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Boletim mulheres no mercado de trabalho – terceiro trimestre de 2020

O Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho (MMT) tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desde 2012, com a publicação da PNAD Contínua, o IBGE reformulou as estatísticas disponíveis para o mercado de trabalho, ampliando-as, tanto em termos de sua abrangência geográfica como em relação ao escopo de suas categorias.

Para os propósitos deste boletim – analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho –, algumas novas categorias são particularmente eloquentes: a subocupação da força de trabalho e a força de trabalho potencial. Esses dois subconjuntos capturam a precariedade do mercado de trabalho e a vulnerabilidade das pessoas que se encontram dentro ou fora dele – no primeiro caso, elas estão ocupadas, mas de forma precária; no segundo, elas se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo e necessidade – por desalento ou por indisponibilidade. Ao lado da desocupação, a subocupação e a força de trabalho potencial conformam uma outra nova categoria, a da subutilização da força de trabalho.

Na perspectiva do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP (NPEGen), para viabilizar a análise da situação de milhões de mulheres ocultas das categorias tradicionais e comumente divulgadas pela maior parte dos estudos sobre mercado de trabalho, é fundamental lançar um olhar mais atento a esses dados novos, ainda que tragam maior complexidade para a sua leitura e interpretação.

Os dados do terceiro trimestre de 2020 revelam os efeitos mais permanentes da crise econômica que já se arrasta por quase cinco anos e foi agravada pela crise sanitária no segundo trimestre de 2020. Afinal, mesmo com a economia mostrando sinais de recuperação – estima-se um crescimento de 7,3% do PIB para o terceiro trimestre[1] – o nível de emprego permanece baixo, com mais um período de redução no número de pessoas ocupadas e aumento da taxa de desocupação.

Sendo assim, o boletim está estruturado em 4 seções, além desta introdução e das considerações finais. Nas seções de 1 a 3, exibem-se os dados com algumas características da população na Força de Trabalho brasileira, bem como algumas do contingente que está Fora da Força de Trabalho. Na seção 4, apresentam-se os dados dos rendimentos, com diferentes recortes, ainda que guardando as diferenciações entre os sexos.

Composição e variação (%) da População em Idade Ativa (PIA) e de suas categoria

Esta seção é composta por 4 itens. No primeiro, é apresentado o número de pessoas das categorias da PIA no trimestre analisado, com as participações de mulheres e homens nessas categorias. No segundo item, exibem-se as variações percentuais do trimestre analisado em relação ao trimestre anterior e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior dessas categorias. A composição da Força de Trabalho Potencial é apresentada no item 3. No último item, estão discriminados os motivos alegados pelas pessoas para não estarem na Força de Trabalho brasileira no 3º trimestre de 2020.

1.1.                      Composição da População em Idade Ativa no Terceiro Trimestre de 2020

A composição da População em Idade Ativa (PIA) – população com 14 anos ou mais de idade – está exibida no gráfico 1. Há duas subdivisões da PIA: a população na Força de Trabalho (FT) – pessoas que estavam Ocupadas[2] ou Desocupadas[3] no período de referência da pesquisa – e a população Fora da Força de Trabalho (FFT) – pessoas que não estavam ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. As pessoas que estão Fora da Força de Trabalho estão subdivididas, por sua vez, em outras duas categorias: as pessoas na Força de Trabalho Potencial (FTP) e as pessoas Fora da Força de Trabalho Potencial (Fora da FTP).

Embora as mulheres sejam maioria na PIA (53,2%), nota-se uma menor representatividade delas na Força de Trabalho (44,2%) e na População Ocupada (43,0%) do que a dos homens (55,8% na FT e 57,0% na População Ocupada).

Mesmo não sendo a maioria das pessoas na Força de Trabalho, as mulheres representam 50,9% da População Desocupada. Esse resultado volta a ser condizente com a série histórica da População Desocupada em que as mulheres são sempre a maioria das pessoas a procura de trabalho no país. No segundo trimestre de 2020, havia-se registrado um comportamento atípico, tendo os homens presença majoritária nos Desocupados (50,3%)[4].

Quando se observam os dados da Força de Trabalho Potencial (FTP) – uma parte da população fora da força de trabalho que não estava ocupada nem desocupada na semana de referência, mas com potencial para se tornar força de trabalho (Pessoas Indisponíveis e Pessoas em Desalento)[5] – nota-se que as mulheres continuam sendo a ampla maioria (59,0% da FTP, 63,0% das Pessoas Indisponíveis e 54,3% das Pessoas em Desalento).

Gráfico 1: Brasil – composição da População em Idade Ativa (PIA) – 3º trimestre 2020 (em mil pessoas)

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Nas demais subdivisões da população na Força de Trabalho, é possível notar que as mulheres representam a maioria em todas as categorias compatíveis com trabalho mais precário, tais como: Pessoas Subocupadas (53,3%) – pessoas de 14 anos ou mais que trabalhavam habitualmente menos de 40 horas semanais, estavam disponíveis e gostariam de trabalhar mais horas – e na Subutilização da Força de Trabalho  (54,5%) – resultado consolidado das pessoas Subocupadas, Desocupadas e na Força de Trabalho Potencial.

 

1.2.                      Taxa de variação (%) da Composição da População em Idade Ativa (PIA)

Após o período de paralisação de muitas atividades, ocorrido no segundo trimestre de 2020, diversos setores retornaram e, então, o nível da atividade econômica aparenta sinais de recuperação, ainda que esteja longe do nível anterior ao da crise sanitária[6]. Porém, o mercado de trabalho não parece seguir o mesmo movimento de aparente retomada.

3º trimestre de 2020 versus 2º trimestre de 2020

Na comparação deste trimestre analisado com o anterior – quando os efeitos econômicos da pandemia se fizeram mais severos – nota-se um leve aumento das pessoas na Força de Trabalho, ou seja, um retorno parcial – e, praticamente, insignificante no caso das mulheres – das pessoas que haviam saído da Força de Trabalho no 2º trimestre de 2020. Como é possível observar no boletim anterior, 9 milhões de pessoas saíram do mercado de trabalho e, com os dados do 3º trimestre, revela-se o retorno de apenas 418 mil pessoas, sendo 37 mil mulheres e 380 mil homens. Isso significa que cerca de 95% das pessoas que saíram da Força de Trabalho pela pandemia, ainda não conseguiram voltar sequer a procurar por uma ocupação. Para as mulheres, o cenário é ainda mais dramático, pois menos de 1% das que saíram de suas ocupações tiveram a oportunidade de voltar a trabalhar ou a procurar por uma ocupação.

Avaliando a composição da Força de Trabalho nesse mesmo período, observa-se um aumento relevante nas pessoas desocupadas e subocupadas. No caso da desocupação, verifica-se um aumento de 12,8% para as mulheres e 7,6% para os homens. Já para a ocupação, tem-se uma redução de 2,1% e 0,2% para mulheres e homens, respectivamente, acompanhada de uma diminuição das pessoas subocupadas (-10% para as mulheres e -11,3% para os homens). Assim, apresenta-se mais um trimestre de encolhimento do número de pessoas Ocupadas no país, sendo afetadas mais fortemente ainda as pessoas que já estavam com cargas de trabalho insuficientes.

No que diz respeito às pessoas Fora da Força de Trabalho, comparando este trimestre com o anterior, há um aumento de 1,9% para as mulheres e uma queda de 0,5% para os homens. O aumento de 1,0% da População em Idade Ativa feminina permite que ocorra um aumento da quantidade de mulheres nas duas categorias da PIA (FT e FFT), mas o que se observa é um incremento maior de mulheres para fora da força de trabalho.

Na Força de Trabalho Potencial (soma das pessoas Indisponíveis e em Desalento), como era de se esperar, a retomada de algumas atividades ajudou a reduzir a quantidade de pessoas Indisponíveis frente aos resultados do 2º trimestre de 2020. É importante salientar que essa diminuição de Pessoas Indisponíveis é menos significativa para as mulheres (-7,0%) do que para os homens (-16,6%). A provável justificativa para essa diferença se encontra no fato das escolas e creches ainda permanecerem, em sua grande maioria, paralisadas. Com os filhos em casa, fica mais difícil, para as mulheres, a volta ao mercado de trabalho.

Por fim, também é possível extrair da tabela 1, um aumento das pessoas totalmente alijadas do mercado de trabalho, as pessoas que estão Fora da Força de Trabalho Potencial (crescimento de 2,7% para mulheres e 1,4% para homens, frente ao 2º trimestre de 2020). São contabilizadas nessa categoria pessoas que não trabalham e não buscam por trabalho porque não desejam. Em geral, é um grupo composto por estudantes, pessoas aposentadas, ou pessoas cuidadoras de dependentes na casa. Assim, a vigência do auxílio emergencial nesse trimestre analisado pode explicar o aumento de pessoas nessa condição de pessoas que não buscam por trabalho. A política de apoio às famílias necessitadas e impossibilitadas de acessar o mercado de trabalho possibilitou o aumento de pessoas completamente fora da Força de Trabalho e sobrevivendo com a renda gerada pelo governo. Considerando que o valor do auxílio foi reduzido no último mês do trimestre considerado, logo, é possível que essa categoria sofra algum tipo de redução no 4º trimestre de 2020, com as pessoas voltando a procurar emprego e, provavelmente, será sentido um maior impacto nos níveis de desocupação e subocupação.

 

 

Tabela 1: População em Idade Ativa, segundo sua composição e sexo, no 3º trimestre de 2020 (em mil pessoas), taxas de variação (%) 3º trimestre 2020 versus 2º trimestre 2020 e versus 3º trimestre de 2019

3º trim. 2020 2º trim. 2020 (%) 3º trim. 2019 (%)
M H M H M H
População em Idade Ativa (PIA) 93.142 81.979 1,0 0,3 3,8 0,7
   Força de Trabalho (FT) 42.676 53.880 0,1 0,7 -10,9 -7,8
      Pessoas Ocupadas 35.501 46.963 -2,1 -0,2 -13,8 -10,7
         Pessoas Subocupadas 3.308 2.902 10,0 11,3 -12,7 -10,9
      Pessoas Desocupadas 7.175 6.917 12,8 7,6 7,6 18,4
   Fora da Força de Trabalho (FFT) 50.466 28.099 1,9 -0,5 20,4 22,5
      Força de Trabalho Potencial (FTP) 7.600 5.276 -2,6 -8,1 60,8 66,6
         Indisponíveis 4.414 2.597 -7,0 -16,6 107,1 144,8
         Desalentados 3.186 2.680 4,3 2,0 22,7 27,2
   Fora da Força de Trabalho Potencial 42.866 22.823 2,7 1,4 15,3 15,4
  FT Subutilizada* 18.083 15.095 5,3 2,2 19,1 23,0

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen. *A FT subutilizada é composta pela soma das pessoas Subocupadas, Desocupadas e na Força de Trabalho Potencial.

3º trimestre de 2020 versus 3º trimestre de 2019

A análise do 3º trimestre de 2020 ganha nuances mais fortes quando se realiza a comparação desse período com o mesmo período do ano anterior. Assim, pode-se visualizar as mudanças dramáticas ocorridas em um ano, sobretudo para a condição de trabalho das mulheres.

Para começar, temos que a Força de Trabalho das mulheres diminui em 10,9%, representando uma redução de 5,2 milhões de mulheres em um ano. A Força de Trabalho masculina também apresenta uma diminuição substantiva, mas um pouco menor em termos percentuais do que as mulheres no mesmo período (-7,8%).

Abrindo as categorias da Força de Trabalho, observa-se que a diminuição ocorre apenas no número de Pessoas Ocupadas (-13,8% para as mulheres e -10,7% para os homens), inclusive o de Pessoas Subocupadas (-12,7% para as mulheres e -10,9% para os homens). Afinal, em um ano, mesmo com o auxílio emergencial, o número de pessoas procurando trabalho aumentou consideravelmente (7,6% para as mulheres e 18,4% para os homens).

Esse aumento das Pessoas Desocupadas só não foi maior porque muitas das pessoas que perderam suas ocupações foram para a categoria das pessoas Fora da Força de Trabalho (aumento de 20,4% para as mulheres e 22,5% para os homens, ambos muito superiores ao aumento das Pessoas em Idade Ativa nesse período, 3,8% para mulheres e 0,7% para os homens).

Dentro dessa categoria, é importante olharmos para a Força de Trabalho Potencial (Indisponíveis ou Desalentadas). Nesse período, o aumento de pessoas nessa situação é gigantesco, em especial para as mulheres que passam a somar 7,6 milhões nessa situação (um aumento de 60,8% com relação ao ano anterior). A Força de Trabalho Potencial masculina também apresenta forte aumento (66,6%), mas o número de homens nessa situação é bem menor do que o de mulheres (5,3 milhões de homens).

O incremento maior nessa categoria se deve ao aumento dramático de pessoas Indisponíveis (107,1% para as mulheres e 144,8% para os homens). Em números absolutos, o impacto da indisponibilidade ao trabalho é maior para as mulheres por representarem a grande maioria das pessoas nessa categoria – são 4,4 milhões de mulheres e 2,6 milhões de homens. O número de pessoas Desalentadas também aumentou consideravelmente em um ano, 22,7% para as mulheres e 27,2% para os homens. Sublinhe-se que esses aumentos significativos ocorrem em categorias de pessoas que desejam trabalhar, mesmo durante a vigência do auxílio emergencial e mesmo com o retorno de muitas atividades econômicas que tinham sido paralisadas no 2º trimestre de 2020.

Pode-se afirmar que esse aumento da Força de Trabalho Potencial só não foi ainda maior, pois uma parte das pessoas que perderam suas ocupações ficaram fora da Força de Trabalho Ampliada (força de trabalho que inclui a Força de Trabalho Potencial). O aumento de pessoas que não trabalharam e não procuraram trabalho porque não desejavam foi de 15,3% para as mulheres e 15,4% dos homens. Novamente, supõe-se que o auxílio emergencial (bem como redes de apoio financeiras familiares que ainda persistem) tenha tido uma contribuição importante para o aumento de pessoas nessa categoria. Supõe-se que com fim ou redução desses apoios, e sem a recuperação dos postos de trabalho, as condições de vida das pessoas piore de forma dramática, ainda mais para muitas mulheres cujos dependentes se sustentam com seus rendimentos exclusivamente.

 

1.3.                      Força de Trabalho Potencial: Desalento e Indisponibilidade

Os próximos gráficos ajudam a reforçar a ideia de que o aumento do nível de atividade não foi acompanhado por melhora significativa no mercado de trabalho. A análise do gráfico 2, com o percentual das pessoas da Força de Trabalho Potencial na População Fora da Força de Trabalho, revela uma redução desse percentual frente ao 2º trimestre de 2020 nas três categorias analisadas (Brasil 16,4 versus 17,4%, Mulheres 15,1 versus 15,7 e Homens 18,8 versus 20,3% no 3o. trimestre versus o 2o. trimestre, respectivamente), mas com um crescimento muito significativo quando os resultados são comparados com o mesmo trimestre do ano anterior (Brasil 4,2 pontos percentuais de aumento, Mulheres +3,8 p. p. e Homens +5,0 p. p.).

A Força de Trabalho Potencial, conforme já apresentado no início deste item, é composta pelas pessoas que não figuram na Força de Trabalho, mas possuem potencial para começar a figurar, porque desejam trabalhar. Nessa categoria estão as Pessoas Desalentadas – que desistiram de procurar emprego – e as Pessoas Indisponíveis que são aquelas que alegam estar indisponíveis para o mercado de trabalho, por motivos que serão apresentados logo mais.

Gráfico 2: Percentual de pessoas da Força de Trabalho Potencial na População Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Pensando nisso, os gráficos de 3 a 6, portanto, têm a função de apresentar, considerando as categorias analisadas, a composição da Força de Trabalho Potencial. Primeiro, os gráficos 3 e 4 apresentam as participações dos desalentados e dos indisponíveis no total das pessoas Fora da Força de Trabalho, respectivamente. Em seguida, os gráficos 4 e 5 mostram a participação dos desalentados e dos indisponíveis na Força de Trabalho Potencial. 

 

 

Gráfico 3: Percentual de pessoas Desalentadas na população Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Gráfico 4: Percentual de pessoas Indisponíveis na população Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

A diferença entre as categorias analisadas é bastante clara. A partir da análise do gráfico 3, nota-se uma participação maior de desalentados na população Fora da Força de Trabalho para os homens. A participação dos desalentados é praticamente constante nos três trimestres analisados em torno de 9% para as mulheres e 6% para os homens (no Brasil, apresenta-se um aumento de 0,2 ponto percentual frente ao 2º trimestre e mesmo valor em relação ao 3º trimestre de 2019; Mulheres +0,1 p. p. e +0,1 p. p.; e Homens +0,5 p. p. e 0,0 p. p., respectivamente).

O gráfico 4, porém, mostra uma mudança já ocorrida no 2º trimestre de 2020. A participação dos indisponíveis, que era em torno de 4 ou 5% em 2019, passa a representar uma participação de dois dígitos no 2º trimestre de 2020, em torno de 10 e 11% (no Brasil, um aumento de 5,2 pontos percentuais, Mulheres +4,5 p. p. e Homens +6,4 p. p.), ainda que tenha se reduzido levemente no 3º trimestre de 2020 (no Brasil, uma redução de 1,2 ponto percentual, Mulheres -0,9 p. p. e Homens -1,8 p. p.). Com a paralisação de muitas atividades no 2º trimestre de 2020, devido à crise sanitária, muitas pessoas saíram do mercado de trabalho e ficaram indisponíveis, por não conseguirem mais exercer seus trabalhos. Outra mudança ocorrida no 2º trimestre foi a participação dos homens se tornar maior do que a das mulheres, e permanecer acima da delas mesmo no 3º trimestre de 2020. É importante ressaltar que a quantidade de mulheres Fora da Força de Trabalho é, praticamente, o dobro da de homens (são 50,5 milhões de mulheres contra 28,1 milhões de homens).

Nos gráficos 5 e 6, é possível notar que, quanto maior a proporção de desalentados nas pessoas Fora da Força de Trabalho, menores serão as proporções dos indisponíveis na Força de Trabalho Potencial, pois são essas duas categorias a compor a FTP. A participação dos desalentados na FTP, que era maior do que a dos Indisponíveis em 2019, depois de uma queda bastante acentuada no 2º trimestre de 2020, volta a se recuperar no 3º trimestre de 2020, mas não chega a voltar aos níveis pré-pandemia, de acordo com o gráfico 5. O movimento inverso é apresentado no gráfico 6, com a participação dos indisponíveis muito elevada no período mais crítico e começa a ceder com a recuperação das atividades, porém não de forma suficiente e, atualmente, representa a maior parte das pessoas na Força de Trabalho Potencial.

Mais uma vez, o comportamento entre os sexos apresenta uma diferença de comportamento. A categoria das mulheres apresentou, na categoria dos desalentados, um aumento de 2,7 pontos percentuais, frente ao 2º trimestre de 2020, e ainda está 13,0 pontos percentuais abaixo do 3º trimestre de 2019. Os homens, enquanto isso, obtiveram um aumento de 5,0 pontos percentuais, frente ao 2º trimestre de 2020, mas ainda estão 15,7 pontos percentuais abaixo do 3º trimestre de 2019. Com relação aos indisponíveis, os movimentos são exatamente os mesmos, porém com os sinais trocados (Mulheres -2,7 p. p. e +13,0 p.p., Homens -5,0 p. p. e +15,7 p. p., frente o 2º trimestre de 2020 e o 3º trimestre de 2019, respectivamente). Esses dados revelam que a recuperação das mulheres para sair da indisponibilidade parece mais lenta que a dos homens. O Brasil apresenta comportamento muito semelhante ao das mulheres (+3,6 p. p. versus 2º trimestre de 2020 e -14,0 p. p. versus 3º trimestre 2019, para os desalentados). Essa semelhança se deve à maior participação das mulheres na Força de Trabalho Potencial (vide gráfico 1, 59%).

Gráfico 5: Percentual de pessoas Desalentadas na população Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

 

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Gráfico 6: Percentual de pessoas Indisponíveis na população Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

1.4.                      Motivos para não estar na Força de Trabalho

Conforme já citado anteriormente, neste item são apresentados os motivos declarados pelos entrevistados para estarem na categoria das pessoas que estão Fora da Força de Trabalho brasileira.

Novamente, os padrões de resposta diferem significativamente entre os homens e as mulheres. Para as mulheres, o principal motivo para não estarem no mercado de trabalho é o “cuidar dos afazeres domésticos” (26,3%). As mulheres sempre representam a maioria nesse item, mas a crise sanitária e o fato de as crianças não poderem frequentar a escola certamente influenciam na grande participação dessa resposta. Os demais motivos aparecem na seguinte ordem: “muito idoso ou muito jovem” (21,8%), em terceiro lugar “outro motivo” (18,4%), seguido por “problemas de saúde ou gravidez” (13,3%), “estudar” (11,7%) e “não querer trabalhar” (8,5%).

O padrão de resposta dos homens é completamente diferente. O principal motivo de afastamento das mulheres é o último elencado pelos homens, pois apenas 1,8% deles alegam indisponibilidade por “cuidar dos afazeres domésticos”. A ordem de justificativa para os homens é: “outro motivo” (26,2%), uma resposta que aumentou muito com o contexto da pandemia; “muito idoso ou muito jovem” (25,3%); “problemas de saúde ou gravidez” (18,1%); “estudar” (18,0%) e “não quer trabalhar” (10,7%).

Gráfico 7: Motivos para não estar no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

2.   Taxas (%) de desocupação, subocupação e de subutilização da Força de Trabalho

 

Após analisar as categorias que compõem a PIA, vejamos os dados relativos aos movimentos ocorridos na Força de Trabalho, a partir da análise das taxas de desocupação, subocupação e subutilização, as quais são apresentadas nos gráficos 8, 9 e 10.

Pode-se observar, no gráfico 8, uma elevação da Taxa de Desocupação (número de pessoas Desocupadas em relação às pessoas na Força de Trabalho) para as três categorias analisadas. Para o Brasil, observa-se uma taxa de 14,6% no 3º trimestre de 2020, frente a uma taxa de 13,3% no 2º trimestre de 2020 e 11,8% no 3º trimestre de 2019. O comportamento das taxas desagregadas por sexo é similar, mas o crescimento da taxa de desocupação é maior para as mulheres do que para os homens. Para as mulheres, essa taxa apresenta um incremento de 1,9 ponto percentual no 3o. Trimestre de 2020 frente ao 2º trimestre de 2020 e de +2,9 p. p. comparado com o 3º trimestre de 2019, enquanto o aumento dos homens foi de +0,8 p.p. e +2,8 p.p., respectivamente. O número de pessoas desocupadas aumentou no 3º trimestre de 2020, pois algumas pessoas que estavam fora do mercado de trabalho por conta da pandemia voltaram a procurar emprego e passaram a compor a categoria de desocupados. Porém, conforme apresentado anteriormente, poucas mulheres entraram para a Força de Trabalho (apenas 37 mil). Esse aumento da taxa, no caso delas, deve-se mais à perda dos postos de trabalho das mulheres que estavam ocupadas no 2º trimestre de 2020 (774 mil mulheres deixaram a categoria Ocupadas, entre o 2º e o 3º trimestres de 2020). Sendo assim, o contingente de mulheres computadas como Desocupadas sofreu um incremento 811 mil mulheres em um trimestre, fazendo gerar uma taxa de desocupação recorde de 16,8% da força de trabalho das mulheres.

Para os homens, a elevação foi menos significativa porque, no caso deles, mesmo com a maior entrada na Força de Trabalho (380 mil entre o 2º e 3º trimestre de 2020), a redução do número de homens Ocupados no mesmo período foi menos significativa (queda de 109 mil homens). Em outras palavras, a categoria de homens Desocupados foi acrescida de 489 mil homens, determinando uma taxa de desocupação de 12,8% da força de trabalho masculina.

Com isso, a diferença entre a taxa de desocupação dos homens e das mulheres volta a se ampliar e apresenta, no 3º trimestre de 2020, 4 pontos percentuais de diferença.

 

 

Gráfico 8: Taxa (%) de Desocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

As Taxas de Subocupação[7] do Brasil, das Mulheres e do Homens (gráfico 9) – representando o percentual de pessoas Subocupadas em relação às pessoas na Força de Trabalho – retornaram aos níveis do 3º trimestre de 2019 (apenas a das mulheres está 0,1 ponto percentual acima). Na comparação com o 2º trimestre de 2020, as taxas apresentaram elevação nas três categorias (Brasil aumento de 0,8 ponto percentual, Mulheres + 1,0 p. p. e Homens +0,7 p. p). Nota-se, de fato, um aumento do número de pessoas subocupadas no 3º trimestre de 2020. Esse é um sinal de precarização do mercado de trabalho, pois, além da redução do número de ocupados, houve um aumento no número de pessoas que, mesmo trabalhando, não conseguiu trabalhar uma quantidade de horas suficientes para as suas necessidades, sendo consideradas subocupadas.

Por fim, apresentam-se neste primeiro item as Taxas de Subutilização da Força de Trabalho (gráfico 10) do Brasil, das Mulheres e dos Homens – representadas pelo percentual de pessoas Desocupadas, Subocupadas e na Força de Trabalho Potencial, com relação à Força de Trabalho Ampliada[8]. Mais uma vez a condição ruim do mercado de trabalho fica explícita, com o aumento das categorias de subutilização. A comparação com o 2º trimestre de 2020 mostra uma elevação menor (Brasil +1,2 ponto percentual, Mulheres +2,0 p. p. e Homens +0,6 p. p.) do que a variação em relação ao 3º trimestre de 2019 (Brasil +6,3 p. p., Mulheres +7,1 p. p. e Homens +5,6 p. p.). As taxas de subutilização alcançam recordes históricos: 30,3% para o Brasil, 36,0% para as mulheres e 25,5% para os homens.

Gráfico 9: Taxa (%) de Subocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Gráfico 10: Taxa (%) de Subutilização para o Brasil, Mulheres e Homens – 3º trimestre de 2019, 2º trimestre de 2020 e 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Nota-se, então, um aumento da precarização das condições do mercado de trabalho, mesmo não sendo mais o período de auge da pandemia. Além disso, é possível notar um impacto mais significativo nas condições de possibilidades de trabalho das mulheres. Suas taxas, além de serem as maiores em todos os períodos, apresentam também maior crescimento entre um período e outro.

Além do movimento de crescimento significativo, vale atentar para o valor que se apresenta a taxa de subutilização das mulheres no 3º trimestre de 2020: 36% da força de trabalho ampliada feminina. Isso significa que em torno de 2 a cada 5 mulheres nessa categoria não estão encontrando condições ou oportunidades de trabalho que sejam condizentes com as suas necessidades e a das pessoas que estão sob sua responsabilidade.

3.   Posição na Ocupação das Pessoas Ocupadas

Para entender melhor quais foram as categorias mais afetadas, a tabela 2 apresenta a quantidade de pessoas Ocupadas pelas posições na ocupação e suas respectivas participações no 3º trimestre de 2020. As categorias “empregado do setor privado com carteira” e “conta própria” concentram a maioria das pessoas ocupadas (Brasil 35,6% e 26,4%, Mulheres 33,6% e 21,0%, Homens 37,1% e 30,5%, respectivamente). Os empregados do setor privado sem carteira e os militares também representam uma parcela relevante dos ocupados (Brasil 10,9% e 10,2%, Mulheres 7,5% e 13,6%, Homens 13,5% e 7,6%, respectivamente). Para as mulheres, outra categoria importante é a de empregadas domésticas sem carteira (8,6% das mulheres ocupadas).

Tabela 2: Pessoas ocupadas, segundo a posição na ocupação e o sexo – Em mil pessoas e Participação (%) no 3º trimestre de 2020

3º trimestre 2020 Participação (%)
Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 29.366 11.926 17.439 35,6 33,6 37,1
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 9.013 2.658 6.355 10,9 7,5 13,5
TRAB. DOMÉSTICO CC 1.310 1.130 180 1,6 3,2 0,4
TRAB. DOMÉSTICO SC 3.302 3.069 233 4,0 8,6 0,5
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 1.148 640 509 1,4 1,8 1,1
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 2.274 1.417 857 2,8 4,0 1,8
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 8.407 4.842 3.565 10,2 13,6 7,6
EMPREGADOR (A) 3.859 1.142 2.717 4,7 3,2 5,8
CONTA PRÓPRIA 21.783 7.462 14.321 26,4 21,0 30,5
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 2.002 1.215 787 2,4 3,4 1,7
TOTAL 82.464 35.501 46.963 100,0 100,0 100,0

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

A partir dos dados da tabela 3, é possível observar as taxas de variação dessas categorias frente ao 2º trimestre de 2020 e ao 3º trimestre de 2019. Com relação ao trimestre imediatamente anterior, observa-se uma redução de 1,1% do total de pessoas ocupadas, sendo 2,1% de redução para as mulheres e 0,2% de redução para os homens. As categorias com maiores redução para o Brasil foram empregados do setor público com carteira (-8,2%), empregados do setor público sem carteira (-7,7%) e trabalhadores domésticos com carteira (-7,2%). O comportamento é muito parecido para a análise das Mulheres, apenas com uma queda maior para as funcionárias públicas sem carteira (-9,8%), do que as com carteira (-9,1%) e também com uma forte redução das trabalhadoras domésticas com carteira (-7,7%). As duas únicas posições na ocupação que apresentaram aumento para as mulheres foi a de conta própria (0,8%) e trabalhadora auxiliar familiar (5,4%).  Os homens, por sua vez, apresentam as maiores variações em posições que tiveram aumento do número de pessoas ocupadas, tais como trabalhador auxiliar familiar (+11,2%), trabalhadores domésticos sem carteira (+8,7%) e empregados do setor privado sem carteira (+8,5%). Além dessas duas categorias, os homens também apresentam um acréscimo de suas ocupações na categoria “conta própria”, que é a única com saldo positivo para as mulheres nesse período.

Tabela 3: Pessoas ocupadas, segundo a posição na ocupação e o sexo – Taxa de variação (%) 3º trimestre de 2020 versus 2º trimestre de 2020 e versus 3º trimestre de 2019

Variação (%)

(versus 2º trimestre de 2020)

Variação (%)

 (versus 3º trimestre 2019)

Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC -2,6 -2,8 -2,5 -11,2 -11,5 -11,0
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 4,3 -4,5 8,5 -23,9 -31,1 -20,4
TRAB. DOMÉSTICO CC -7,2 -7,7 -3,9 -24,7 -26,4 -12,2
TRAB. DOMÉSTICO SC 0,0 -0,6 8,7 -27,2 -28,4 -8,0
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC -8,2 -9,1 -7,0 -9,4 -9,8 -8,9
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC -7,7 -9,8 -3,9 -11,8 -13,2 -9,3
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO -2,8 -1,6 -4,3 7,2 9,7 4,1
EMPREGADOR (A) -2,4 -1,9 -2,7 -11,6 -17,5 -8,9
CONTA PRÓPRIA 0,6 0,8 0,4 -10,8 -12,9 -9,7
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 7,6 5,4 11,2 -5,9 -10,0 1,3
TOTAL -1,1 -2,1 -0,2 -12,1 -13,8 -10,7

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 As variações anuais, ou seja, frente ao 3º trimestre de 2019, são maiores, com uma queda de 12,1% das pessoas ocupadas para o Brasil, -13,8% para as Mulheres e –10,7% para os Homens. Independentemente do sexo, a única categoria que apresentou aumento no número de pessoas foi a de militares e servidores estatutários (Brasil 7,2%, Mulheres 9,7% e Homens 4,1%).

Todas as demais categorias apresentaram reduções, sendo que as categorias mais impactadas foram (por ordem de diminuição percentual das mulheres): empregado do setor privado sem carteira (Brasil -23,9%, Mulheres -31,3% e Homens -20,4%), trabalhador doméstico sem carteira (Brasil -27,2%, Mulheres -28,4% e Homens -8,0%); trabalhador doméstico com carteira (Brasil -24,7%, Mulheres -26,4% e Homens -12,2%) e Empregador (Brasil –11,6%, Mulheres –17,5% e Homens –8,9%).

Novamente é possível observar o efeito mais forte das variações do mercado de trabalho para as mulheres. Além delas apresentarem queda maior no total de pessoas ocupadas (-13,8% versus -10,7%), duas das categorias mais afetadas (trabalhadores domésticos com ou sem carteira) são praticamente compostas por mulheres. Dessa forma, considerando apenas essas posições na ocupação (de emprego doméstico), nota-se uma redução de 1,6 milhão de postos de trabalho para as mulheres (1,2 milhão sem carteira e 404 mil com carteira), contra uma redução de 45 mil vagas para os homens (25 mil com carteira e 20 mil sem carteira). As posições de Empregado com carteira do setor privado e a de Conta própria, as principais formas de ocupação tanto para mulheres como para homens, também oferecem uma contribuição grande à queda dramática de pessoas ocupadas nesse período de um ano. Juntas, apresentam uma redução de 2,6 milhões de mulheres e de 3,7 milhões de homens.

 

4.   Rendimento médio das pessoas Ocupadas

As pessoas ocupadas no Brasil, no 3º trimestre de 2020, obtiveram, em média, um rendimento[9] de R$2.553,6 mantendo-se grandes as desigualdades por sexo, cor ou raça, conforme registrado na tabela 4. Nota-se que o maior rendimento médio observado foi para os homens brancos ou amarelos (R$3.687,4) e o menor entre as mulheres indígenas e pretas ou pardas (R$1.596,3 e R$1.652,7, respectivamente).

Tabela 4: Rendimento médio das pessoas ocupadas, segundo cor ou raça e o sexo – Valores do 3º trimestre de 2020 (em R$)

Brasil Mulheres Homens
Total 2.553,6 2.266,1 2.766,9
Brancos/Amarelos 3.332,9 2.890,4 3.687,4
Pretos/Pardos 1.855,4 1.652,7 1.995,2
Indígenas 1.877,7 1.596,3 2.057,0

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Cor ou Raça

Para facilitar a comparação, as pessoas foram separadas de tal forma a apresentar, primeiramente, os rendimentos médios do Brasil (base 100), das mulheres e dos homens. Depois, as pessoas foram separadas de acordo com a cor ou raça – brancos/amarelos, pretos/pardos e indígenas – e, também, pelo sexo.

Assim, é possível notar, a partir da observação do gráfico 11, que as mulheres indígenas apresentam o menor rendimento médio da população, equivalente a 62,5% do rendimento médio do Brasil. Elas são seguidas pelas mulheres pretas/pardas (64,7%) e depois por homens pretos/pardos (78,1%). No outro extremo, situam-se os homens brancos/amarelos, com rendimento equivalente a 144,4% do rendimento médio do Brasil, sendo seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (113,2%), mostrando como o recorte por cor, raça ou etnia também é muito relevante no contexto da desigualdade de rendimentos no Brasil.

 

 

Gráfico 11: Rendimento médio relativo por sexo e cor ou raça, 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Nível de instrução

O gráfico 12 apresenta a comparação dos salários por nível de instrução. Como era de se esperar, o aumento no nível de instrução acarreta um aumento dos salários, porém, junto com esse aumento, o abismo da desigualdade entre gêneros também é reforçado com mais anos de estudo. Novamente, o rendimento médio do Brasil assume o valor base (igual a 100) e todos os demais rendimentos são comparados a ele. É possível notar que apenas as mulheres com ensino superior completo são capazes de ultrapassar o rendimento médio da população, chegando a 164,4% do rendimento médio do Brasil. Nos demais níveis de instrução o rendimento médio das mulheres está sempre abaixo ao da população, saindo de 38,2% para as mulheres sem instrução e chegando em 67,9% para aquelas com nível superior incompleto.

Os homens com nível superior incompleto já conseguem superar o rendimento médio do Brasil, chegando a 114,8%, mas, com nível superior completo, o salário médio dos homens representa mais do que duas vezes e meia o salário médio da população (259,8%). E é nesse ponto que a desigualdade entre os sexos apresenta sua característica mais visível. Enquanto as mulheres sem instrução conseguiram, no 3º trimestre de 2020, salários maiores do que os dos homens (elas ganham 103,8% dos salários dos homens), a diferença salarial cresce com o nível de escolaridade e, com ensino superior completo, elas atingem apenas 63,3% dos salários dos homens. Essa diferença de 36,7% dos salários mostra como é difícil para as mulheres, mesmo com o aumento da escolaridade, acessarem os cargos mais altos e com melhores remunerações.

Gráfico 12: Rendimento médio relativo por gênero e instrução, 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Cargo

Por fim, o gráfico 13 compara as diferenças de renda entre homens e mulheres de acordo com os cargos ocupados selecionados por serem mais representativos para a análise da desigualdade salarial.

Nota-se, a partir da análise do gráfico 13, que alguns cargos ultrapassam o rendimento médio do Brasil. São eles: Diretores e Gerentes, Profissionais das Ciências, Técnicos e Profissionais de Nível Médio, assim como os membros das Forças Armadas. Porém, nem todos esses cargos seguiram o mesmo padrão: os três primeiros apresentam uma grande desigualdade de rendimentos entre as mulheres e os homens, enquanto o último (membros das Forças Armadas) mostra rendimentos semelhantes entre mulheres e homens.

Os homens nos cargos de Diretores e Gerentes alcançam rendimento médio 3,4 vezes maior ao do Brasil (337,1%). Já as mulheres nos mesmos cargos ficam com 224,0%, ou seja, ganharam apenas 66,4% do rendimento dos homens. A situação se repete para os Profissionais da Ciência (as Mulheres ganharam 176,5% do rendimento médio da população, os Homens 281,6%, com elas ganhando 62,7% da remuneração média deles) e para os Técnicos e profissionais de Nível Médio (as Mulheres ganharam 105,9% do rendimento médio do Brasil, os Homens 140,3%, sendo o rendimento delas equivalente a 75,5% do rendimento deles).

O único cargo que costumava apresentar uma vantagem comparativa para as mulheres era o de membros das Forças Armadas, Policiais e Bombeiros. Todavia, no 3º trimestre de 2020, não é possível considerar uma diferença de rendimento entre os homens e mulheres. Os salários médios são praticamente os mesmos (206,9% para as mulheres e 206,8% para os homens).

Gráfico 13: Rendimento médio relativo por gênero e cargo, 3º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

 

Considerações Finais

Levando em conta os dados expostos neste boletim, pode-se dizer que, mesmo com alguns sinais de recuperação do nível de atividade econômica, os efeitos das crises econômica e sanitária ainda se fazem sentir no mercado de trabalho, em vários aspectos, até de forma mais profunda do que o trimestre anterior.

Em primeiro lugar, o país apresentou taxas de Desocupação e de Subutilização batendo recordes históricos, considerando os dados a partir do 1º trimestre de 2012, início das medições da PNAD Contínua.

Em seguida, foi possível observar, mais uma vez, resultados mais negativos para as mulheres do que para os homens. Os níveis de taxa de Desocupação e de Subutilização da Força de Trabalho mais elevados para as mulheres e que se ampliaram mais nesse período crítico do Brasil são evidências de uma inserção mais precária no mercado de trabalho.

Além disso, o retorno das mulheres para a força de trabalho, no período considerado, foi pífio, principalmente levando em conta a grande saída das mulheres do mercado de trabalho no 2o. Trimestre de 2020. O fato de as escolas e as creches permanecerem fechadas dificulta o retorno das mulheres para suas ocupações ou até mesmo para a busca de uma recolocação profissional. Assim, elas continuam, em grande parte, indisponíveis para o mercado de trabalho, declarando como principal motivo para o afastamento a necessidade de cuidar dos afazeres domésticos.

Por fim, vale salientar que o 3º trimestre de 2020 ainda não captou os efeitos da redução pela metade do auxílio emergencial fornecido pelo governo para o enfrentamento da crise sanitária. É possível que, no próximo trimestre, as taxas de desocupação e subutilização batam um novo recorde, por captarem o retorno pela busca de trabalho de muitas pessoas que ficarão incapacitadas de sustentar suas famílias sem esse importante apoio financeiro. Portanto, a dramaticidade das condições de trabalho e de formas de obtenção de rendimentos pelas mulheres tende ainda a aumentar para os próximos períodos se medidas compensatórias urgentes não forem implementadas no Brasil.

[1] O Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP divulga mensal e trimestralmente o Índice de Tendência Econômica – ITE/FACAMP, com correlação forte com o PIB trimestral. Para mais informações: https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/nec/ite-facamp-sinaliza-forte-recuperacao-do-pib-no-terceiro-trimestre/.

[2] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.

[3] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se, também, como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência.

[4] Vide Boletim MMT, volume 02, número 2. Disponível em https://faca.mp/npegen.

[5] Os motivos para as pessoas se classificarem nesse subgrupo estão expostos na Seção 4.

[6] De acordo com a estimativa de carry over do ITE/FACAMP, caso o quarto trimestre não apresente variações, o PIB terá uma contração de 4,1% ao ano frente a 2019.

[7] São classificadas como pessoas Subocupadas aquelas que trabalharam menos do que 40 horas semanais no seu único trabalho ou no seu conjunto de todos os seus trabalhos, gostariam de trabalhar mais horas do que as habitualmente trabalhadas e estavam disponíveis para trabalhar mais horas no período de 30 dias, contados a partir do primeiro dia da semana de referência.

[8] Apenas reforçando: diz-se Força de Trabalho Ampliada a soma das pessoas na Força de Trabalho (FT) com a Força de Trabalho Potencial (FTP).

[9] Utilizou-se aqui o rendimento médio habitualmente recebido. De acordo com o Glossário da PNAD Contínua, “O rendimento habitual consiste no rendimento recebido por empregados, empregadores e trabalhadores por conta própria, mensalmente, sem acréscimos extraordinários ou descontos esporádicos”.

 

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EXPEDIENTE

FACAMP Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen – Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP que repercute os resultados dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE.

 

FACAMP é uma faculdade privada com espírito público fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Com 100% de Mestres e Doutores, seu curso de Economia recebeu 5 estrelas do Guia do Estudante.

 

Núcleo de Pesquisa de Economia e Gênero da FACAMP

https://faca.mp/npegen

npegen@facamp.com.br

 

Pesquisadoras

Camila Veneo Campos Fonseca

Daniela Salomão Gorayeb

Georgia Christ Sarris

Juliana de Paula Filleti

Juliana Pinto de Moura Cajueiro

Maria Fernanda Cardoso de Melo

Tatiana de Amorim Maranhão

 

Como citar este Boletim:

NPEGen.  Mulheres no mercado de trabalho no 3º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 03, novembro de 2020.

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