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Relatório Trimestral de Conjuntura: Incertezas e Fragilidades

Sumário Executivo

A redução de 0,1% do PIB no segundo trimestre de 2021 sugere uma possível reversão da trajetória futura da atividade econômica brasileira, colocando em risco as previsões de crescimento para 2021 e 2022.

Pelo lado da demanda, preocupa o comportamento negativo do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo no segundo trimestre do ano, comprometendo o circuito gasto-renda e amplificando as incertezas para os períodos subsequentes. A lentidão da recuperação no mercado de trabalho, os níveis recordes de endividamento das famílias, a escalada inflacionária e a queda dos investimentos públicos contribuem para um círculo vicioso, que pode culminar com a revisão para baixo das expectativas sobre o nível da atividade econômica. Prejudicando o consumo das famílias, o processo inflacionário brasileiro tem se mostrado mais intenso e duradouro, amplificado pelo preço dos combustíveis, pela crise hídrica e do setor elétrico e pela recente desvalorização cambial, que pressiona insumos e bens finais importados. Contribuindo para a queda da formação bruta de capital fixo, destaca-se o fim do efeito contábil do Repetro, que reduziu as importações de máquinas e equipamentos, bem como a desaceleração de sua produção nacional, motivada pelo aumento da incerteza dos empresários em relação à continuidade da recuperação, à escassez de insumos de produção (principalmente no setor automotivo) e à possibilidade de racionamento de energia.

Do lado da oferta, nota-se a instabilidade no comportamento do varejo ampliado e da indústria no segundo trimestre de 2021. Os efeitos positivos do relaxamento das medidas de restrição da quarentena foram superados pelo ambiente de incerteza vivenciado pelos consumidores e investidores. Para o recente desempenho negativo da indústria contribuiu o comportamento desfavorável do setor automotivo, refletindo a persistência dos problemas de abastecimento da cadeia produtiva, e também o setor de alimentos, associado à queda expressiva dos programas de transferência de renda, à lentidão da recuperação do mercado de trabalho e à escalada inflacionária. Setores da indústria que apresentavam comportamento relativamente favorável também parecem enfrentar dificuldades para sustentar seu crescimento, como máquinas e equipamentos e construção civil. A recuperação do setor de serviços tem compensado parcialmente o desempenho negativo da indústria. Entretanto, a continuidade da retomada de serviços, que era esperada por conta da flexibilização da quarentena e avanço da vacinação, depende muito mais da recuperação do emprego e da renda do que de um possível uso de parte da poupança precaucional acumulada ao longo da pandemia no momento de arrefecimento da crise sanitária e retomada do consumo.

Já o saldo da conta de transações correntes brasileira tem se mantido fortemente dependente do comportamento positivo do comércio externo de bens para contrabalançar as despesas líquidas com serviços e rendas primárias. A estabilidade de participação dos saldos negativos da conta corrente no PIB brasileiro tem sido influenciada tanto pelas condições favoráveis do comércio internacional de commodities, que contribuem para o superávit comercial, quanto pela conjuntura de baixo nível de atividade econômica local e de restrição de mobilidade internacional de pessoas, que garantem déficits controlados nas contas de serviços e de rendas primárias. (atualmente pressionada pelos preços), contendo o avanço dos superávits comerciais.

As instabilidades setoriais e as incertezas que rondam as decisões de gastos de famílias e empresários são agravadas pela combinação da política macroeconômica pró-cíclica, adotada pelo governo em 2021, com a crise energética esperada para o final do ano. A conjunção desses fatores conforma um cenário negativo para 2022, pois contribui para uma reversão definitiva da trajetória do gasto com investimento e para a lentidão da recuperação do mercado de trabalho.

O retorno abrupto da política fiscal em 2021 para os limites impostos pelo teto de gastos gerou diversas consequências negativas para a recuperação da atividade econômica, agravadas pela demora na aprovação do orçamento, afetando o volume de gastos, especialmente para o combate à pandemia, no primeiro trimestre de 2021. Por sua vez, a aprovação do novo auxílio emergencial tem sido insuficiente para manter a recuperação da atividade econômica. A política monetária contracionista de combate à inflação defronta-se com o fantasma da estagflação. A tentativa de controle da inflação através da elevação abrupta da taxa Selic e do controle do canal de transmissão das expectativas significa impor um custo excessivo à sociedade, em contexto de acentuado viés recessivo. O controle da inflação da forma como se apresenta atualmente no Brasil passa por reorganizar as cadeias de distribuição e abastecimento, truncadas pelas incertezas da pandemia.

Finalmente, a crise do setor energético brasileiro segue alimentando preocupações crescentes quanto a um possível cenário de racionamento e, no limite, de apagão. Para se evitar o fantasma do apagão no biênio 2021-2022 já não basta a combinação de uma melhoria das condições hidrológicas com as ações emergenciais adotadas até então pelo governo. Torna-se urgente a adoção de um programa amplo de redução voluntária de demanda, com participação da indústria e dos consumidores. A necessidade de redução da demanda para reequilíbrio do sistema mostra, assim, que a possibilidade de aceleração econômica encontra-se indubitavelmente bloqueada pelas condições energéticas.

 

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