Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Mulheres no mercado de trabalho – segundo trimestre de 2020

Introdução

O Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho (MMT) tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desde 2012, com a publicação da PNAD Contínua, o IBGE reformulou as estatísticas disponíveis para o mercado de trabalho, ampliando-as, tanto em termos de sua abrangência geográfica como em relação ao escopo de suas categorias.

Para os propósitos deste boletim – analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho –, algumas novas categorias são particularmente eloquentes: a subocupação da força de trabalho e a força de trabalho potencial. Esses dois subconjuntos capturam a precariedade do mercado de trabalho e a vulnerabilidade das pessoas que se encontram dentro ou fora dele – no primeiro caso, elas estão ocupadas, mas de forma precária; no segundo, elas se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo e necessidade – por desalento ou por indisponibilidade. Ao lado da desocupação, a subocupação e a força de trabalho potencial conformam uma outra nova categoria, a da subutilização da força de trabalho.

Na perspectiva do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP (NPEGen), para viabilizar a análise da situação de milhões de mulheres ocultas das categorias tradicionais e comumente divulgadas pela maior parte dos estudos sobre mercado de trabalho, é fundamental lançar um olhar mais atento a esses dados novos, ainda que tragam maior complexidade para a sua leitura e interpretação.

Com os dados do segundo trimestre de 2020, revelam-se informações importantes para a análise dos reflexos da crise econômica agravada pelos efeitos da pandemia, pois captam justamente o período de abril a junho, que foi o de maior dificuldade de mobilidade e de ajustes no mercado de trabalho. Nesse trimestre, a economia brasileira apresentou uma queda da atividade produtiva de 9,7% em relação ao trimestre anterior[1]. Pensando nisso, este boletim busca dar destaque aos movimentos mais excepcionais que ocorreram nesse contexto.

Sendo assim, o boletim está estruturado em 4 seções, além desta introdução e das considerações finais. Nas seções de 1 a 3, exibem-se os dados com algumas características da população na Força de Trabalho brasileira, bem como algumas do contingente que está Fora da Força de Trabalho. Na seção 4, apresentam-se os dados dos rendimentos, com diferentes recortes, ainda que guardando as diferenciações entre os sexos.

1. Composição da População em Idade Ativa, por sexo, no segundo trimestre de 2020

Esta seção é composta por 4 itens. No primeiro, é apresentado o número de pessoas das categorias da PIA no trimestre analisado, com as participações de mulheres e homens nessas categorias. No segundo item, exibem-se as variações percentuais do trimestre em relação ao anterior e ao mesmo trimestre do ano anterior dessas categorias. A composição da Força de Trabalho Potencial é apresentada no item 3. No último, estão discriminados os motivos alegados pelas pessoas para não estarem alocadas na Força de Trabalho.

1.1. População em Idade Ativa: participação, por sexo

A composição da População em Idade Ativa (PIA) – população com 14 anos ou mais de idade – está exibida no gráfico 1. Ela é subdividida em duas categorias: a população na Força de Trabalho (FT) – pessoas que estavam Ocupadas[2] ou Desocupadas[3] no período de referência da pesquisa – e a população Fora da Força de Trabalho (FFT) – pessoas em idade ativa que não estavam ocupadas ou desocupadas. As pessoas que estão Fora da Força de Trabalho estão subdivididas por sua vez em outras duas categorias: as pessoas na Força de Trabalho Potencial (FTP) e as pessoas Fora da Força de Trabalho Potencial (Fora da FTP).

Embora as mulheres sejam maioria na PIA (53,0%), nota-se uma menor representatividade delas na Força de Trabalho (44,4%) e na População Ocupada (43,5%) do que a dos homens (55,6% na FT e 56,5% na População Ocupada).

Sobre a População Desocupada, os dados do segundo trimestre de 2020 apresentam um resultado bem distinto dos trimestres anteriores. Desde o início das medições da PNAD Contínua, as mulheres representam a maioria das pessoas desocupadas, com taxas de participação variando entre 55,5% (no primeiro trimestre de 2012) e 50,1% (terceiro trimestre de 2016). No entanto, no segundo trimestre de 2020, os homens passaram a ser maioria na população desocupada (50,3%), com participação das mulheres em 49,7%. No primeiro trimestre de 2020, a participação feminina nos desocupados foi de 53,4%[4].

Quando se observam os dados da Força de Trabalho Potencial – uma parte da população Fora da Força de Trabalho que não estava ocupada nem desocupada na semana de referência, mas com potencial para se tornar Força de Trabalho, as Pessoas Indisponíveis e as Pessoas em Desalento[5] – nota-se uma redução da participação das mulheres em relação ao trimestre anterior, ainda que tenham continuado a ser a ampla maioria (57,6%).

Nas demais subdivisões da população na Força de Trabalho, é possível observar que as mulheres representaram a maioria em todas as categorias compatíveis com trabalho mais precário, tais como: Pessoas Subocupadas (53,6%) – pessoas de 14 anos ou mais que trabalhavam habitualmente menos de 40 horas semanais, estavam disponíveis e gostariam de trabalhar mais horas – e na Subutilização da Força de Trabalho – resultado consolidado das pessoas Subocupadas, Desocupadas e na Força de Trabalho Potencial – com 53,8%.

Dessa forma, com relação às participações nas categorias da População em Idade Ativa, a excepcionalidade do trimestre analisado se verifica no alto incremento dos homens na população desocupada, representando, pela primeira vez, a maioria desse conjunto.

 

Gráfico 1: Brasil – composição da População em Idade Ativa (PIA) – 1º trimestre de 2020

Brasil – composição da População em Idade Ativa (PIA) – 1º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

1.2. População em Idade Ativa: taxa de variação trimestral, por sexo

A paralisação de muitas atividades produtivas, a redução da circulação de pessoas e a queda dos rendimentos do trabalho no 2º trimestre determinaram movimentos substantivos da população brasileira no mercado de trabalho. Com a análise das variações dos números de pessoas nas categorias da PIA, pode-se visualizar esses movimentos bastante atípicos e, alguns, aparentemente contraditórios se articulados com o tamanho da crise econômica que se observou no Brasil nesse período.

Em primeiro lugar, há que se salientar a redução gigantesca de pessoas na Força de Trabalho brasileira: de um trimestre para o outro, saíram quase 9 milhões de pessoas da Força de Trabalho, das quais 4,5 milhões de mulheres e 4,3 milhões de homens. Na comparação com o trimestre anterior, isso representou queda de 9,7% para as Mulheres e de 7,5% para os Homens e, com o mesmo trimestre de 2019, observou-se uma redução de 10,9% para as Mulheres e de 8,1% para os Homens (tabela 1).

Para as mulheres, a redução na Força de Trabalho veio da queda do número de  Mulheres Ocupadas (-10,1% com relação ao 1º trimestre de 2020 e -11,8% com relação ao 2º trimestre de 2019), mas também da redução do número de Mulheres Desocupadas (-7,3%, comparado com o trimestre anterior, e -5,7%, comparado com o ano anterior).

A redução nas duas categorias componentes da Força de Trabalho (população ocupada e desocupada) indica um processo de migração das mulheres para fora da força de trabalho, passando a compor a Força de Trabalho Potencial – por desalento ou indisponibilidade – ou até mesmo para Fora da Força de Trabalho Potencial. Como será visto na próxima seção, esse é o motivo pelo qual a taxa de desocupação não aumentou tanto quanto se esperava neste momento de grave crise econômica. Muitas mulheres perderam suas ocupações (em torno de 4 milhões), mas, ao invés de serem adicionadas à categoria de desemprego, saíram da Força de Trabalho.

Ao analisar as categorias da Força de Trabalho Potencial, nota-se um aumento muito significativo das mulheres Indisponíveis (105,3% comparado com o primeiro trimestre de 2020 e 108,6% comparado com o segundo trimestre de 2019). Em número absolutos, esse aumento significou, aproximadamente, 2,5 milhões a mais de mulheres indisponíveis para o mercado de trabalho no período da pandemia, resultando, no total, em 4,7 milhões de mulheres. O número de mulheres desalentadas também apresentou um incremento importante (17,7% em relação ao 1º trimestre de 2020 e 13,6% em relação ao 2º trimestre de 2019), conformando um total de 3 milhões de mulheres.

Tabela 1: População em Idade Ativa, segundo sua composição e sexo – totais no 2º trimestre de 2020, taxas de variação (%) 2º trimestre 2020 versus 1º trimestre 2020 e versus 2º trimestre de 2019

Pessoas 2T2020 Variação (%)  2T2020/1T2020 Variação (%) 2T2020/2T2019
M H M H M H
População em Idade Ativa (PIA) 92.179.607 81.738.668 1,7 0,0 2,8 0,7
   Força de Trabalho (FT) 42.638.353 53.499.280 – 9,7 – 7,5 – 10,9 – 8,1
      Pessoas Ocupadas 36.275.004 47.072.108 – 10,1 – 9,2 – 11,8 – 9,8
         Pessoas Subocupadas 3.006.824 2.606.399 – 13,4 – 12,9 – 24,9 – 22,2
      Pessoas Desocupadas 6.363.349 6.427.172 – 7,3 7,3 – 5,7 6,8
   Fora da Força de Trabalho (FFT) 49.541.254 28.239.387 14,1 18,3 18,5 23,0
      Força de Trabalho Potencial (FTP) 7.800.369 5.741.506 59,0 69,0 57,1 73,0
         Indisponíveis 4.744.756 3.114.562 105,3 154,8 108,6 175,0
         Desalentados 3.055.613 2.626.943 17,7 20,8 13,6 20,1
   Fora da Força de Trabalho Potencial 41.740.884 22.497.881 8,4 9,9 13,3 14,6
  FT Subutilizada* 17.170.543 14.775.078 12,7 19,4 9,3 16,4

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen. *A FT subutilizada é composta pela soma das pessoas Subocupadas, Desocupadas e na Força de Trabalho Potencial.

O número de mulheres que não está na Força de Trabalho e também está Fora da Força de Trabalho Potencial é alto (41,7 milhões de mulheres) e aumentou consideravelmente no 2º trimestre de 2020 (8,4% em relação ao 1º trimestre e 13,3% em relação ao 2º trimestre de 2019). Esse incremento provavelmente decorre das mulheres que perderam seus espaços e possibilidades de trabalho, mas, de alguma forma – e aqui a contribuição do auxílio emergencial[6] parece ser a explicação mais plausível – puderam se sustentar nesse período sem precisar trabalhar ou procurar trabalho.

Para os homens, a redução na Força de Trabalho está associada à redução dos Homens Ocupados (-9,2% com relação ao 1º trimestre de 2020 e -9,8% com relação ao 2º trimestre de 2019), já que houve aumento dos Homens Desocupados (7,3% comparado com o trimestre anterior e 6,8% comparado com o ano anterior). Este é o motivo que levou a um aumento mais significativo da taxa de desocupação para os homens, pois houve um aumento do número absoluto de homens desocupados, acompanhado por uma queda da Força de Trabalho masculina. Mesmo assim, saliente-se que foram 4,8 milhões de homens que perderam suas ocupações e apenas 438 mil classificaram-se como desempregados. Ou seja, uma parte importante dos homens também migrou para Fora da Força de Trabalho (18,3% de aumento em relação ao 1º trimestre e 23,0% em relação ao 2º trimestre de 2019).

O incremento do número de homens nas categorias da Força de Trabalho Potencial também foi significativa, ainda que tenha sido, em números absolutos, menor do que a das mulheres (2,3 milhões a mais para os homens e 2,9 milhões a mais para as mulheres) e mantido uma participação bem inferior à das mulheres (42,4%).

Dentro da Força de Trabalho Potencial, houve um aumento substantivo dos homens na categoria Indisponíveis (154,8% comparado com o primeiro trimestre de 2020 e 175,0% comparado com o segundo trimestre de 2019). Vale salientar que, em número absolutos, este aumento significou, aproximadamente, 1,9 milhão a mais de homens indisponíveis para o mercado de trabalho no período da pandemia, enquanto o número de mulheres foi de 2,4 milhões. A taxa de variação dos homens foi maior do que a das mulheres por conta da base menor de homens indisponíveis nos períodos anteriores, conforme citado na seção anterior. Além da migração dos homens para a Força de Trabalho Potencial, registre-se que uma parte daqueles que saíram da Força de Trabalho foram para Fora da Força de Trabalho Potencial, ou seja, homens que não trabalharam ou não procuraram trabalho por não desejarem trabalhar naquele período (aumento de 9,9% em relação ao 1º trimestre de 2020 e 14,6% em relação ao segundo trimestre de 2019).

Uma das explicações para que esse imenso contingente de mulheres e homens que perderam suas atividades produtivas não se transformassem em uma massa ainda maior de desempregados foi a concessão do auxílio emergencial público, cujo objetivo foi o de fornecer um amparo monetário para as pessoas que teriam suas possibilidades de obtenção de renda bloqueadas pelo isolamento social e pela paralisação de algumas atividades. A ideia era a de que as pessoas, em posse do auxílio, pudessem se manter reclusas em suas casas, com segurança financeira para que não trabalhassem nas ruas ou circulassem à procura de trabalho.

Assim, a efetividade do auxílio emergencial poderia ser medida pelo número de pessoas que saíram da ocupação, da desocupação e da força de trabalho potencial e que tivessem entrado na categoria Fora da Força de Trabalho Potencial. Ou seja, para serem efetivamente protegidas da contaminação do vírus, sem que isso significasse desespero e fome, as pessoas, caso perdessem suas possibilidades de atividades produtivas (emprego ou por conta-própria), deveriam ter o direito de, temporariamente, mas efetivamente, saírem da força de trabalho. Isso significaria que elas parassem temporariamente de realizar esforços de buscar um emprego e não se sentissem pressionadas por sua indisponibilidade ou desalento.

Os dados mostram, no entanto, que o auxílio, embora de imensa importância para a manutenção da vida das pessoas, não foi plenamente efetivo. Afinal, tanto para homens como para mulheres, assistiu-se a uma forte elevação de pessoas que entraram na categoria de Força de Trabalho Potencial ao invés de irem, plenamente, para Fora da Força de Trabalho, por ocasião apenas das regras sanitárias de distanciamento social. Além disso, a redução do número de pessoas desocupadas (que só ocorreu com as mulheres) deveria  ter sido bem maior.

No caso das mulheres, como será evidenciado na seção 2.4., deve-se salientar que a principal razão de estarem Fora da Força de Trabalho foi o cuidado com afazeres domésticos, o que inclui o cuidado com seus dependentes. Como é sabido, as medidas sanitárias impediram as crianças e jovens de frequentarem escolas e recomendaram fortemente a proteção dos mais idosos e outros grupos vulneráveis. Dessa forma, o trabalho de cuidados, que sempre foi, infelizmente, uma responsabilidade quase exclusiva das mulheres, ganhou uma carga adicional de grande relevo (pela sua importância aos cuidados à manutenção da vida das pessoas, mas também pelo número de horas de trabalho extras que foram adicionadas aos trabalhos domésticos). Mais uma vez, se o auxílio emergencial tivesse alcançado as mulheres mais vulneráveis, teria impedido que houvesse um aumento de quase 60% de mulheres na Força de Trabalho Potencial, conforme a análise deste item evidenciou.

1.3.Força de Trabalho Potencial: Indisponibilidade e Desalento

Os efeitos da pandemia e da restrição de acesso ao mercado de trabalho gerada por ela são mais visíveis nos três próximos gráficos. O primeiro deles (gráfico 2), com o percentual de pessoas na Força de Trabalho Potencial no total da população Fora da Força de Trabalho, revela um movimento de saída do mercado de trabalho em direção à Força de Trabalho Potencial, com um aumento significativo desse percentual no último trimestre de 2020 para as três categorias analisadas. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior (Brasil 17,4 versus 12,3%, Mulheres 15,7 versus 11,3% e Homens 20,3 versus 14,2%), os homens sentiram muito mais esse movimento. Com relação ao mesmo trimestre do ano anterior, o aumento também foi significativo para as três categorias (Brasil 4,6 pontos percentuais de aumento, Mulheres +3,8 e Homens +5,8 p. p.).

Conforme já salientado anteriormente, as pessoas na Força de Trabalho Potencial não compõem a Força de Trabalho, mas possuem potencial para passarem a compor. Essas pessoas podem ser desalentadas, pessoas que desistiram de procurar emprego, ou podem estar indisponíveis para o mercado de trabalho, ainda que persista o desejo e necessidade de trabalhar. Desde o início da série histórica da PNAD Contínua, as mulheres sempre representaram a grande maioria das pessoas indisponíveis para o mercado de trabalho, principalmente por suas funções de cuidado nas relações domésticas, conforme será apresentado na seção 3.  Com a pandemia, os homens também passaram a compor de forma mais significativa a parcela de indisponíveis e, por este motivo, apresentaram variações maiores, como as apresentadas na tabela 1.

 

Gráfico 2: Percentual de pessoas na Força de Trabalho Potencial na População Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Os gráficos 3 e 4 mostram como a situação das pessoas fora da Força de Trabalho é bastante distinta entre os sexos. Neles, são apresentadas as relações entre as pessoas Desalentadas, na população Fora da Força de Trabalho e na Força de Trabalho Potencial. Sobre o percentual de pessoas Desalentadas em relação às pessoas Fora da Força de Trabalho, no gráfico 3, nota-se uma estabilidade para as três categorias analisadas, tanto na comparação com o trimestre anterior (Brasil 7,3 versus 7,1%, Mulheres 6,2 versus 6,0% e Homens 10,8 versus 10,9%) quanto na comparação com o mesmo trimestre do ano passado (Brasil 7,3 versus 7,5%, Mulheres 6,2 versus 6,4% e Homens 10,8 versus 11,7%). Levando em consideração que a Força de Trabalho Potencial está dividida entre as Pessoas Desalentadas e as Pessoas Indisponíveis, o gráfico 4 deixa muito claro o argumento apresentado anteriormente: os homens indisponíveis representavam menos de 20% da Força de Trabalho Potencial no segundo trimestre de 2019, visto que os desalentados eram 81%. A porcentagem de homens desalentados foi reduzida no primeiro trimestre de 2020 (76,4%), mas caiu de forma ainda mais dramática no segundo trimestre de 2020 (53,2%). De qualquer modo, o desalento ainda supera a indisponibilidade para os homens. O mesmo não pode ser dito sobre as mulheres, cuja porcentagem de indisponíveis já representava, no segundo trimestre de 2019, praticamente metade da Força de Trabalho Potencial, visto que as mulheres desalentadas representavam 54,2% da Força de Trabalho Potencial, e, no primeiro trimestre de 2020, 52,9%. Porém, a indisponibilidade passou a ter participação superior ao desalento no segundo trimestre de 2020 (60,8%, já que a participação do desalento para as mulheres caiu para 39,2%).

Gráfico 3: Percentual de pessoas Desalentadas na população Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Gráfico 4: Percentual de pessoas Desalentadas na população Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Mulheres no mercado de trabalho - Percentual de pessoas Desalentadas na população Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

1.4.Motivos para não estar na Força de Trabalho

Neste item, são apresentados os motivos que as pessoas declararam para não fazerem parte da Força de Trabalho nesse período.

Dentre os motivos considerados pelo IBGE, pela primeira vez na série histórica dos dados da PNAD Contínua, a resposta “outros motivos” está como um dos destaques, provavelmente por refletir as respostas das pessoas quanto às determinações governamentais para paralisação de algumas atividades ou aos empecilhos gerados pela pandemia. Como se pode notar no gráfico 5, 22,3% das pessoas estavam Fora da Força de Trabalho por “outros motivos”, 22,2% das pessoas se consideraram idosas ou jovens demais para trabalhar e 17,5% estavam cuidando dos afazeres domésticos.

Quando observadas as diferenças entre os sexos, é possível notar que 27,8% dos homens disseram estar Fora do Força de Trabalho por outros motivos, enquanto 23,6% eram considerados muito idosos ou muito jovens. Cuidar dos afazeres domésticos foi praticamente irrelevante para os homens, com apenas 1,9% deles estando fora da força de trabalho por esse motivo. Das mulheres nessas condições, as porcentagens se modificam substancialmente, afinal, 26,4% delas declararam não poder fazer parte da Força de Trabalho por cuidados dos afazeres domésticos. A seguir, 21,4% alegaram serem idosas ou jovens demais e 19,1% por outros motivos.

Registre-se também que a participação de mulheres que estão Fora da Força de Trabalho voluntariamente, ou seja, que declararam “não quer trabalhar” foi menor (8,4%) do que a dos homens (10,6%).

Como houve uma mudança importante nas justificativas para não estar na Força de Trabalho, faz-se necessário observar as variações dos motivos entre os trimestres, comparando com o trimestre imediatamente anterior e o mesmo trimestre do ano passado. A tabela 2 mostra com clareza que os motivos para as pessoas estarem Fora da Força de Trabalho no 2º trimestre de 2020 não apresentaram a mesma evolução entre os sexos.

No caso das mulheres, todos os motivos, exceto “não quer trabalhar” quando comparado com o 1º trimestre de 2020, cresceram. A justificativa que mais cresceu, como era de se esperar, foi “outro motivo”, sendo que a explicação mais provável para esse crescimento são as restrições impostas pelo enfrentamento à pandemia (110,0% comparado com o 1º trimestre de 2020 e 106% com o 2º trimestre de 2019). O aumento desse motivo também foi similar nas demais categorias analisadas (Brasil com 106,0% e Homens com 102,0% comparado como 1º trimestre de 2020 e Brasil com 105,0% e Homens com 102% comparados com o 2º trimestre de 2019). Mais mulheres também disseram estar Fora da Força de Trabalho por cuidarem dos afazeres domésticos (2,8% em relação ao trimestre anterior e 5,5% em relação ao ano anterior). Surpreendentemente, o número de homens que alegaram estar Fora da Força de Trabalho por conta de afazeres domésticos se reduziu nesse período (-5,1% comparado com o 1º trimestre de 2020 e -4,5% comparado com o 2º trimestre de 2019).

 

Gráfico 5: Motivos para não estar na Força de Trabalho no 2º trimestre de 2020 – participação em (%)

Motivos para não estar na Força de Trabalho no 2º trimestre de 2020 – participação em (%)

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Tabela 2: Pessoas fora da Força de Trabalho, segundo o motivo e sexo – taxas de variação (%) 2º trimestre 2020 versus 1º trimestre 2020 e versus 2º trimestre de 2019

Variação (%)

2T2020/1T2020

Variação (%)

2T2020/2T2019

BR M H BR M H
Cuidar dos Afazeres Domésticos 2,5 2,8 -5,1 5,1 5,5 -4,5
Estudar 1,0 1,5 0,4 1,4 3,7 -1,2
Problemas de saúde ou gravidez 1,8 1,6 2,2 5,0 4,8 5,2
Muito idoso ou muito jovem 7,3 8,5 5,4 10,0 9,4 10,9
Não quer trabalhar -3,3 -4,5 -1,6 21,5 23,1 19,4
Outro Motivo 106,0 110,0 102,0 105,0 106,0 102,0

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Outro elemento interessante extraído da tabela 2 é a redução, para todas as categorias analisadas, do número de pessoas que disseram estar Fora da Força de Trabalho por não quererem trabalhar, quando comparados com o 1º trimestre de 2020 (-3,3% para o Brasil, -4,5% para as mulheres e -1,6% para os homens), mas aumentaram quando comparadas com o 2º trimestre de 2019 (21,5% para o Brasil, 23,1% para as mulheres e 19,4% para os homens). Possivelmente, mais uma vez, supõe-se que contribuíram para explicar esse acréscimo o recebimento do auxílio emergencial e o desejo de se manter em quarentena para sua proteção e de seus dependentes, caso tenham tido possibilidades econômicas ou apoio familiar para tal.

Após analisar as categorias gerais que compõe a PIA, vejamos os dados relativos aos movimentos ocorridos na Força de Trabalho, a partir da análise das taxas de desocupação, subocupação e de subutilização.

Para o total do Brasil, a Taxa de Desocupação (número de pessoas Desocupadas em relação às pessoas na Força de Trabalho) foi superior, no 2º trimestre de 2020 (13,3%), à do 1º trimestre de 2020 (12,2%) e à do 2º trimestre de 2019 (12,0%). As taxas de desocupação desagregadas por sexo apresentaram comportamento similar, sendo que, para as mulheres, a taxa aumentou 0,4 ponto percentual com relação ao 1º trimestre de 2020 e 0,8 ponto percentual com relação ao mesmo trimestre de 2019. Como já observado, essa taxa aumentou não porque o número de mulheres desocupadas se elevou e sim porque a força de trabalho feminina diminuiu muito.

Para os homens, a elevação da desocupação foi mais significativa, 1,6 ponto percentual, quando comparado ao 1º trimestre de 2020, e de 1,7 ponto percentual quando comparada com o 2º trimestre de 2019. Nesse caso, a explicação está em um pequeno incremento da desocupação masculina e uma substantiva queda da sua força de trabalho.

Mesmo com os homens apresentando um aumento superior ao das mulheres, e considerando o fato de eles terem se tornado a maioria na população desocupada, o patamar da taxa de desocupação das mulheres (14,9%) ainda continuou mais elevado que o dos homens (12,0%), atingindo o maior patamar da série histórica.

Gráfico 6: Taxa (%) de Desocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Taxa (%) de Desocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

As Taxas de Subocupação[7] do Brasil, a das mulheres e a dos homens (gráfico 7) – representadas pelo percentual de pessoas Subocupadas em relação às pessoas na Força de Trabalho – ficaram praticamente estagnadas no 2º trimestre de 2020 quando comparadas ao 1º trimestre de 2020, mas com uma redução considerável quando comparadas ao 2º trimestre de 2019. A explicação dessa queda da taxa de subocupação também reside na saída das mulheres da Força de Trabalho. Novamente, ressalta-se o fato de a taxa de Subocupação das mulheres ter sido bem maior do que a dos homens (8,3 versus 5,5% no 2º trimestre de 2020).

Gráfico 7: Taxa (%) de Subocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Taxa (%) de Subocupação para o Brasil, Mulheres e Homens - 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Diferentemente das taxas de Subocupação, as taxas de Subutilização da Força de Trabalho (gráfico 8) do Brasil, das Mulheres e dos Homens – representadas pelo percentual de pessoas Desocupadas, Subocupadas e na Força de Trabalho Potencial, com relação à Força de Trabalho Ampliada[8] – apresentaram aumento substancial nas três categorias. No 2º trimestre de 2020, na comparação com o trimestre anterior, para o Brasil, observou-se uma taxa de 29,1 versus 24,4%; para as mulheres 34,0 versus 29,2% e para os homens, 24,9 versus 20,2%, sendo que a taxa de subutilização do trabalho das mulheres ultrapassou, pela primeira vez desde o início das medições da PNAD Contínua, o patamar dos 30%.

Como o aumento da taxa de Desocupação não foi tão grande e a taxa de Subocupação até se reduziu, pode-se afirmar que a taxa de Subutilização da Força de Trabalho se elevou principalmente em função do enorme contingente de pessoas, principalmente as mulheres, que foram para a categoria da Força de Trabalho Potencial.

Gráfico 8: Taxa (%) de Subutilização para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Taxa (%) de Subutilização para o Brasil, Mulheres e Homens – 2º trimestre de 2019, 1º trimestre de 2020 e 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

2. Posição na ocupação

Olhando para o movimento ocorrido com as Pessoas Ocupadas pelas posições na ocupação, é possível notar a queda generalizada em todas categorias não relacionadas aos serviços públicos. Independente do sexo, houve aumento, na comparação com o primeiro trimestre de 2020, apenas para os empregados do setor público com carteira (Brasil 3,9%, Mulheres 4,5% e Homens 3,2%), para os empregados do setor público sem carteira (Brasil 5,2%, Mulheres 6,3% e Homens 3,3%) e para os militares e servidores estatutários (Brasil 6,7%, Mulheres 8,7% e Homens 4,1%). 

Tabela 3: Pessoas ocupadas, segundo a posição na ocupação e o sexo – Taxa de variação (%) 2º trimestre de 2020 versus 2º trimestre de 2019

Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 30.154.009 12.263.714 17.890.295 – 8,9 – 9,5 – 8,5
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 8.638.688 2.783.855 5.854.833 – 21,6 – 22,8 – 21,1
TRAB. DOMÉSTICO CC 1.411.280 1.224.457 186.823 – 13,4 – 15,2 – 4,7
TRAB. DOMÉSTICO SC 3.302.865 3.088.398 214.467 – 23,7 – 23,8 – 23,5
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 1.250.892 703.788 547.104   3,9 4,5 3,2
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 2.462.979 1.570.654 892.325 5,2 6,3 3,3
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 8.646.474 4.921.224 3.725.250   6,7 8,7 4,1
EMPREGADOR (A) 3.955.123 1.163.480 2.791.643 – 9,8 – 10,8 – 9,4
CONTA PRÓPRIA 21.663.804 7.402.216 14.261.588 – 10,3 – 13,0 – 8,9
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 1.860.998 1.153.218 707.781 – 4,0 – 5,1 – 2,0
TOTAL 83.347.112 36.275.004 40.072.109 – 9,2 – 10,2 – 9,2

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

Todas as demais categorias apresentaram reduções em suas participações, mas as três categorias mais impactadas foram: empregado do setor privado sem carteira (Brasil -21,6%, Mulheres -22,8% e Homens -21,1%), trabalhador doméstico sem carteira (Brasil -23,7%, Mulheres -23,8% e Homens -23,5%), trabalhador doméstico com carteira (Brasil -13,4%, Mulheres -15,2% e Homens -4,7%) e conta própria (Brasil -10,3%, Mulheres -13,0% e Homens -8,9%). Assim, a maiores perdas foram concentradas na população empregada sem carteira assinada e nos conta própria, categorias que podem apresentar rendimentos baixos para muitas pessoas e sem proteção trabalhista.

Destaca-se o fato de o trabalho doméstico ser uma categoria composta praticamente por mulheres. Sendo assim, a variação percentual pode parecer muito similar na tabela apresentada entre homens e mulheres, mas a variação em termos absolutos significou que praticamente 1,2 milhão de mulheres perdeu seu posto de trabalho (1 milhão sem carteira e 0,2 milhão com carteira), ao passo que 75 mil homens foram dispensados nessas duas categorias.

Era esperada uma redução significativa para a categoria conta própria no contexto de redução de mobilidade da pandemia, representando uma redução de, aproximadamente, 2,5 milhões de pessoas nessa categoria, cerca de 28% das pessoas que saíram do mercado. As mulheres apresentaram uma redução maior do que a dos homens (-13,0% versus -8,9%). Além disso, cerca de 3 milhões de pessoas perderam o seu emprego com carteira assinada no setor privado, sendo 1,3 milhão de mulheres e 1,7 milhão de homens.

3. Rendimentos

As pessoas ocupadas no Brasil, no 2º trimestre de 2020, obtiveram, em média, um rendimento[9] de R$2.500,00 mantendo-se grandes desigualdades por sexo, cor ou raça, conforme registrado na Tabela 4.  Por exemplo, o maior rendimento médio observado foi entre os homens brancos (R$ 3.601,6) e o menor entre as mulheres indígenas e pretas/pardas (R$ 1.466,8 e R$1.617,4, respectivamente).

Tabela 4: Rendimento médio das pessoas ocupadas, segundo cor ou raça e o sexo – Valores do 2º trimestre de 2020 (em R$)

Brasil Mulheres Homens
Total 2.499,6 2.184,2 2.738,3
Brancos/Amarelos 3.223,6 2.759,6 3.601,6
Pretos/Pardos 1.839,6 1.617,4 1.996,5
Indígenas 1.884,4 1.466,8 2.202,1

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Cor ou raça

Aqui, as pessoas foram separadas de tal forma a apresentar, primeiramente, os rendimentos médios do Brasil (esta é a base 100), das mulheres e dos homens. Depois as pessoas foram separadas de acordo com a cor ou raça – brancos/amarelos, pretos/pardos e indígenas – e, também, pelo sexo.

Assim, é possível notar, a partir da observação do gráfico 9, que as mulheres indígenas apresentaram o menor rendimento médio da população, equivalente a 58,7% do rendimento médio do Brasil. Elas foram seguidas pelas mulheres pretas/pardas, com apenas 64,7% do rendimento médio da população e depois por homens pretos/pardos (73,6%). Já no outro extremo, situaram-se os homens brancos/amarelos, com um rendimento equivalente a 144,1% ao rendimento médio do Brasil, sendo seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (110,4%), mostrando como o recorte por cor, raça ou etnia também é muito relevante no contexto da desigualdade de rendimentos no Brasil.

 

Gráfico 9: Rendimento médio relativo por sexo e cor ou raça, 2º trimestre de 2020

Rendimento médio relativo por sexo e cor ou raça, 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Nível de instrução

O segundo gráfico comparativo de desigualdade de renda é o nível de instrução. É de se esperar que o aumento do nível de instrução acarrete um aumento nos rendimentos, porém o aumento da renda é acompanhado por aumento da desigualdade entre os sexos. Novamente, considera-se, no gráfico 10, o rendimento médio do Brasil como o valor de referência (com base igual a 100) e os demais rendimentos são comparados a esse de acordo com o nível de instrução e o sexo. É possível notar que apenas as mulheres com nível superior completo foram capazes de ultrapassar o rendimento médio da população, chegando a receber 160,9% do rendimento médio total. Porém, nos demais níveis de instrução, o rendimento médio das mulheres foi sempre inferior ao do total, saindo de 37,8% do rendimento médio do Brasil (para as mulheres sem instrução) e chegando em 69,2% da média brasileira com nível de instrução superior incompleto. Os homens conseguiram ultrapassar o rendimento médio do Brasil no ensino superior incompleto (111,7%). Contudo, a maior diferença aparece para o nível superior completo. Os homens receberam 259,6% da média da população, distanciando-se grandemente dos rendimentos femininos nessa categoria de instrução (160,9% da média brasileira).

Conforme salientado anteriormente, o gráfico também revela o crescimento da desigualdade de renda entre mulheres e homens de acordo com o aumento do nível de escolaridade. Afinal, as mulheres sem instrução auferiram cerca de 95,2% do rendimento dos homens na mesma categoria, enquanto as mulheres com nível superior completo receberam apenas 62,0% dos salários dos homens com a mesma instrução. Neste trimestre, foi possível notar uma redução da desigualdade para as pessoas sem instrução, comparando com os dados do trimestre anterior[10], quando a diferença era de 82,1% para pessoas sem instrução e de 61,9% para pessoas com ensino superior completo. Porém, não é possível afirmar se essa redução é uma diferença amostral dos dados da PNAD Contínua ou se pode ser considerada como um efeito da pandemia.

Gráfico 10: Rendimento médio relativo por gênero e instrução, no 2º trimestre de 2020

Rendimento médio relativo por sexo e cor ou raça, 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Cargo

Por fim, o gráfico 11 compara as diferenças de renda entre homens e mulheres de acordo com os cargos ocupados selecionados por serem mais representativos para a análise da desigualdade salarial.

Examinando o gráfico 11, nota-se que alguns cargos ultrapassam o rendimento médio do Brasil. São eles: Diretores e Gerentes, Profissionais da Ciência, os Técnicos e Profissionais de Nível Médio, assim como os membros das Forças Armadas. Porém, nem todos os cargos seguiram o mesmo padrão: os três primeiros apresentaram uma grande desigualdade de rendimentos entre as mulheres e os homens, enquanto o último apresentou desigualdade significativa, porém menor, com vantagem para as mulheres.

Os homens nos cargos de Diretores e Gerentes alcançaram rendimento médio 3,3 vezes maior ao do Brasil (328,1%). Já as mulheres nos mesmos cargos ficaram com 216,9% da média da população. Assim, para esses mesmos cargos de direção e gerência nas organizações, as mulheres receberam apenas 66,1% dos rendimentos dos homens. A situação é bem semelhante para os cargos de profissionais da ciência, cargos nos quais as mulheres ganharam 63,8% dos rendimentos dos homens. Seguindo linha similar, porém em situação parcialmente melhor, está a desigualdade para os técnicos e profissionais de nível médio, carreira na qual as mulheres auferiram rendimentos equivalentes a 72,9% do rendimento médio dos homens.

Gráfico 11: Rendimento médio relativo por gênero e cargo, no 2º trimestre de 2020

Rendimento médio relativo por gênero e cargo, no 2º trimestre de 2020

Fonte: Microdados PNAD contínua trimestral – IBGE. Elaboração NPEGen.

 

Repete-se no 2º trimestre de 2020 a mesma situação vista nos outros boletins: é no cargo das forças armadas que está a única situação em que as mulheres ultrapassaram os rendimentos dos homens (os rendimentos médios são 223,0% para as mulheres e 202,4% para os homens). Contudo, neste caso, ressalte-se a diferença menor entre os rendimentos de homens e mulheres (as mulheres ganham 110,2% do rendimento dos homens). Além disso, saliente-se a pequena participação das mulheres nesses cargos.

Considerações Finais

Levando em conta os dados expostos neste boletim, pode-se dizer que os efeitos da pandemia foram devastadores para o mercado de trabalho. A taxa de desocupação das mulheres e dos homens aumentou, mas não se verificou um aumento tão significativo quanto se poderia esperar para um país cuja atividade econômica, no período, se reduziu em torno de 10%. Ainda assim, registre-se que a taxa de desocupação das mulheres alcançou 15% da força de trabalho, a maior da série histórica.

Nesse trimestre analisado, evidenciou-se aqui que o movimento que mais se destacou foi o do crescimento do número de pessoas na Força de Trabalho Potencial, lançadas para as situações de indisponibilidade ou desalento, após perderem seus espaços de trabalho e de obtenção de renda com as medidas sanitárias de isolamento social e paralisação de alguns setores.

O auxílio emergencial direcionado às pessoas mais vulneráveis parece ter sido a principal explicação para que o número de desempregados(as) não explodisse nesse trimestre – já que quase 9 milhões de pessoas perderam suas ocupações. No entanto, a análise do conjunto de dados poderia indicar que a efetividade do auxílio não foi plena. O incremento do número de pessoas na Força de Trabalho Potencial foi dramático. As mulheres, em especial, foram as mais atingidas pela saída involuntária da força de trabalho, e muito provavelmente sem que o auxílio compensasse a perda repentina dos seus postos de trabalho e dos seus rendimentos. Ilustrativa a esse respeito é a taxa de subutilização da força de trabalho feminina, que atingiu o patamar de 34%, ou seja, 1 a cada 3 mulheres, com desejo e necessidade de trabalhar, estava na situação de desocupada, subocupada, desalentada ou indisponível ao trabalho. Além disso, é importante mencionar que o auxílio emergencial não esteve vinculado a outras políticas sociais fundamentais que poderiam ter ampliado seus efeitos e, nesse sentido, ficou nítido, por exemplo, a importância que as escolas e creches têm para tornar possível o trabalho remunerado das mulheres. O fechamento das escolas e creches também pode explicar a grande migração das mulheres para a Força de Trabalho Potencial, especialmente as indisponíveis.

Outro dado que se destaca é o incremento de mulheres que declararam não poder participar da Força de Trabalho do país por conta dos afazeres domésticos. Este número já era alto e se agigantou. Ao mesmo tempo, o número de homens que declararam o mesmo até diminuiu em relação a outros trimestres.

Dessa forma, parece não haver dúvidas de que um número expressivo de mulheres perdeu suas possibilidades de sustento, ampliaram a carga e a responsabilidade pelo trabalho doméstico não-remunerado e, com tudo isso, não receberam o apoio necessário para passarem por esse período dramático da história brasileira com segurança material para cuidarem de si e de seus dependentes.

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[1] De acordo com o IBGE, a queda do PIB em relação ao 2º trimestre de 2019 foi ainda maior, de 11,4% e foi a maior da série iniciada em 1996. Para maiores detalhes ver: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/28721-pib-cai-9-7-no-2-trimestre-de-2020.

[2] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.

[3] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se, também, como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência.

[4] Vide Boletim MMT, volume 02, número 1. Disponível em https://faca.mp/npegen.

[5] Os motivos para as pessoas se classificarem nesse subgrupo estão expostos na Seção 4.

[6] O Auxílio Emergencial é um benefício financeiro destinado a trabalhadores(as) informais, microempreendedores individuais (MEI) e autônomos(as) de baixa renda e desempregados(as), cujo objetivo é fornecer proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do Coronavírus – COVID 19. O valor do benefício foi R$ 600 para até duas pessoas da mesma família. O benefício foi pago, inicialmente, por três meses (de abril a junho) e prorrogado por mais dois meses (julho a agosto). Em setembro, foi aprovada nova prorrogação por quatro meses, contudo, o valor do benefício passou a ser menor, R$300,00.

[7] São classificadas como Pessoas Subocupadas aquelas que trabalharam menos do que 40 horas semanais no seu único trabalho ou no seu conjunto de todos os seus trabalhos, gostariam de trabalhar mais horas do que as habitualmente trabalhadas e estavam disponíveis para trabalhar mais horas no período de 30 dias, contados a partir do primeiro dia da semana de referência.

[8] Força de trabalho Ampliada corresponde à soma das pessoas na Força de Trabalho (FT) com as pessoas na Força de Trabalho Potencial (FTP)

[9] Utilizou-se aqui o rendimento médio habitualmente recebido. De acordo com o Glossário da PNAD contínua, “O rendimento habitual consiste no rendimento recebido por empregados, empregadores e trabalhadores por conta própria, mensalmente, sem acréscimos extraordinários ou descontos esporádicos”.

[10] Vide Boletim MMT, volume 02, número 01, março 2020.

 

EXPEDIENTE

FACAMP Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen – Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP que repercute os resultados dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE.

FACAMP é uma faculdade privada com fundada em 2000 por João Manuel Cardoso de Mello, Liana Aureliano, Luiz Gonzaga de Melo Belluzzo e Eduardo Rocha Azevedo. Com 100% de Mestres e Doutores, seu curso de Economia recebeu 5 estrelas do Guia do Estudante.

Núcleo de Pesquisa de Economia e Gênero da FACAMP

https://faca.mp/npegen

npegen@facamp.com.br

Pesquisadoras

Daniela Salomão Gorayeb, Georgia Christ Sarris, Juliana de Paula Filleti e Maria Fernanda Cardoso de Melo.

Como citar este Boletim:

SARRIS, Georgia C;  FILLETI, Juliana de P.; CARDOSO de MELO, Maria Fernanda; GORAYEB, Daniela S.;  Mulheres no mercado de trabalho no 2º trimestre de 2020. In FACAMP: Boletim NPEGen Mulheres no Mercado de Trabalho. Campinas: Editora FACAMP, volume 02, número 02, setembro de 2020.

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