Av. Alan Turing, nº 805 - Barão Geraldo – Campinas

Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho – 1º trimestre de 2021

Sumário executivo

O Boletim das Mulheres no Mercado de Trabalho é uma publicação trimestral do NPEGen com o objetivo de analisar os dados relativos à inserção das mulheres no mercado de trabalho, a partir dos microdados da PNAD contínua do IBGE.

Neste número são apresentados os dados referentes ao 1º trimestre de 2021. Ressalta-se que o ano de 2020 foi marcado por uma crise sanitária somada à crise econômica que vigorava desde 2015[1], de tal forma que o 1º trimestre de 2021 ainda reflete os efeitos gerados pelo contexto socioeconômico particular. Os destaques deste número foram:

  • O número de desocupados atingiu seu ápice desde o início da série história da PNAD contínua (no 1º trimestre de 2012), sendo puxado pelo maior número de mulheres desocupadas. A taxa de desocupação total foi de 14,7% e para as mulheres foi de 17,9%;
  • As mulheres foram a maioria na desocupação (54,5%), na subocupação (54,5%) e na subutilização da força de trabalho ampliada (56,4%), mostrando que a sua inserção no mercado de trabalho foi mais precária do que a dos demais grupos considerados;
  • As mulheres indisponíveis aumentaram 53% em relação ao 1º trimestre de 2020 (1,2 milhão de mulheres);
  • As mulheres subutilizadas aumentaram em 22,8% em relação ao 1º trimestre de 2020 (3,48 milhões de mulheres). E a taxa de subutilização atinge 29,7%, para o total do Brasil, e 36%, para o caso das mulheres, representando 11,8 p. p. a mais que a dos homens e um recorde desde o início da série histórica (cuja média foi de 23,9%);
  • A desigualdade salarial de gênero se verifica mesmo com o aumento da escolaridade ou do cargo ocupado. A única situação na qual as mulheres auferem rendas maiores que a média do Brasil, mas que ainda assim ganham menos do que os homens e com uma diferença salarial ainda mais expressiva frente as demais categorias, são as que possuem ensino superior completo. E as únicas que recebem rendimentos superiores às dos homens são aquelas que estão ocupadas nas forças armadas.

Diante desse cenário de extrema desigualdade e vulnerabilidade, é preciso apoiar a formulação de políticas públicas para mitigar a situação precária em que a maior parte das mulheres se encontra e, para tanto, faz-se necessário estimular mais pesquisas para compreender o fenômeno estrutural e conjuntural dessa desigualdade assombrosa.

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Introdução

O Boletim Mulheres no Mercado de Trabalho (MMT) tem por objetivo a apresentação e análise dos dados trimestrais da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com foco na participação da mulher.

Desde 2012, com a publicação da PNAD Contínua, o IBGE reformulou as estatísticas disponíveis para o mercado de trabalho, ampliando-as, tanto em termos de sua abrangência geográfica como em relação ao escopo de suas categorias.

Para os propósitos deste boletim – analisar a situação das mulheres no mercado de trabalho –, algumas novas categorias são particularmente eloquentes: a subocupação da força de trabalho e a força de trabalho potencial. Esses dois subconjuntos capturam a precariedade do mercado de trabalho e a vulnerabilidade das pessoas que se encontram dentro ou fora dele – no primeiro caso, elas estão ocupadas, mas de forma precária; no segundo, elas se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo e necessidade – por desalento ou por indisponibilidade. Ao lado da desocupação, a subocupação e a força de trabalho potencial conformam uma outra nova categoria, a da subutilização da força de trabalho.

Na perspectiva do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero da FACAMP (NPEGen), para viabilizar a análise da situação de milhões de mulheres ocultas das categorias tradicionais e comumente divulgadas pela maior parte dos estudos sobre mercado de trabalho, é fundamental lançar um olhar mais atento a esses dados novos, ainda que tragam maior complexidade para a sua leitura e interpretação.

Os dados do 1º trimestre de 2021 revelam que o mercado de trabalho brasileiro atravessa a sua mais forte crise, com a taxa de desemprego atingindo seu nível mais alto na série iniciada na PNAD Contínua em 2012 (14,7%). O 1º trimestre de 2021 representa, ao mesmo tempo, uma continuidade e um aprofundamento da crise econômica que se prolonga desde 2015 e que fora intensificada no ano de 2020 diante da adoção necessária de restrições sanitárias forçadas com impacto sobre o nível de atividades e de circulação das pessoas.

Sendo assim, o boletim está estruturado em 4 seções, além desta introdução e das considerações finais. Nas seções de 1 a 3, exibem-se os dados com algumas características da população na Força de Trabalho brasileira, bem como algumas do contingente que está Fora da Força de Trabalho. Na seção 4, apresentam-se os dados dos rendimentos, com diferentes recortes, ainda que guardando as diferenciações entre os sexos.

1.             COMPOSIÇÃO E VARIAÇÃO (%) DA POPULAÇÃO EM IDADE ATIVA (PIA) E DE SUAS CATEGORIAS

Esta seção é composta por 4 itens. No primeiro, é apresentado o número de pessoas das categorias da PIA no trimestre analisado, com as participações de mulheres e homens nessas categorias. No segundo item, exibem-se as variações percentuais do trimestre analisado em relação ao trimestre anterior e em relação ao mesmo trimestre do ano anterior dessas categorias. A composição da Força de Trabalho Potencial é apresentada no item 3. No último item, estão discriminados os motivos alegados pelas pessoas para não estarem na Força de Trabalho brasileira no 1º trimestre de 2021.

1.1.        Composição da população em idade ativa (PIA) no 1 de 2021

A composição da População em Idade Ativa (PIA)[2] está exibida no gráfico 1. Há duas subdivisões da PIA: a população na Força de Trabalho (FT) – pessoas que estavam Ocupadas[3] ou Desocupadas[4] no período de referência da pesquisa – e a população Fora da Força de Trabalho (FFT) ­– pessoas que não estavam ocupadas ou desocupadas na semana de referência da pesquisa. As pessoas que estão Fora da Força de Trabalho estão subdivididas, por sua vez, em outras duas categorias: as pessoas na Força de Trabalho Potencial (FTP) e as pessoas Fora da Força de Trabalho Potencial (Fora da FFTP).

Gráfico 1: Brasil – Composição da População em Idade Ativa (PIA) – 1º trimestre de 2021 (em mil pessoas)

As mulheres foram a maioria na PIA (53,3%), mas tiveram menor representatividade na Força de Trabalho (44,9%) e na População Ocupada (43,3%) comparada com a dos homens (55,1% na FT e 56,7% na População Ocupada). Apesar dessa menor representatividade na FT, as mulheres foram a maioria da População Desocupada, 54,5% no 1º trimestre de 2021; assim como da População Subocupada – pessoas de 14 anos ou mais que trabalhavam habitualmente menos de 40 horas semanais e que estavam disponíveis e gostariam de trabalhar mais horas –, 54,5% no mesmo período

Elas também apareceram como maioria para todas as categorias que evidenciam a maior vulnerabilidade das mulheres no mercado de trabalho. Elas estavam em maior proporção entre as pessoas Fora da Força de Trabalho (64,2%), assim como eram maioria da Força de Trabalho Potencial (FTP), formada por uma parte da população fora da força de trabalho que não estava ocupada nem desocupada na semana de referência, mas com potencial para se tornar força de trabalho (Pessoas Indisponíveis e Pessoas em Desalento)[5] – notou-se que as mulheres continuaram sendo a ampla maioria nestas categorias, representando 59,9% da FTP, 65,5% das Pessoas Indisponíveis e 54,9% das Pessoas em Desalento. Entre aqueles que estavam Fora da Força de Trabalho Potencial (FFTP), as mulheres representaram 64,9% do total delas.

Outra categoria que sintetiza o conjunto de posições vinculadas à inserção mais precária no mercado de trabalho é o da Subutilização da Força de Trabalho – resultado consolidado das pessoas Subocupadas, Desocupadas e na Força de Trabalho Potencial – que também foi mais elevada para as mulheres (56,4%).

1.2.        Taxa de variação (%) da composição da População em Idade Ativa (PIA)

Neste item são apresentadas as variações observadas pelas categorias, primeiro com a comparação com o mesmo trimestre do ano anterior e, no próximo subitem, na comparação com o trimestre imediatamente anterior.

Dando sequência a análise da versão anterior do boletim do 4º trimestre de 2020 e como será visto com mais detalhe logo a frente, houve uma reversão do movimento que apontava para um retorno de pessoas ao mercado de trabalho e uma piora em relação ao 1º trimestre de 2020.

1.2.1.    1º trimestre de 2021 versus 1º trimestre de 2020

A comparação do 1º trimestre de 2021 com o 1º trimestre de 2020 (tabela 1) revela que as dificuldades impostas pelo desafio de combater a pandemia se impuseram com força e se somaram à redução da capacidade de geração de empregos vivida pela economia brasileira desde antes da paralisação das atividades econômicas ocorrida a partir de meados de março de 2020, o que levou ao maior número de pessoas desocupadas e à maior taxa de desemprego de todos os trimestres da série histórica do IBGE, iniciada em 2012 – 14,7%. As mulheres continuam sendo as mais afetadas, como será mostrado a seguir.

Considerando um período em que a economia esteve sob os efeitos de medidas necessárias de restrição sanitária que ocasionaram uma redução do nível de atividade econômica, intensificadas e prolongadas com o agravamento decorrente das dificuldades na condução da política pública no combate à pandemia, notou-se a deterioração do quadro no mercado de trabalho brasileiro. Houve redução na força de trabalho (-4,4% tanto de mulheres quanto de homens), equivalendo a 2,1 milhões de mulheres e 2,5 milhões de homens a menos. Notou-se também uma diminuição das ocupações (-3,3 milhões tanto para mulheres quanto para homens), o que, devido a sua participação relativa, representou maior variação no caso das mulheres (-8,1% e -6,3% para homens).

Outro aspecto observado ao longo do ano foi o aumento de 10,4% no número de mulheres subocupadas (+361 mil) e de 6,8% no caso dos homens (+204 mil), o que reforça e evidencia a maior vulnerabilidade dos vínculos das mulheres no mercado de trabalho. A desocupação também cresceu mais entre as mulheres (+17,6%, ou +1,2 milhão de mulheres) que não estavam trabalhando, embora tenham tentado encontrar trabalho e estivessem disponíveis para assumir uma vaga caso encontrassem.  Essa variação foi menor para os homens (+12,5% ou +746 mil homens), embora também tenha indicado um aumento no número de desocupados.

Apesar da variação das pessoas FFT ter sido superior para os homens (+14,8% para eles, +13,1% para elas), as mulheres eram a maioria no total de pessoas nessa categoria, e esse aumento significou 5,7 milhões de mulheres e 3,5 milhões de homens a mais FFT. Considerando as duas categorias que compõem a FFT, as variações foram: aumento de 1,9 milhão para mulheres na FTP (+38,8%) e +3,7 milhões para fora da FTP (+9,8%); 1,2 milhão de homens na FTP (+34,1%) e 2,4 milhões para fora da FTP (+11,6%).

O aumento das pessoas FFT foi decorrente do agravamento da crise sanitária no 1º trimestre de 2021, que aprofundou as dificuldades para a retomada da participação de parcela da população no mercado de trabalho. A lentidão na retomada das atividades econômicas reduziu as oportunidades de trabalho, e o descontrole no combate à pandemia e no processo de vacinação mantiveram creches e escolas com funcionamento limitados, exigindo que novas fases de restrições ao funcionamento da economia e prolongando o tempo de isolamento social.

Com isso, os níveis de indisponibilidade e desalento, diante da baixa capacidade de recuperação da empregabilidade, permaneceram em um patamar elevado. A indisponibilidade manteve forte crescimento no período entre o 1º trimestre de 2021 e o 1º trimestre de 2020, aumentando em 1,2 milhão de mulheres (+53%) e 638 mil homens (+52,2%) nessa condição. Vale salientar que, embora a variação relativa seja parecida para mulheres e homens, as mulheres estão em maior número na indisponibilidade, refletindo as dificuldades para saírem desta condição quando, diante da conjuntura imposta pela crise pandêmica (tais como a redução ou até extinção das redes de apoio, creches e escolas) inviabilizando a essas mulheres assumir vagas, caso as encontrassem.

Observou-se também um aumento das pessoas desalentadas entre o 1º trimestre de 2020 e o 1º trimestre de 2021. Um aumento de 681 mil mulheres (+26,2%) e 518 mil homens a mais (+23,8) entre pessoas que gostariam de trabalhar e estariam disponíveis, porém acabaram desistindo de procurar emprego por acharem que não encontrariam colocação diante continuidade da crise econômica e das restrições sanitárias.

Quando analisada a subutilização da força de trabalho ampliada (categoria que reúne as pessoas subocupadas, as desocupadas e aquelas na força de trabalho potencial), são mais 3,48 milhões de mulheres (+22,8%) e aumento de 2,1 milhões para os homens (+17%), sendo que o aumento foi maior no caso das mulheres em todas as categorias que compõem a subutilização.

Tabela 1: População em Idade Ativa, segundo sua composição e sexo, no 1º trimestre de 2021 (em mil pessoas), taxas de variação (%) do 1º trimestre 2021 versus 4º trimestre de 2020 e versus 1º trimestre de 2020

1º trim. 2021

(em mil pessoas)

1º trim. 2021 versus 4º trim. 2020 1º trim. 2021 versus 1º trim. 2020
M H M H M H
População em Idade Ativa (A + B) 94.230 82.708 0,5 0,2 4,0 1,2
 A. Força de Trabalho (A.1 + A.2) 45.145 55.310 0,7 0,1 -4,4 -4,4
  A.1 Pessoas ocupadas 37.074 48.576 -1,1 -0,2 -8,1 -6,3
   A.1.1 Pessoas subocupadas 3.834 3.198 3,7 3,4 10,4 6,8
  A.2 Pessoas desocupadas 8.071 6.734 9,5 2,7 17,6 12,5
 B. Fora da Força de Trabalho (B.1 + B.2) 49.085 27.398 0,3 0,3 13,1 14,8
  B.1 Força de Trabalho Potencial (B.1.1 +B.1.2) 6.812 4.553 -0,4 1,7 38,8 34,1
   B.1.1 Indisponíveis 3.535 1.861 -2,2 -2,6 53,0 52,2
   B1.2 Desalentados 3.277 2.692 1,7 5,0 26,2 23,8
  B.2 Fora da Força de Trabalho Potencial 42.273 22.844 0,4 0,0 9,8 11,6
Força de trabalho ampliada (A + B.1) 51.957 59.863 0,5 0,2 -0,3 -2,3
FT Subutilizada 18.717 14.485 4,5 2,6 22,8 17,0

Fonte: Microdados da PNAD Contínua Trimestral – IBGE. Elaboração: NPEGen.

1.2.2.    1º trimestre de 2021 versus 4º trimestre de 2020

Na comparação do 1º trimestre de 2021 com o trimestre imediatamente anterior (tabela 1), nota-se um pequeno aumento da força de trabalho de 0,7% para as mulheres e 0,1% para os homens, indicando uma baixa capacidade de retomada do mercado de trabalho quando comparada ao trimestre anterior. Os números mostram que, embora tenha ocorrido algum aumento da FT, o número de pessoas ocupadas se reduziu e aumentou mais fortemente o de pessoas desocupadas. O número de mulheres ocupadas reduziu 1,1% (equivalendo a menos 409 mil mulheres ocupadas no mercado de trabalho) e o número de desocupadas aumentou 9,5% (+701 mil desocupadas), enquanto, para os homens, a redução dos ocupados foi de 0,2% (-120 mil) e um aumento de 2,7% entre os desocupados (+179 mil homens desocupados).

Além do aumento das pessoas desocupadas, observou-se também elevação da participação das mulheres subocupadas (+3,7%, o que significou +136 mil mulheres subocupadas), assim como a dos homens (+3,4%, ou seja, +106 mil homens subocupados).

Esses números mostraram que a retração do mercado de trabalho neste primeiro trimestre de 2021 penalizou mais as mulheres, que, mesmo diante de algum crescimento na força de trabalho, sofreram maior redução entre as pessoas ocupadas, acompanhada de maior aumento da subocupação e crescimento mais significativo entre as pessoas desocupadas.

Com relação à FTP, notou-se uma redução da participação das mulheres nessa categoria (-0,4%), puxada pela saída das mulheres da indisponibilidade (-2,2%), mesmo com aumento do desalento (+1,7%), enquanto houve um aumento dos homens nessa condição (+1,7%), com maior crescimento do número de desalentados, mais 5,0% e redução dos indisponíveis (-2,6%).

Com esse cenário, aumentou o número de pessoas subutilizadas (categoria composta pela população subocupada, desocupada e pela força de trabalho potencial), com mais 1,2 milhão de pessoas (+3,7%). O aumento na subutilização foi mais forte no caso das mulheres (+4,5%) equivalendo a mais 809 mil mulheres, aumento influenciado pelo crescimento nos números de mulheres desalentadas, subocupadas e desocupadas. Para os homens, o crescimento na subutilização foi menor, de mais 2,6% (362 mil homens a mais), que resultou do aumento do número de homens nas três categorias que compõem a subutilização.

1.3.        Força de Trabalho Potencial: Desalento e Indisponibilidade

No 1º trimestre de 2021 não se observou mudança significativa quando comparado ao que se tem observado desde o início da crise sanitária, com um aumento das categorias de indisponibilidade e desalento, ou seja, da força de trabalho potencial. Isso significa que aumentou o número de pessoas com potencial para trabalhar, pois desejam e precisam encontrar um posto de trabalho, mas sem conseguirem compor a força de trabalho. Os próximos três gráficos evidenciam que a recuperação do mercado de trabalho ainda se mostrou lenta e insuficiente no 1º trimestre de 2021.

Gráfico 2: Percentual de Pessoas da Força de Trabalho Potencial na População Fora da Força de Trabalho para o Brasil, Mulheres e Homens – 1º trimestre de 2020, 4º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

O gráfico 2 apresenta o percentual de pessoas da força de trabalho potencial na população fora da força de trabalho para o Brasil, mulheres e homens. É possível notar que a participação da FTP para o 1º trimestre de 2021 permaneceu praticamente inalterada, para as três categorias sob análise, com variações muito pequenas quando comparadas com o 4º trimestre de 2020 (Brasil 14,9% versus 14,8%, mulheres 13,9% versus 14,0% e homens 16,6% versus 16,4%, respectivamente), mas, com percentuais superiores aos do 1º trimestre de 2020 (Brasil 2,6 pontos percentuais de aumento, mulheres +2,6 p. p. e homens +2,4 p .p.).

Os próximos gráficos, 3 e 4, têm a função de apresentar a participação do desalento e da indisponibilidade na composição da força de trabalho potencial, para o Brasil, mulheres e homens. Nos gráficos é possível verificar que, no 1º trimestre de 2020, a indisponibilidade não representava a maioria das pessoas na força de trabalho potencial em nenhum dos grupos (Brasil, mulheres e homens), em especial entre os homens, com 36% que se consideravam indisponíveis e 64% eram desalentados.

No mesmo período, no Brasil, eram 42,6% de pessoas indisponíveis na FTP e 57,4% de desalentados, assim como eram 47,1% de mulheres indisponíveis e 52,9% de desalentadas. Essa situação se manteve, tanto para Brasil como para os homens, nos outros períodos em análise. Contudo, no caso das mulheres, a redução ou a eliminação da estrutura e da rede de apoio no cuidado com a casa, os filhos e a família e a decorrente responsabilização sobre as mulheres, acarretou no aumento da sua indisponibilidade.

Portanto, a comparação desse quadro entre mulheres e homens é distinta durante a pandemia. Para o Brasil, no 4º trimestre de 2020, os indisponíveis eram 48,8% das pessoas na FTP, enquanto os desalentados representavam 51,2%; e no 1º trimestre de 2021, 47,5% estavam na indisponibilidade e 52,5% entre os desalentos. Entre os homens na FTP, eram 42,7% de indisponíveis e 57,3% de desalentados no 4º trimestre de 2020, o que segue sem muitas modificações no 1º trimestre de 2021, com 40,9% dos homens na indisponibilidade e 59,1% de homens desalentados.

Gráfico 3: Percentual de Pessoas Desalentadas na Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 1º trimestre de 2020, 4º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

Gráfico 4: Percentual de Pessoas Indisponíveis na Força de Trabalho Potencial para o Brasil, Mulheres e Homens – 1º trimestre de 2020, 4º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

Já para as mulheres, o aumento da indisponibilidade passou a corresponder a maior parte da FTP, situação que se verificou no 4º trimestre de 2020, e não se alterou no 1º trimestre de 2021. É possível notar uma pequena redução da participação da indisponibilidade das mulheres na FTP no 1º trimestre de 2021 com relação ao trimestre anterior (-1,0 p. p. passando de 52,9% para 51,9%), com um aumento equivalente da participação das mulheres desalentadas (de 47,1% para 48,1%, respectivamente). De todo modo, na comparação com o 1º trimestre de 2020, a participação das mulheres indisponíveis na FTP aumentou, de 47,1% para 51,9%, reforçando a presença de mais mulheres entre as pessoas indisponíveis, com uma redução entre as desalentadas, cuja participação foi reduzida em 4,8 p. p. (as mulheres desalentadas passaram de 52,9% para 48,1% na FTP).

2.             MOTIVOS PARA NÃO ESTAR NA FORÇA DE TRABALHO

O gráfico 5 apresenta os motivos declarados pelos entrevistados para estarem fora da força de trabalho no 1º trimestre de 2021. As respostas dos homens e das mulheres diferem de forma significativa como se observa a seguir.

Gráfico 5: Motivos para não estar na Força de Trabalho – 1º trimestre de 2021

Para as mulheres, o principal motivo para estar fora do mercado de trabalho alegado foi o cuidado com os afazeres domésticos (25,9%), seguido por ser muito idosa ou muito jovem (24,2%), outro motivo (15,9%), problemas de saúde e gravidez (13,7%), estudar (11,4%) e, finalmente, por não querer trabalhar (8,9%). Apesar de cuidar dos afazeres domésticos sempre figurar como principal motivo para as mulheres não estarem no mercado de trabalho, certamente, a crise sanitária agravou essa situação.

No caso dos homens, o principal motivo alegado para não estar no mercado de trabalho foi o de ser considerado muito idoso ou muito jovem para trabalhar (28,0%), seguido por outro motivo (22,0%), problemas de saúde (18,6%), estudar (18,8%), não querer trabalhar (10,7%) e, apenas em último lugar, cuidar dos afazeres domésticos (1,9%) – na representatividade e hierarquia completamente oposta à da mulher, ou seja, enquanto para a mulher este é o principal motivo, para o homem é o último na sua lista.

É importante destacar que os motivos que podem estar atrelados à pandemia – problemas de saúde (e gravidez) e outros motivos –, fora a questão dos cuidados domésticos e dos dependentes, seguem neste trimestre como relevantes para o Brasil, os homens e as mulheres, conforme pode ser observado no gráfico.

3.             TAXAS (%) DE DESOCUPAÇÃO, SUBOCUPAÇÃO E SUBUTILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO AMPLIADA

Após analisar as categorias que compõem a PIA, são apresentados os dados relativos aos movimentos ocorridos no mercado de trabalho, a partir da análise das taxas de desocupação, subocupação e subutilização, apresentadas nos gráficos 6, 7 e 8. A importância da análise das taxas está na relativização com o total de cada um dos grupos analisados, Brasil, mulheres e homens.

As taxas de desocupação[6] do Brasil, das Mulheres e dos Homens (gráfico 6) apresentaram elevação no 1º trimestre de 2021 quando comparadas com o 4º trimestre de 2020 e o 1º trimestre de 2020. Pode-se observar a seguinte elevação das taxas de desocupação para o Brasil, as mulheres e os homens, no 1º trimestre de 2021 com relação ao 4º trimestre de 2020: para o Brasil passou de 13,9% para 14,7% (+0,8 p. p.); para as mulheres de 16,4% para 17,9% (+1,5 p. p.), e, para os homens, uma elevação de 11,9% para 12,2% (+0,3 p. p.), a menor comparada aos outros dois grupos.

Na comparação do 1º trimestre de 2021 contra o mesmo trimestre do ano anterior, as taxas de desocupação permaneceram elevadas, resultado de um ano em que se partiu de um patamar já elevado (Brasil 12,2%; mulheres 14,5%; homens 10,4%) ,  e que se sustentou ao longo do período, com destaque para o crescimento maior  para as mulheres (Brasil +2,5 p. p., mulheres +3,4 p. p. e homens +1,8 p. p.).

Notou-se também que, em todos os períodos analisados, a taxa de desocupação das mulheres foi superior à dos homens. As mulheres foram as que mais sentiram a crise que se instalou no mercado de trabalho, sendo o grupo em que se verificou o maior crescimento da desocupação, tanto em relação ao 4º trimestre de 2020, quanto em relação ao 1º trimestre do mesmo ano. Além disso, o aumento foi maior que o dos homens nos dois períodos analisados, como já fora apontado, em um momento em que a economia atingiu a sua maior taxa e o maior contingente de desocupados de todos os trimestres da série histórica, desde 2012.

Gráfico 6: Taxa (%) de Desocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 1º trimestre de 2020, 4º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

As taxas de subocupação[7] do Brasil, das Mulheres e dos Homens aparecem no gráfico 7. A taxa de subocupação é um importante indicador da precariedade do mercado de trabalho, pois revela o contingente de pessoas que conseguiram trabalhar por um período na semana de referência, mas não conseguiram ocupar 40 horas semanais e, assim, trabalharam menos do que gostariam. Os números para a taxa de subocupação do Brasil, das mulheres e dos homens – representadas pelo número de pessoas subocupadas em relação às pessoas ocupadas – mostram, para os três níveis de análise, o aumento da taxa de subocupação no 1º trimestre de 2021 em relação aos dois períodos de comparação. Para o Brasil, observou-se um aumento de 0,3 p. p. em relação ao 4º trimestre de 2020 (passando de 7,9% para 8,2%) e de +1,2 p. p. em relação ao 1º trimestre de 2020 (partindo de 7,0%).

Gráfico 7: Taxa (%) de Subocupação para o Brasil, Mulheres e Homens – 1º trimestre de 2020, 4º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

O comportamento da taxa desagregada por sexo seguiu o mesmo padrão do Brasil, mas com um pouco mais de intensidade e representatividade para as mulheres. No caso delas, a taxa de subocupação aumentou em 0,4 p. p., sendo de 10,3%, no 1º trimestre de 2021, contra 9,9% no 4º trimestre de 2020; e um aumento de +1,7 p. p. e partindo de 8,6% em relação ao 1º trimestre de 2020. No caso dos homens, a taxa foi de 6,6% no 1º trimestre de 2021, +0,2 p. p. em comparação com o 4º trimestre de 2020 (cuja taxa foi de 6,4%) e +0,8 p. p. em relação ao 1º trimestre de 2020 (quando partiu de 5,8%).

Destaque deve ser dado para a alta no total de pessoas subutilizadas, que reúne as pessoas consideradas desocupadas, subocupadas e aquelas na força de trabalho potencial (gráfico 8), e a correspondente  taxa de subutilização da força de trabalho ampliada – representada pela razão entre a subutilização do trabalho  e a força de trabalho ampliada[8] – cujo aumento em relação aos dois períodos de referência  evidenciou a dificuldade de retorno ao mercado de trabalho e a deterioração das condições  de recuperação de postos de trabalho. Para completar a situação precária no mercado de trabalho, a esses resultados se somam a queda do número de pessoas ocupadas e a pequena recuperação da força de trabalho nos últimos dois trimestres.

Para o Brasil, a taxa de subutilização da força de trabalho ampliada foi de 29,7% no 1º trimestre de 2021, sendo 1,0 p. p. maior do que no trimestre imediatamente anterior (que havia sido de 28,7%), e 5,3 p. p. acima do 1º trimestre de 2020 (de 24,4%).

No caso das mulheres, essa taxa, que sempre foi superior à do Brasil e à dos homens, também apresentou maior aumento em relação aos dois períodos de comparação, evidenciando a maior precariedade na forma de participação delas no mercado de trabalho. No 1º trimestre de 2021, ela bateu novo recorde da série histórica (atingindo 36%), permanecendo muito acima da média desde o início da PNAD Contínua (com uma média histórica de 23,9%). Quando comparada com o 4º trimestre de 2020, nota-se que a taxa foi 1,4 p. p. superior (era de 34,6%), e crescendo 6,8 p. p. quando comparada ao 1º trimestre de 2020 (quando a taxa de subutilização das mulheres era de 29,2%).

Já a taxa de subutilização dos homens foi 11,8 p. p. inferior à das mulheres, no 1º trimestre de 2021, apresentando uma pequena variação entre os períodos comparados. No 1º trimestre de 2021, a taxa foi de 24,2%, 0,6 p. p. maior do que a taxa atingida no 4º trimestre de 2020 (que foi de 23,6%), e 4 p. p. acima do 1º trimestre de 2020.

Esse desempenho das mulheres no mercado de trabalho, com maior taxa de subutilização, está atrelado aos seguintes determinantes:  pelas características das atividades que historicamente são ocupadas por mulheres, e que foram mais duramente afetadas pela crise sanitária, como o trabalho e serviços domésticos, atividades de comércio e serviços, setores de serviços de alojamento e alimentação; e pelo crescimento da indisponibilidade das mulheres diante das restrições impostas pela pandemia que eliminaram as suas estruturas e redes de apoio dos cuidados domésticos e dos dependentes.

Gráfico 8: Taxa (%) de Subutilização para o Brasil, Mulheres e Homens – 1º trimestre de 2020, 4º trimestre de 2020 e 1º trimestre de 2021

4.             POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO DAS PESSOAS OCUPADAS

Neste item é apresentada a análise das posições na ocupação das pessoas ocupadas no mercado de trabalho – sejam elas empregadas, estatutárias, empregadoras, trabalhadoras por conta própria, trabalhadoras domésticas ou alocadas no trabalho familiar auxiliar. A finalidade é entender melhor a composição da estrutura de vínculos e os impactos derivados das mudanças na economia e no próprio mercado de trabalho.

A tabela 2 apresenta a posição na ocupação das pessoas ocupadas no 1º trimestre de 2021. Observa-se que as categorias “empregado do setor privado com carteira” e “conta própria” concentraram a maioria das pessoas ocupadas (Brasil com 34,5% e 27,8%; mulheres com 32,5% e 22,5%; homens com 36,0% e 31,9%, respectivamente). Outras duas categorias relevantes foram: “empregado do setor privado sem carteira” e “militar e servidor estatutário(a)” (Brasil com 11,3% e 10,2%; mulheres com 8,0% e 13,7%; homens com 13,9% e 7,5%, respectivamente). Para as mulheres, e apenas para elas, uma categoria com participação significativa foi a de “trabalhadora doméstica sem carteira” (9,0% das mulheres ocupadas; que se somadas àquelas com carteira atinge um total de 12,1%).

Tabela 2: Pessoas Ocupadas, segundo posição na ocupação e sexo – Totais (em mil pessoas) e Taxa de participação (%) no 1º trimestre de 2021

1º trimestre de 2021 Participação (%)
Brasil Mulheres Homens BR M H
EMPREG. SETOR PRIVADO CC 29.570 12.059 17.511 34,5 32,5 36,0
EMPREG. SETOR PRIVADO SC 9.691 2.947 6.744 11,3 8,0 13,9
TRAB. DOMÉSTICO CC 1.345 1.159 186 1,6 3,1 0,4
TRAB. DOMÉSTICO SC 3.591 3.346 244 4,2 9,0 0,5
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC 1.172 628 544 1,4 1,7 1,1
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC 1.915 1.163 751 2,2 3,1 1,5
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 8.725 5.071 3.654 10,2 13,7 7,5
EMPREGADOR (A) 3.769 1.098 2.670 4,4 3,0 5,5
CONTA PRÓPRIA 23.837 8.334 15.503 27,8 22,5 31,9
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR 2.036 1.268 769 2,4 3,4 1,6
TOTAL 85.650 37.074 48.576 100,0 100,0 100,0

Fonte: microdados da PNAD Contínua – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Com relação às variações de cada uma das categorias (tabela 3), o Brasil apresentou uma redução de 0,6% do total de pessoas ocupadas, sendo um decréscimo de 1,1% de mulheres e 0,2% de homens, quando comparados com 4º trimestre de 2020. Ainda com relação ao trimestre anterior, as posições mais afetadas foram “empregado do setor público sem carteira” (-17,1% para o Brasil, -21,1% para as mulheres e -10,1% para os homens); “empregador” (-1,9% para o Brasil, -4,3% para as mulheres e -3,7% para os homens); “empregado do setor privado sem carteira” (-2,9% para o Brasil, -6,4% para as mulheres e -1,4% para os homens).

Quando comparados com o 1º trimestre de 2020, notou-se que a queda das ocupações foi intensa (no conjunto e, em especial, em algumas categorias) e não pode ser justificada simplesmente por um efeito sazonal do mercado de trabalho. Apenas duas posições na ocupação se encontravam em níveis superiores aos do mesmo período do ano passado: “militares e servidores estatutários” (+7,6% para o Brasil, +12,0% para as mulheres e +2,1% para os homens) e “trabalhador familiar auxiliar” (+5,1% para o Brasil, +4,3% para as mulheres e +6,4% para os homens). No caso do trabalho familiar auxiliar, essa posição na ocupação representa um trabalhador que sai em auxílio de algum parente, na maioria das vezes sem remuneração ou com alguma remuneração simbólica. O aumento dessa posição pode ser decorrente do contexto da pandemia e indica uma maior precariedade no mercado de trabalho, pois mostra que as pessoas estavam disponíveis para auxiliar, mesmo sem remuneração, algum familiar que precisava.

Tabela 3: Pessoas Ocupadas, segundo posição na ocupação e sexo – taxa de variação (%) 1º trimestre de 2021 versus 4º trimestre de 2020 e versus 1º trimestre de 2020

Variação (%)

(versus 4º trimestre de 2020)

Variação (%)

(versus 1º trimestre de 2020)

Brasil Mulheres Homens Brasil Mulheres Homens
EMPREG. SETOR PRIVADO CC -1,1 -0,5 -1,4 -10,7 -11,0 -10,4
EMPREG. SETOR PRIVADO SC -2,9 -6,4 -1,4 -12,1 -18,3 -9,1
TRAB. DOMÉSTICO CC 5,0 2,6 22,5 -18,0 -19,8 -4,9
TRAB. DOMÉSTICO SC -0,8 -1,7 12,1 -17,1 -17,4 -12,9
EMPREG. SETOR PÚBLICO CC -1,9 -3,5 0,1 -2,7 -6,8 2,6
EMPREG. SETOR PÚBLICO SC -17,1 -21,1 -10,1 -18,3 -21,3 -13,0
MILITAR E SERVIDOR ESTATUTÁRIO 0,8 2,1 -1,0 7,6 12,0 2,1
EMPREGADOR (A) -3,9 -4,3 -3,7 -14,0 -15,8 -13,3
CONTA PRÓPRIA 2,4 1,9 2,7 -1,3 -2,1 -0,9
TRABALHADOR FAMILIAR AUXILIAR -0,7 0,6 -2,8 5,1 4,3 6,4
TOTAL -0,6 -1,1 -0,2 -7,1 -8,1 -6,3

Fonte: microdados da PNAD Contínua – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Todas as demais posições apresentaram redução, tendo um maior destaque as seguintes categorias: “empregado do setor público sem carteira” (-18,3% para o Brasil, -21,3% para as mulheres e -13,0% para os homens); “trabalhador doméstico com carteira” (-18,0% para o Brasil, -19,8% para as mulheres e -4,9% para os homens); “trabalhador doméstico sem carteira” (-17,1 para o Brasil, -17,4% para as mulheres e -12,9% para os homens) e, finalmente, “empregado do setor privado sem carteira” (-12,1% para o Brasil, -18,3% para as mulheres e -9,1% para os homens).

Dois resultados relevantes podem ser observados a partir da variação do último ano. Em primeiro lugar, pode-se notar  uma redução no trabalho informal (considerado aqui como o trabalhador familiar auxiliar e o trabalhador sem carteira; ao qual poderiam se somar os empregadores e os conta própria que não contribuem para a previdência) ao longo do período da pandemia, um fenômeno atípico para uma crise econômica, pois, em contextos de crise, em geral, ocorre uma tendência de aumento da informalidade, que funciona como a única possibilidade de subsistência, servindo como um “colchão amortecedor” de absorção dos desocupados[9]. Em segundo lugar, o trabalho doméstico, com e sem carteira, foi muito impactado no período da pandemia. As famílias, por conta das medidas sanitárias de isolamento social, dispensaram suas funcionárias, muitas vezes sem remuneração; e, como o trabalho doméstico é tipicamente feminino, o impacto sofrido pelas mulheres foi muito maior.

5.             RENDIMENTO MÉDIO DAS PESSOAS OCUPADAS

Nesta seção são apresentados os dados do rendimento médio das mulheres e homens ocupados no 1º trimestre de 2021, de acordo com a cor ou raça, nível de instrução e cargo. No Brasil, no 1º trimestre de 2021, o rendimento médio foi de R$2.544,0, mantendo-se grandes as diferenças por sexo, cor ou raça, conforme apresentado na tabela 4. Nota-se que o maior rendimento médio observado foi para os homens brancos ou amarelos (R$3.672,9) e o menor para as mulheres negras ou pardas (R$1.659,7).

Tabela 4: Rendimento médio das pessoas ocupadas, segundo cor ou raça e o sexo – Valores do 1º trimestre de 2021 (em R$)

Brasil Mulheres Homens
Total 2.544,0 2.239,1 2.772,3
Brancos/Amarelos 3.292,1 2.824,0 3.672,9
Pretos/Pardos 1.871,2 1.659,7 2.017,6
Indígenas 2.074,3 2.155,0 2.022,8

Fonte: microdados da PNAD Contínua – IBGE. Elaboração: NPEGen.

Cor ou Raça

Para facilitar a comparação, as pessoas foram separadas de tal forma a apresentar, primeiramente, os rendimentos médios do Brasil (base 100), das mulheres e dos homens. Depois, as pessoas foram separadas de acordo com o sexo e também com a cor ou raça – brancos/amarelos, pretos/pardos e indígenas.

É possível observar, a partir do gráfico 9, que as mulheres pretas/pardas apresentaram o menor rendimento médio da população, equivalente a 65,2% do rendimento médio do Brasil. Essa foi a única categoria que ficou abaixo dos 70% do salário médio da população. No outro extremo, situaram-se os homens brancos/amarelos, com rendimento 44,4% acima do rendimento médio da população, seguidos pelas mulheres brancas/amarelas (11,0% acima do rendimento médio da população). Essas foram as duas únicas categorias com rendimentos superiores ao da média da população. Isso mostra que, além de um recorte de sexo, considerar cor, raça ou etnia também é muito importante para analisar a desigualdade no Brasil[10].

Gráfico 09: Rendimento médio relativo por sexo e cor ou raça, 1º trimestre de 2021

Nível de Instrução

Outra forma de comparação relevante para os rendimentos é a observação do rendimento médio por nível de instrução. Novamente, os rendimentos médios do Brasil representam a base 100. Como era de se esperar, o aumento no nível de instrução acarreta um aumento dos salários, porém, junto com esse aumento, a diferença dos rendimentos entre homens e mulheres fica cada vez maior.

A partir do gráfico 10, observa-se que apenas as mulheres com ensino superior completo conseguiram ultrapassar o rendimento médio da população (62,2% acima do rendimento médio para as mulheres), contudo, os homens na mesma posição ganharam mais do que o dobro do rendimento médio (2,57 vezes o rendimento médio da população) e, com isso, o rendimento das mulheres equivaleu a 63% dos homens nesta categoria.

Considerando-se até o nível superior incompleto, as mulheres alcançam no máximo 69,7% do rendimento médio da população, enquanto os homens alcançam um rendimento médio 14% maior.

Os resultados para o 1º trimestre de 2021 mostram, no entanto, que quando consideradas as pessoas sem instrução, o rendimento médio das mulheres e homens se equivaleram, mostrando que o baixo rendimento das pessoas ocupadas nas atividades mais precárias, relacionados ao baixo nível de instrução, não discrimina gênero. No entanto, à medida em que aumenta o nível de instrução, aumentam as diferenças e a segmentação por gênero, em que mulheres recebem rendimentos abaixo daqueles recebidos pelos homens com mesmo o maior de instrução, rendimentos 36,8% menores.

Gráfico 10: Rendimento médio relativo por sexo e instrução, 1º trimestre de 2021

Cargo

Por fim, os rendimentos são comparados entre os cargos das pessoas ocupadas. O rendimento médio do Brasil, novamente, é a base e igual a 100. Cargos mais altos, com rendimentos médios superiores ao da população apresentaram maior desigualdade entre homens e mulheres.

A partir da análise do gráfico 13, é possível observar que os cargos “elementares”, “agropecuária, caça e pesca” e “serviços e comércio”, possuíam rendimento médio inferior à média da população, tanto para o Brasil, quanto para as mulheres e os homens – representando 42,1%, 61,0% e 69%, respectivamente, para o Brasil. A desigualdade entre homens e mulheres foi pequena nas profissões elementares (o rendimento das mulheres representou quase 90% do rendimento dos homens), mas é maior na agropecuária (mulheres recebem 70% do rendimento dos homens) e, também, em serviços e comércio (mulheres recebem 63% do rendimento deles).

Nos cargos com rendimento acima da média da população, o rendimento das mulheres superou o dos homens apenas nas “forças armadas, policiais e bombeiros” (com o rendimento dos homens sendo 84,3% do rendimento das mulheres). Nos cargos de “diretores e gerentes” e “profissionais das ciências” a desigualdade entre homens e mulheres ficou ainda mais evidente: elas tiveram um rendimento médio de 64,7% e 61,3% do rendimento deles, respectivamente.

Gráfico 11: Rendimento médio relativo por sexo e cargo, 1º trimestre de 2021

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Levando em consideração os dados expostos neste boletim, pode-se dizer que o mercado de trabalho no 1º trimestre de 2021 atingiu os piores resultados dentro da série histórica de levantamentos pela PNAD Contínua, desde 2012. Além dos efeitos da crise econômico-sanitária que se fizeram sentir ao longo do ano de 2020, houve o agravamento da pandemia e uma lenta e tumultuada campanha de vacinação, o que levou o país a atingir os seus piores números no último mês deste 1º trimestre de 2021. Foram adotadas novas e mais rigorosas medidas de distanciamento social, com nova fase de paralização de atividades econômicas, atingindo sobremaneira as atividades de serviços, comércio, turismo e o trabalho doméstico; além da necessidade de fechar novamente as escolas e creches. Ou seja, a sutil tentativa de retomada no mercado de trabalho ao final de 2020, foi rapidamente revertida neste começo de 2021.

Essa piora da situação imposta pela crise sanitária se somou ao ajuste considerado sazonal de virada de ano, quando muitas ocupações temporárias de final de ano têm contratos encerrados, o que agrava mais a condição do mercado de trabalho.

Há que se considerar também questões estruturais da economia brasileira, que encontra dificuldades para a retomada das atividades econômicas, com redução do tamanho da indústria e de setores que são responsáveis pela geração de novas, e mais qualificadas e formalizadas, vagas de trabalho.

Como resultado, a situação do mercado de trabalho ficou ainda mais longe daquela que é necessária para a retomada de um nível de atividade e de um quantitativo de postos de trabalho que seja capaz de absorver a força de trabalho disponível no Brasil.

Para mostrar esse cenário do 1º trimestre de 2021, ficou destacado neste boletim que houve uma elevação nas taxas de desocupação e de subutilização da força de trabalho ampliada com relação ao 4º trimestre de 2020, que reforça a perda de dinamismo econômico e a importância do agravamento do quadro pandêmico quando comparados os resultados com o 1º trimestre de 2020. Além disso, ressalte-se que são as mulheres as mais atingidas, com mais de 8 milhões de mulheres desocupadas, procurando emprego, disponíveis para o trabalho, mas sem conseguir encontrar qualquer forma de ocupação. São mais de 18,7 milhões de mulheres na força de trabalho subutilizada, 56,4% do total da FT subutilizada.

Também se destacou que o 1º trimestre de 2021 apresentou uma pequena elevação das pessoas fora da força de trabalho, somando mais de 76,5 milhões de pessoas, das quais 64% são mulheres. Manteve-se o cenário em que, com as escolas públicas ainda fechadas e sem conseguir contar com uma rede de apoio, foram muitas as mulheres que não conseguiram sair da condição de indisponibilidade. No 1º trimestre de 2021, 65,5% das pessoas indisponíveis foram mulheres (mais de 3,5 milhões), sendo que muitas alegaram estar fora da força de trabalho contra o seu desejo, por terem que cuidar dos afazeres domésticos.

 

REFERÊNCIAS

GORAYEB, Daniela S.; FONSECA, Camila V. C; FILLETI, Juliana de P.; CAJUEIRO, Juliana P. M. Uma análise do mercado de trabalho no contexto da crise econômico-sanitária de 2020: efeitos sobre as mulheres, sua saída da força de trabalho e sua indisponibilidade. In: Anais do XXVI Encontro Nacional de Economia Política, evento virtual, de 08 a 11 de junho de 2021. SEP. Disponível em: https://enep.sep.org.br/uploads/1649_1615673090_SEP_trabalho_identificado_pdf_ide.pdf.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2018. Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios Contínua. Notas Técnicas – Versão 1.5. 2ª ed. Rio de Janeiro. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101561_notas_tecnicas.pdf.

[1] Para entender melhor a crise sanitária e os efeitos da crise prolongada que a precedeu, verifique Gorayeb  et. al. (2021).

[2] População em idade ativa são as pessoas de 14 anos ou mais. Todas as definições das categorias da população em idade ativa podem ser encontradas em IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2018)

[3] São classificadas como ocupadas na semana de referência as pessoas que, nesse período, trabalharam por pelo menos uma hora completa em trabalho remunerado em dinheiro, produtos, mercadorias, ou benefícios (moradia, alimentação, roupas, treinamento, etc.), ou em trabalho sem remuneração direta em ajuda à atividade econômica de membro do domicílio ou parente que reside em outro domicílio, ou, ainda, as que tinham trabalho remunerado do qual estavam temporariamente afastadas nessa semana.

[4] São classificadas como desocupadas na semana de referência as pessoas sem trabalho em ocupação nessa semana que tomaram alguma providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias, e que estavam disponíveis para assumi-lo na semana de referência. Consideram-se, também, como desocupadas as pessoas sem trabalho na semana de referência que não tomaram providência efetiva para consegui-lo no período de referência de 30 dias porque já o haviam conseguido e iriam começá-lo em menos de quatro meses após o último dia da semana de referência.

[5] Os motivos para as pessoas se classificarem nesse subgrupo estão expostos na Seção 4.

[6] Número de pessoas desocupadas em relação às pessoas na força de trabalho.

[7] São classificadas como pessoas Subocupadas aquelas que trabalharam menos do que 40 horas semanais no seu único trabalho ou no seu conjunto de todos os seus trabalhos, gostariam de trabalhar mais horas do que as habitualmente trabalhadas e estavam disponíveis para trabalhar mais horas no período de 30 dias, contados a partir do primeiro dia da semana de referência.

[8] Considera-se Força de Trabalho Ampliada a soma das pessoas na Força de Trabalho (FT) com a Força de Trabalho Potencial (FTP) (IBGE, 2020).

[9] Para mais detalhes, vide Gorayeb, et. al. (2021).

[10] Ver o Boletim Mulheres Negras no Mercado de Trabalho, outra publicação do NPEGen.

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