muitas alegaram estar fora da força de trabalho contra o seu desejo, por terem que cuidar dos afazeres domésticos.

 

Referências

 

IBGE | Biblioteca | Detalhes | Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: notas técnicas: versão 1.8 – 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: IBGE, 2020. Disponível em:

https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2101733

 

NPEGen. Mulheres no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 03, novembro de 2020.

 

[1] Para mais informações, consulte: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/30165-pib-cai-4-1-em-2020-e-fecha-o-ano-em-r-7-4-trilhoes .

[2] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam por pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias, ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento, etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana. (IBGE, 2020)

[3] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se, também, como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência (IBGE, 2020).

[4] Os motivos para as pessoas se classificarem nesse subgrupo estão expostos na Seção 4.

[5] São classificadas como pessoas subocupadas aquelas que trabalharam menos do que 40 horas semanais no seu único trabalho ou no seu conjunto de todos os seus trabalhos, gostariam de trabalhar mais horas do que as habitualmente trabalhadas e estavam disponíveis para trabalhar mais horas no período de 30 dias, contados a partir do primeiro dia da semana de referência (IBGE, 2020)

[6] Vide Boletim MMT, volume 02, número 3. Disponível em https://faca.mp/npegen.

[7] A redução das pessoas fora da força de trabalho não coincide exatamente com a quantidade de pessoas que entrou na força de trabalho, porque é necessário considerar o aumento populacional, observado com o crescimento da PIA.

 

[8] Apenas reforçando: diz-se força de trabalho ampliada a soma das pessoas na força de trabalho (FT) com a força de trabalho potencial (FTP) (IBGE, 2020).

[9] Utilizou-se aqui o rendimento médio habitualmente recebido. De acordo com o Glossário da PNAD Contínua, “O rendimento habitual consiste no rendimento recebido por empregados, empregadores e trabalhadores por conta própria, mensalmente, sem acréscimos extraordinários ou descontos esporádicos”.

 

EXPEDIENTE

FACAMP Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen – Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP que repercute os resultados dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE.

 

FACAMP é uma faculdade privada com espírito público fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Com 100% de Mestres e Doutores, seu curso de Economia recebeu 5 estrelas do Guia do Estudante.

 

Núcleo de Pesquisa de Economia e Gênero da FACAMP

https://faca.mp/npegen

npegen@facamp.com.br

 

Pesquisadoras

Camila Veneo Campos Fonseca

Cláudia Satie Hamasaki

Daniela Salomão Gorayeb

Georgia Christ Sarris

Juliana de Paula Filleti

Juliana Pinto de Moura Cajueiro

Maria Fernanda Cardoso de Melo

Tatiana de Amorim Maranhão

 

Como citar este Boletim:

NPEGen.  Mulheres no mercado de trabalho no 4º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 04, março de 2021.

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