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Por que Trump Venceu?

A eleição de Trump surpreendeu muita gente. Foi um verdadeiro choque: a imprensa, os mercados financeiros, os governos; todos ficaram atordoados.

Como uma pessoa como Trump, um outsider, que não fez carreira política e levava uma vida de celebridade cheia de polêmicas, incorreções políticas e empreendimentos duvidosos pôde virar presidente da maior potência econômica e militar do mundo?

Neste vídeo, vamos discutir as razões que levaram à sua eleição, algumas estruturais, relativas à globalização e às ligações da economia americana com a da China e outras de ordem conjuntural, como a falta de bons candidatos no partido Democrata: desde o início, a rejeição ao nome de Hillary Clinton era enorme e Bernie Sanders era malvisto pela cúpula partidária. Hilary era malvista por grande parte da sociedade por seus laços com Wall Street. Lembremos que com a crise de 2008 milhões de pessoas perderam suas casas e se empobreceram enquanto os bancos ganharam cada vez mais. Com ajuda dos políticos de Washington como Hillary, que nada fizeram parte da população que vive em uma crise sem fim.

Vamos nos deter na situação econômica dos Estados Unidos, o fator decisivo e central para a vida das pessoas. Nas últimas décadas, os Estados Unidos têm passado por um processo muito particular: a economia americana se desindustrializou e se integrou de maneira muito intensa com a economia chinesa. Como assim?

As empresas americanas, desde os anos 80, têm procurado reduzir fortemente os seus custos se instalando em outros países. A saída mais importante foi a instalação na China. Por quê? Custos salariais muito menores, mas também uma economia em rápido crescimento, com câmbio desvalorizado, carga tributária baixa, infraestrutura moderna e eficiente.

Estes fatores estimularam muito a instalação de empresas americanas na China, que passavam a exportar seus produtos de volta para os Estados Unidos. Formou-se um círculo virtuoso: investimentos americanos na China, consumo nos Estados Unidos; lucros nos Estado Unidos, acúmulo de dólares na China. Este modelo de crescimento funcionou muito bem por muitos anos. Esta integração das duas economias é um dos aspectos mais importantes da globalização.

Mas ele era baseado em uma questão muito grave... Se está tudo sendo produzido na China, como os americanos podem comprar toda aquela montanha de produtos chineses? Com que renda? Com que salário?

A verdade é que boa parte dos empregos e da renda que era gerada nos Estados Unidos foi para a China. E outra parte importante do emprego também foi destruída pelos avanços tecnológicos da III Revolução Industrial, dos robôs e dos computadores.

Os salários estão estagnados e os empregos pioraram muito. Segundo o governo americano, as ocupações que mais crescem nos Estados Unidos hoje são cuidadores de idosos, garçons e diversos outros serviços pessoais mal remunerados e com baixa qualificação.

Além disso, a baixa geração de emprego levou muitas pessoas a desistirem de procurar emprego. Quem olha superficialmente para o mercado de trabalho, vê que o desemprego caiu para 5%, o que é aparentemente baixo. Mas as medidas de desemprego mais corretas, que contemplam quem está subempregado e quem desistiu de procurar emprego, chegam a assustadores15%.

Como disse o próprio Donald Trump: se a situação econômica estivesse boa, eu não tinha tantos votos.

Então como os americanos conseguiam comprar os produtos chineses? Com crédito. Veja bem, os Estados Unidos não são como no Brasil que tem juros altíssimos, onde você paga 400 ou 500 por cento ao ano. Lá, você só tem que pagar o seu cartão quando usa todo o limite e tem juros de menos de 10% ao ano!

Nestes últimos 30 anos, os americanos compraram muito graças ao endividamento crescente. Os bons empregos diminuíram, a renda disponível encolheu e a população se endividou. A dívida das famílias americanas é altíssima, quase 80% da renda do país. As pessoas devem para os bancos 4 de cada 5 dólares gerados nos Estados Unidos.

Ou seja, grande parte da população americana se empobreceu nas últimas décadas e está com graves problemas financeiros. Não é só o negro ou hispânico pobre que está com problemas. Estas dificuldades atingem os brancos pobres e de classe média.

Esta é situação é mais sentida nas antigas áreas industriais e no interior dos Estados Unidos. Para se ter uma ideia, em Detroit, a cidade do carro, símbolo da indústria americana, não existe mais nenhuma rede de supermercados! As fábricas fecharam e foram abandonadas, virando pequenas plantações dos sem-teto.

Os Estados Unidos viraram um país dividido. A parcela mais rica da população, os executivos da área financeira ganharam ainda mais dinheiro que antes e nunca foram tão ricos. Só para dar uma ideia, 6 dos 8 homens mais ricos do mundo são americanos. Eles têm mais dinheiro que a metade do mundo. Isso mesmo: 6 americanos têm mais dinheiro que 3 bilhões e meio de pessoas.

 

Veja o mapa. Este é o mapa que mostra onde Trump ganhou e é o mapa que mostra onde a população americana perdeu com este processo de globalização.

Trump ganhou em praticamente todos as cidades americanas. Ele perdeu apenas nos grandes centros, que concentram os vencedores da globalização – aqueles supermilionários que acabamos de falar e pessoal do seu entorno: pilotos, motoristas, mordomos, estilistas etc.

Vamos lembrar que este não é um problema recente. São décadas em que os americanos vão solidificando uma percepção que os seus empregos roubando estão sendo roubados pelos imigrantes e pelos chineses. Esta é uma percepção que encobre uma realidade grave: os imigrantes e os chineses trabalham por uma remuneração inaceitável para os padrões americanos.

Mas existe uma realidade: o desemprego e a falta de perspectiva dos americanos, o que alimentou um forte sentimento de desesperança. O futuro foi ficando mais sombrio. Na política dos dias de hoje, como ocorre em muitos países, todos dizem que a situação é muito difícil. Mas dizem também que há muito pouco a se fazer e que é preciso se preparar para fazer sacrifícios e austeridade.

Neste ambiente que surgiu Trump. Com um discurso inacreditável, discriminando mexicanos, muçulmanos, tratando as mulheres com primitivismo e violência, revelando um conhecimento primário das raízes da crise americana e hostilizando de forma preocupante a imprensa, Trump foi ganhando fama de que é capaz de mudar a situação.

Como a história já mostrou em diversas e notáveis ocasiões, sua falta de compromisso com a verdade é transformada e percebida por parcela da população como coragem, sinceridade e verdade.

“Make America Great Again” – fazer os Estados Unidos grandes de novo, seu bordão – calou fundo na alma dessa enorme quantidade de eleitores que vem sendo derrotada nas últimas décadas. Em seu primeiro mês como presidente eleito, Trump disse “The world is in trouble – but we’re going to straighten it out, OK?”. Esta é sua ideia : ““That’s what I do. I fix things. We’re going to straighten it out. Believe me. When you hear about the tough phone calls I’m having – don’t worry about it. Just don’t worry about it. They’re tough. We have to be tough, it’s time we’re going to be a little bit tough, folks. We’re taken advantage by every nation in the world, virtually. It’s not going to happen any more.”

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